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A mão

O punho forte e enrijecido pela vida batia com força. Contemplava-se multifacetado nos pequenos rastros que o vidro fazia diante de seus golpes. Aumentava-lhe a dor, a raiva. Embebido pelo ódio mergulhava mais uma vez o punho. Via-se vermelho. Rubro por dentro e por fora. O vidro banhado pelo sangue teimava em não romper. Aquilo só alimentava sua indignação. Dentro uma mulher de meia idade gritava de desespero sem conseguir controlar as emoções pelo mínimo de tempo necessário para arrancar dali. Só chorava. Suas lágrimas se misturavam aos cacos de vidros que choviam sobre seu rosto enrubescido de medo e agonia. O homem maltrapilho - a roupa toda pueril, o cabelo desgrenhado e a barba encaracolada que denunciava seu estado de desequilíbrio - insistia em seus golpes constantes. Vivia uma catarse, entrara em transe e as marteladas contínuas serviam de ritmo hipnótico que o levavam a transportar-se para outro tempo e lugar. Tinha tudo e era feliz. Carro e casa, uma amada mulher e duas men...

O santeiro

A sala era alva, coberta de branco das paredes até o teto. Grossa pelo gesso que se impunha em camadas que de tão espessa vez por outra despencavam sobre o chão. Uma profusão de cores misturadas no chão faziam daquele espaço um arco-íris sobre o qual os poucos que lá entravam podiam caminhar. Em meio ao calor ardente advindo de uma fornalha no final da sala trabalhava o homem, em meio a madeiras, facas, serrotes, formas e pincéis. O dedo todo marcado pelo talho que retirava pedaços grandes e que fazia curvas suaves, que vez por outra banhava a peça com seu próprio sangue. A sala sem ventilação fazia-o suar e nesse suor derramava-se por inteiro sobre as peças transpirando inspiração, sentindo as dores do parto terminava mais um santo. Saído da madeira, coberto de tinta e entranhado do santeiro, lá se via mais um estava pronto. Este santo seria seu milagre, fruto de suas próprias mãos, traria o sustento para a casa, colocaria o pão na mesa. Por hoje bastava. Por hoje.

Fernando Pessoa

Ia escrever um texto sobre a relação entre a saudade e a dor provocadas pela distancia e o salgado das lágrimas e do mar, mas descobri que o Fernando Pessoa já tinha um texto maravilhosos sobre tal, então apenas transcrevo as palavras do autor lusitano. MAR PORTUGUÊS Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quere passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu

Mar de saudades.

Todos chamavam-lhes dois pombinhos. Não gostavam muito da comparação, sempre acharam os pombos promíscuos. Desde que se acharam sabiam que era para a vida toda. Amavam-se com dedicação e paixão. Demoraram muito para se encontrar, muitos até diziam que já passavam da época de ter um par. Esperaram a hora certa, se escolheram. Juntos iam as estrelas e procuravam tocar a lua. Eram felizes. Em um imenso de felicidade ele foi a procura de comida. Tinha ido para o mar procurar alimento para ambos, e para o filhinho que estava para nascer. Passou o dia, veio a noite e ele não voltou. Passaram-se horas, dias e ele não voltava. Ela, remoendo-sem saudade voara sobre o mar. Deixava-se guiar pelo sentimento que carregava no peito e o símbolo da união que trazia no ventre. Batida após batida a força das asas ficava cada vez mais fraca, e a procura cada vez mais intensa. Voara até o amanhecer. Mas naquele dia não houve mais amanhã. E em um mar de saudades se acabou o amor dos dois pelicanos.

A luz das estrelas

Gostava quando a noite chegava, podia ver, lá por detrás das luzes dos postes a beleza das estrelas, brilhavam um brilho calmo e limpo. Ajudava a descansar. Depois de um dia inteiro de pisoteio, desprezo e até de ser cuspida, gostava de relaxar de noite, com o ventinho frio tocando-lhe e as luzes, sim, as luzes das estrelinhas tão distantes. Mas em uma fração de segundos tudo mudara. Que luzes mais esquisitas eram essas, esse amarelo fogo saindo de dentro dos canos pretos, e de repente uma chuva de pedrinhas brilhantes lhe envolvia. Era o vidro, vidro gelado pelo ar condicionado de dentro da sala dos caixas eletrônicos do banco, vieram três, quatros papocos grandes vindos de dentro do prédio e uma profusão de sirenes e gritos. Até que sentiu, em meio ao medo, o calor se depositando sobre ela. Era sangue, ainda cheio de vida, e um, dois, três corpos pesados, imóveis. Desde o começo daquela noite, a pobre calçada não tivera mais sossego, já se iam seis horas e centenas de pés já lhe pisa...

As filhas da mesma mãe

Sentia a água correr por seu corpo. O líquido frio passava-lhe pelo peito cabeludo arrastando as sujeiras de dias e dias de poeira, marcha e cansaço. Sentia os pelos arrepiarem-se em busca de calor. Sempre achara engraçado esses carocinhos que apareciam na pele quando sentia frio. Um dia, se possível, pediria para um doutor lhe explicar o por que disso. O cabelo já meio comprido caía perto do ossinho que marcava o fim do pescoço e o começo das costas. Estava mais magro, os últimos dias foram tão corridos que não conseguira comer direito, só um pão velho e dormido aqui ou acolá. E para dar gás, engolia um trago de pinga para esquentar o sangue. Finalizado o banho, enxugava-se lentamente, procurando deixar limpa cada uma das reentrâncias do corpo, esfregava com força entre os dedos dos pés, parecia que ia arrancar o couro, mas queria que tudo estivesse perfeito. O cheiro doce da alfazema entrava-lhe pela narina enquanto banhava-se no líquido perfumado. Vislumbrava o rosto no pedaço de es...

Pedrinha miudinha.

"Pedrinha miudinha, pedrinha de aruanda é.." os batuques tocavam alto. Os braços levados por um transe rítmico batiam com força nos atabaques e tambores. Ôoooooooo. Como por um passe de mágica o volume das batidas baixou e ficou fazendo uma música de fundo perfeita enquanto no centro da roda, as barras de renda e miçangas balançavam, circulando rápido e onduladamente. A voz começou a soar. Era baixa, mas forte e precisa. Com um rouco arrastado preenchia todos os cantos do terreiro, chegava a todos os ouvidos, parecia falar dentro e cada alma. - Cadê meu pagamento mizifí? Uma galinha deu seu ultimo cacarejo. Enquanto o sangue escorria sobre a farofa, uma garrafa de cachaça beijou os lábios do santo. Em meio a fumaça a voz mais uma vez fez os corações ficarem gelados. -Hum...Ouvi seu pedido, recebi sua oferta. Agora, para brigar com esse diaxo fraquim tem que fazer outro tipo de sacrifício. Mande aqui o diaxo daquele boi. E apontou com o dedo semi-curvado para um boi magro e f...