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Jonnhy era um homem legal.

Catherin ficou muito apreensiva quando o pai chegou com a notícia, estava prometida para um homem que nunca vira na vida, mas que tinha dinheiro suficiente para convencer o pai de que daria um bom futuro para a única filha dele. Consternada e contrita subiu ao altar. Surpreendeu-se de como ele era belo e forte. Os cabelos loiros caiam pela testa em um penteado que dividia os fios ao meio, a barba rala e por fazer dava um aspecto de trabalhador e ao mesmo tempo de machão. E ele era. Impressionou-se como todos na pequena cidadezinha do oeste americano respeitavam seu novo esposo. Sempre o cumprimentavam, os presentes foram tantos que ela demorou uma semana para terminar de abrir todos e coloca-los em algum lugar dentro da casa grande e maravilhosa em que agora morava. Tiveram cinco filhos, ele não dava descanso para Catherin em nenhum momento. Era presença garantida na cama da esposa mesmo quando a barriga já estava crescida. Ah, e como era bondoso com ela, dava-lhe tudo do bom...

Morreu Carlos...

Eram duas horas da tarde quando a musiquinha do plantão da tv tocou. Morreu o deputado Carlos Cavalcanti, 62 anos, trinta deles dedicados a vida pública, passou por cinco presidentes, exerceu cargos de chefia em várias estatais, por três vezes fora ministro nas mais diversas pastas... Comprara um palacete no interior do estado, tinha mais de quinze processos nas costas, fora visto com pelo menos cinco prostitutas no paraíso fiscal a dez anos atrás sem falar que depois descobriram que tudo fora pago com dinheiro publico, desviou verbas da merenda escolar. Já vai tarde. Horrorizada, Maria Helena, no auge de seus cabelos brancos olhou para o filho, com um ar atônito de quem havia acabado de intender tudo. Já vai tarde este filho de uma puta. Abraçaram-se, juntos abriram a Sidra que estava guardada para o fim de ano. Não foram os únicos, conseguiam ouvir fogos na rua. A polícia fora mandada para intervir. Cacetetes argumentaram com bastante eloquência. Silêncio, afinal o país estava de lut...

Miopia! ou A beleza de um Atari.

Queria eu ser míope. Queria ver tudo igual a um borrão, Por que assim, todos seriam iguais, não haveriam nem bonitos nem feios, nem héteros nem homossexuais, não haveriam cabelos da moda e cortes ultrapassados. Haveria ainda algumas diferenças, essas não poderia apagar. Talvez sejam ate mesmo necessárias para fazer o mundo ser divertido. Quem sabe, se a vida fosse um jogo, não igual a esses moderninhos de computações gráficas perfeitas ou simulações realistas. Seria bom se a vida fosse um grande Atari, onde todos fossemos bonequinhos e três ou quatro pixels, ai queria ver se ainda teria tanta gente se matado e se odiando... Querem tanto me fazer ver... me dizem tanto para abrir o olho, acho que o melhor seria fechá-los e não ver nada, so sentir. Sentir o calor de meu amigo, a voz afável de meu irmão, o carinho de minha namorada, o companheirismo de meus colegas. O vento frio e o calor do sol, pronto, só isso, sem tantos detalhes, sem tanto disse me disse ou chororô, só se...

O nascimento.

Eram dias lindos, o vento corria solto pelas matas, passava safadamente dando beijos apressados pelos rostos das folhas verdes da primavera, e estas, nem tempo de reagir tinham. Mal o vento vinha, já se tinha ido. Arrastava consigo o odor gostoso de grama molhada. Os animais eram poucos, mas bem grandes, e do alto de seu tamanho descomunal não faziam um único urro ou grito incompreensivelmente assustador, eram os senhores e calmamente viviam e sentiam, expressavam sua vontade com paciência e eloquência. E assim, era. Mas havia, em meio a todos os bichos, um que não partilhava dessa felicidade, era um dos poucos que podia ficar em pé, mas quase não o fazia, passava dias inteiros de costas pregadas ao chão, as plantinhas até o cobriam, pensando se tratar de mais uma pedra no meio do caminho. Até que: Ai, ai. Corriam feito loucas, era um salve-se quem puder, mais uma vez haviam cometido o erro de se pregarem aquele monstro que de tão cego, não via que ao se levantar com pres...

Fio do tempo.

O barulho contínuo das lâminas da tesoura produzia um encanto aos seus ouvidos, as mãos hábeis do cabeleireiro iam moldando o já há muito fora de corte cabelo dele. Com a cabeça ereta buscava acompanhar o desenho que ia sendo produzido. Os olhos acompanhavam ponto a ponto, até que, ao seguir um tufo que fora ceifado, a vista baixara alguns milímetros e se deparara com o olhar, seu próprio olhar. Mas quem era aquele que via diante de seus olhos? No espelho refletia mais, bem mais que a si próprio. A luz amarela vinda da rua, quente de véspera de meio dia era combatia, justo ao meio de sua face pela luz branca vinda de um pequeno foco de luz fluorescente suspenso na parede por um daqueles adaptadores que se coloca direto na tomada. No meio dessas luzes estava ele. O rosto lhe parecia tão estranho. Via um homem, com um rosto marcado, tantas rugas, tantas lembranças. Ao acompanhar o tracejado de uma delas que brotava no meio da testa sempre que levantava um pouco as sobrancelhas, se...

O sacrário - Final

O sol alaranjado marcava o fim de mais um dia... O vento balançava forte as árvores daquele campo santo... Um misto de comoção e alívio, indignação e incompreensão permeava todos que lá estavam... Enfim tudo acabava. Havia grupos bem definidos. De um lado os donos das empresas de jornal e televisão, felizes pelo pão-nosso-de-cada-dia garantido por pelo menos 15 dias de repetições ininterruptas daquele caso, que acima de tudo, era insólito. De outro, dois ou três parentes do jovem Matheus que vieram despedir-se. Ele precisava ser pranteado, ele precisava descansar, depois de tudo... Os mesmos dois ou três parentes da mãe, Mariana de Albuquerque, enfim partia desta vida. Que o diabo a levasse por tudo que os fizeram sofrer! Em meio a tudo isso, a professora, o policial e o réu. ... A fumaça subia como um incenso que leva a pequeneza humana a entrar em contato com Deus, ou com os deuses... As cinzas são jogadas ao vento e assim mergulham novamente na c...

O sacrário - parte IV

Não podia mais fingir que nada sabia. A situação tornara-se crítica, precisava arrumar coragem para sair de seu escritório e ajudar com o que pudesse. A viagem seria longa, mas não podia continuar assistindo tudo aquela distância. Malas feitas, roupa impecável, passagens compradas... 13 horas de viagem entre Londres e o Rio de Janeiro. Em fim, estafado chegou. Com a roupa em frangalhos e o cabelo desgrenhado viu o corpo magro deitado na cama de hospital. Aquela nem de longe lembrava a Mariana que lhe visitara há alguns meses para o curso de verão, apaixonada, sedenta por conhecer mais. Era uma mulher forte, marcada pelas preocupações provocadas pela doença do filho, mas mesmo assim, uma mulher forte. Não foi difícil entrar no leito cinco estrelas em que ela se encontrava, mesmo ele achando que as vezes não valia nada depois de todo o sofrimento que causara a sua própria família quando trocou sua esposa e duas crianças por aquele amor de verão com a jovem modelo brasileira, mesmo as...