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Temistocles Alberto de Bragança Segundo

De dentro do quarto conseguia ouvir o barulho rítmico das ondas batendo nas rochas logo adiante. Perfumou o corpo nu enquanto olhava-se lascivamente no espelho. Esfregava as gotas borrifadas para deixar o odor mentolado uniforme. Ao acariciar o corpo sentiu-o aquecer por dentro com um desejo súbito. Gostou da ideia. Amou a ideia. Ainda despido percorreu o grandioso loft em que estava, olhou para a mobília cara, toda feita em madeira de lei e coberta por travesseiros de penas de ganso. Os entalhes em estilo rococó da moldura superior do sofá chamaram-lhe a atenção. Por um segundo chegou a desviar o olhar o espelho que havia na parte superior do móvel, deslumbrava-se mais uma vez. As entradas estavam ficando maiores, mas davam-lhe um ar charmoso. Duas rugas se sobressaiam as últimas correções feitas cirurgicamente. Nada demais, mas por uma fração de momento sentiu-se desvanecer, mas fora tudo um momento, uma ilusão. A barba meio grisalha que emoldurava o rosto tantas vezes premiado e há ...

A pracinha.

O cabelo caía-lhe na testa de forma charmosa. A blusa abotoada nos punhos dava-lhe um ar de homem sério. O óculos grande mostrava sua intelectualidade de quem tinha um brilhante futuro pela frente. Sapatos amarrados. calça novinha. Estava pronto. Ao calor das quatro da tarde saia de casa em direção a pracinha do bairro. O sino da igreja lhe dava a noção do tempo já que o relógio estava coberto pelas mangas da roupa... Um sinal. Nunca reparara como a praça era bonita. Tinha tantas florzinhas multicoloridas, o chão perfeito para a sua paixão. Pequenas borboletas passeavam de planta em planta tornando o cenário ainda mais magnífico. Um gato bolava pelo meio das plantas. As luzes começaram a acender. Antes estava acompanhado de um único bêbado na praça, agora um grupo de roupas pretas e cabelos alisados sobre a testa tomavam o coreto central da pracinha, resolvera mudar de banco, eles pareciam rir dele. Cinco voltas e meia, e seis badaladas, foi o que precisou para entender. O cabelo dáva-...

Espera!

Era noite, fria, mas sem vento. Do décimo quinto andar conseguia ver as luzes das ruas, os carros que mesmo na madrugada ainda teimavam em passar. Enrolado no lençol, pensava nela. Sentia-lhe o cheiro. O suor que escorrera-lhe do corpo, misturou-se com o perfume e deixou uma fragância única impregnada no pano da cama onde a poucou foram felizes. Ele plenamente. Há meses sonhava com ela. Tinha observado a garota por todo o ano letivo, e agora conseguira o que queria, mas queria mais. Queria-a novamente, e novemente, e novamente... Ela disse não posso. Enfiou-lhe o dedo na cara e disse que tudo estava errado. Ele não conseguia entender. Estavam juntos, estavam felizes, era o que tinha que ser. Saíra correndo do apartamento. Ainda despenteado ele correu, saiu da porta com a blusa ainda pela metade da barriga. Ela esperava, impaciente e pensativa o elevador. Sentiu sua aproximação. Com um olhar disse basta. Muito mais que gritos e braçadas, ela lhe olhou, e ele entendeu. Ela precisava de u...

O sono.

