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O convite.

Duas doses de Chico, uma bela borrifada de perfume, mais um conferida no espelho, estava pronto. Assim achava. Carla era a mulher mais bonita do escritório. Estagiária novinha logo despertara o interesse de todo o macharal com o balançado bonito conseguido em anos de dança. O cabelo marrom anelado era todo medusa, não por ser algo do mal ou desgrenhado, pelo contrário mas era justamente esse contrário que tinha o poder de petrificar os que lhe olhavam. Ele logo tinha todos os motivos para estranhar quando em meio a uma conversa ao lado da garrafa de café ela lhe deu dois sorrisos largos com direito a olhinho fechado e o dedo indicador enrolando os cachinhos do cabelo. Só podia estar entendendo tudo errado - pensou - era feio, fraco e pobre. Entre todos os que estavam naquela repartição seria o último que ele mesmo daria uma chance caso fosse uma mulher. Mas qual o que, lá estava ela, sempre aparecendo em seu computador, com as desculpas das mais tolas possí...

A sala

O mesmo cenário, um pouco de variação aqui e ali, mas era sempre o mesmo cenário. Sentado na sua cadeira suja olhava para o mundo por meio da janela. O mesmo café, a mesma caneca, o mesmo tipo de roupas, as mesmas caras, as mesmas vozes. Ele criou o ritual mas hoje é o ritual quem o constroi. De dentro da saleta fechada e meio bolerenta observava e pensava. A sala estava cheia, completa de sí. De partes que ele alimentou até a exaustão, de sonhos deixados pelo caminho, de palavras nunca ditas, de viajens nunca feitas. Por um segundo tirou os olhos avermelhados e remelentos da janela. Por uma fração menor que o piscar pensou e se decidiu a sair, no canto da boca uma fresta de algo que em algum outro tempo poderia ser o inicio de um sorriso apareceu. Levantou-se, a tempos não sentia o calor do sangue queimar-lhe as pernas até mexer a ponta dos dedos. Caminhou, dois passos a direita, dois passos a frente, o mesmo a esquerda e atras de si. Procurou a porta. Não encontro...

A marquinha branca.

No começo tudo ainda parecia paixão. Um arroubo de coragem meio inconsequente que havia se materializado ali. Uma manifestação meio adolescente fruto de um misto de musicas sentimentais, filmes de romance pipoca e um pouco de saudade. Mas aquela era a prova de que não. Era de verdade. Era sério. A marca branca no dedo por baixo do anel deixava claro. Escolhera ela e ela se deixara escolher. Estavam construindo juntos ao concreto. Haviam horas em que tudo parecia prestes a desabar, eram contas pra cá, planos pra lá, e as vezes aquilo que os levara a ficar juntos ficava um pouco de escanteio. Mas naquela hora, lavando as mãos afastou um pouco a aliança e viu a marca. Em um espaço de nanosegundos tantos dias, meses e anos juntos. E por fim, sorriu.

Sh...

É cansativo estar só. Acho que essa era a frase que tentava dizer a tanto tempo. É seguro, é as vezes reconfortante, é quase sempre confiável guardar-se para si próprio. Falar quase sempre dá merda. Existe uma relação proporcional entre a importância do que se quer dizer com a merda que dá sempre que se diz. Por isso, na grande maioria das vezes é melhor não dizer... Mas é cansativo. Porque não dizer significa estar só com as consequências desse silenciar. Porque não dizer acaba dando aos outros o direito de fazer aquilo que você não quer fazer. Mas as vezes acaba doendo menos fazer do que dizer... É estranho, mas é.

boas festas.

A musica preenchia cada canto da casa, entranhava-se ouvido a dentro. A sala de jantar estava ricamente ornada. Guirlandas, estrelas, luzes das mais variadas piscavam aqui e acolá, dançando conforme o som das canções que por tantos anos embalaram as suas festas. Peru assado, brilhando de tão quentinho atiçaria a gula de qualquer um que olhasse para ele. Nozes, damascos e outras dessas frutas e sementes que ninguém no hemisfério sul come se não for em dia de festa. O clima era perfeito, a mesa estava completa. A árvore, esplendorosa, gigante, repleta de bolinhas e encimada por uma estrela estava toda coberta de branco. A visão dos enfeites fez com que se lembrasse de que era hora de começar a festa. Falou calmamente, por alguns momentos apreciou os olhos de todos sobre ele, olhavam com uma atenção que nunca conhecera, isso era bom, somente aumentava nele a sensação que era certo. Falou sobre o mistério da vida. Elucubrou sobre a fé cristã e a crença na ressurreição, na beleza d...

Batida

- Dois cappuccinos. Quem pediu dois cappuccinos? Pegou as duas xícaras quentes com a ponta dos dedos. Arrependeu-se dois segundos por ter dobrado a manga direita da camisa. A gota quente ia deixa a marca vermelha, mas fazer o quê? Entregou o líquido a ela, sentou-se e ouviu. Aonde estávamos mesmo? - Sim, você também não acha que aquela série da Globo, mesmo sendo muito bonita não fez jus a obra dele? Ela falava enquanto enrolava a ponto do cabelo grande. ... Encontraram-se quase que por acaso. Foi a batida de transito mais bem sucedida de suas vidas. Ele com a cabeça em outro lugar, não reparou no sinal que fechava e encostou no carro da frente. Ela assustada saiu do carro, esbaforida e pronto para atacar. Desarmou-se diante do sorriso torto e o olhar de confissão. Pediu desculpas e disse que o seguro pagaria tudo. Dezessete ligações depois e ficou sabendo que o corretor estava em outra ocorrência e demorari...

O ritual

Atras da nuvem preta o primeiro fiapo e sol se fez ver, clareando o mundo e anunciando que a hora chegara. Ele, insone assistiuu a todo o processo em que o sol, sem meias palavras rasgou o tempo, apossando-se da Terra e se impondo como senhor. Suspirou fundo, a cabeça pesada de lembranças, de vozes, de pessoas, de medos. Chegara o dia de seu ritual. Todos passavam por ele. Todos diziam saber que ele tambem passaria. Como ele queria partilhar dessa certeza. Até se sentia pronto, sentia-se conscio de como deveria agir. Mas agiria?  - Merda! A pouca comida que conseguira ingerir quase voltara. Sabia que precisaria estar forte para o dia de hoje, sabia que seria preciso de todo alimento e de toda coragem para cumprir sua tarefa. Simples tarefa. Que por ser tão simples lhe dava tanto medo de não conseguir completa-la. Os mais velhos sempre a abordavam com o desdém habitual de quem já não liga mais, talvez até por que nem lembre. Os mais jovens que como ele ainda iam fazer...