Arrastou a mão pelo rosto para limpar a baba que escorria do sono ébrio. Sentiu a barba mal feita, a mais de mês não sabia o que era uma lâmina. A mente ainda turva. O corpo suado, ainda nu sobre os lençóis molhados de suor, mesmo do lado do ventilador Arno de pazinhas azuis do paupérrimo e minúsculo quarto em que se encontrava. Lentamente a cabeça retornava ao local. Esfregou os olhos vermelhos de álcool. Os pés sentiam o chão de cimento queimado esperando por uma vassoura, que certamente viria ao amanhecer, quando o movimento da casa amornasse. Persistia ao longe um som bonito e cadenciado de uma sanfona harmônica, dois outros três vozes trôpegas acompanhavam o som melodioso do já embriagado maestro. Ainda suado e babado vestiu as puídas peças de roupas que estavam no chão, ao lado das roupas miúdas de sua acompanhante que não estava mais lá. Não teve coragem de olhar. A íris já se acostumara com a escuridão quebrada apenas pela luz fraca e amarela do poste que entrava por uma b...

A Gorda.

Passava lentamente a escova macia pelo cabelo. Fios e mais fios ficaram nas cerdas. A visão do cabelo caindo lhe deixara meio zonza... - Merda, de novo! Era a terceira vez nesse mês que Camila desmaiva, e ainda era dia 16. Só podia ser culpa dos remédios que os pais estavam dando pra ela. Fora forçada pelos pais e pelo médico a tomar uns antidepressivos tricíclicos. Disseram que faria bem, que lhe auxiliaria a enfrentar o problema. Como estavam engandos. O maldito remédio estava deixando ela com a barriga mais inchada. Ai meu Deus, onde vai parar esse bucho... Gorda! A única palavra que conseguia pensar ao olhar seu corpo no espelho. Estava gorda e flácida. Era assim desde pequena, no início achavam até bonitinho, mas quando foi crescendo começaram os apelidos. As crianças, ah as crianças. Ingênuas... sinceras... Cruéis! Rolha de poço, baleia, bola de basquete... GORDA! Ahhhhhh.... Limpava o liquido nauseabundo que escorria pelo canto da boca, uma massa verde e azeda saíra pela boca. ...

Jonnhy era um homem legal.

Catherin ficou muito apreensiva quando o pai chegou com a notícia, estava prometida para um homem que nunca vira na vida, mas que tinha dinheiro suficiente para convencer o pai de que daria um bom futuro para a única filha dele. Consternada e contrita subiu ao altar. Surpreendeu-se de como ele era belo e forte. Os cabelos loiros caiam pela testa em um penteado que dividia os fios ao meio, a barba rala e por fazer dava um aspecto de trabalhador e ao mesmo tempo de machão. E ele era. Impressionou-se como todos na pequena cidadezinha do oeste americano respeitavam seu novo esposo. Sempre o cumprimentavam, os presentes foram tantos que ela demorou uma semana para terminar de abrir todos e coloca-los em algum lugar dentro da casa grande e maravilhosa em que agora morava. Tiveram cinco filhos, ele não dava descanso para Catherin em nenhum momento. Era presença garantida na cama da esposa mesmo quando a barriga já estava crescida. Ah, e como era bondoso com ela, dava-lhe tudo do bom...

Morreu Carlos...

Eram duas horas da tarde quando a musiquinha do plantão da tv tocou. Morreu o deputado Carlos Cavalcanti, 62 anos, trinta deles dedicados a vida pública, passou por cinco presidentes, exerceu cargos de chefia em várias estatais, por três vezes fora ministro nas mais diversas pastas... Comprara um palacete no interior do estado, tinha mais de quinze processos nas costas, fora visto com pelo menos cinco prostitutas no paraíso fiscal a dez anos atrás sem falar que depois descobriram que tudo fora pago com dinheiro publico, desviou verbas da merenda escolar. Já vai tarde. Horrorizada, Maria Helena, no auge de seus cabelos brancos olhou para o filho, com um ar atônito de quem havia acabado de intender tudo. Já vai tarde este filho de uma puta. Abraçaram-se, juntos abriram a Sidra que estava guardada para o fim de ano. Não foram os únicos, conseguiam ouvir fogos na rua. A polícia fora mandada para intervir. Cacetetes argumentaram com bastante eloquência. Silêncio, afinal o país estava de lut...