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Mandinga - parte III

- Você tem certeza? Uma vez feito, feito para sempre. - Sim dona Nhá Moça! A velha gorda passou-lhe a faca no braço. Com o sangue colhido escreveu os nomes dele e dela no papel, amarrou com os fios de cabelo dela e com alguns poucos dele que conseguira quando entrara de surdina na casa quando viu ele sair com a atual noiva para algum restaurante, sei lá o que... que aproveitasse porque nunca mais aquela vaca teria ele de novo! Ele era dela, e ela precisava lembrá-lo disso. Com uma agulha Nhá Moça colocou os nomes dentro da maçã que havia sido colhida antes do nascer do sol da primeira sexta-feira do mês. Carla enfiou a maçã vagina a dentro e deitou-se na cama de Nhá Moça. O mundo girou, parecia rodar freneticamente. O mundo mudava! Ainda bamboleante a mulher levantou de um sopetão e sentiu-se ardendo. A velha lhe acordara ao arrancar a maçã de dentro de sí, sem pena alguma. Da fruta seca fizeram um suco, com papel, sangue e o que mais tivesse ali. . . . - Quer alguma coisa ...

O fio de ouro

Da ponta da unha negra e suja do dedo indicador direito marcados pelas verrugas e fungos estendia-se um fio de prata finíssimo. Rígido em toda a sua extensão, mas com as pontas um pouco flexionadas pelo peso de dois barbantes de ouro que seguravam pratos de barro. Com uma sutileza própria aqueles que desprezam o que fazem, fez rapidamente uma gigantesca e perfeita incisão cortando-o de alto a baixo. Do peito e da barriga correu uma espuma cinzenta e outra avermelhada. Habilmente com a mão livre recolheu-as e colocou sobre cada um dos pratos! O fio de ouro envergou! A velha sorriu! A cara de desespero não veio acompanhada de um grito nunca dado, de uma ação desesperada não expressa. Laconicamente perguntou: - Mas você disse que realizaria um deles. O que aconteceu? - kkkkk, nunca se deve comparar sonhos, eles existem para serem vividos e não entendidos, sentidos e não racionalizados, experimentados e nunca pesados! À aqueles que se arriscam a pesar os sonhos, e vende-los só ex...

Vícios e virtudes.

Olhava como um cachorro adestrado olha para a carne que está preste a tocar no chão! Era tudo o que queria, mas ao mesmo tempo, era tudo que deveria evitar. Tentou desviar o olhar, mas a boca entreaberta denunciava o desejo latente. Com um ar forçado falou - Sou muito superior a isso. Com um sorriso no canto da boca ela respondeu: - meu bem, o que você tem não é virtude, é juventude, e só.

Mandinga - Parte II

O mundo parecia uma mistura disforme de cores. As lágrimas que lhe caiam copiosamente dos olhos não permitiam o vislumbre completo das lajotas hidráulicas do banheiro que não estavam a mais do que um esticar do próprio braço. O choro não era normal! Era um choro de desespero! Um choro soluçante e salgado! Não se importava nem mesmo em limpar a secreção nasal que escorria até encostar no canto da boca! Ainda vestido jogou-se dentro do box do banheiro. Ligou a água o mais quente que podia e começou a esfregar o próprio corpo. Só aí entendeu que estava coberto. Arrancou as vestes com raiva, eles foram testemunhas de mais uma vergonha! Na pele ainda estava grudado o misto do gozo dele e de sua algoz. - POR QUÊ?????!!!!!!!! Pegou uma pedra pomes que provavelmente havia sido deixada ali pela sua mãe na ultima vez que passara umas semanas lá visitando ele. Esfregou-se repetidamente! De novo e de novo e de novo! O ralo do banheiro ficou rosado, depois o vermelho foi ficando cada vez mai...

Mandinga - parte I

- Mermão... que merda é essa? - Macho, de boa?! não mexo nisso aí não. - Agora lascou, só tem nós dois... tem que liberar o corpo pra família, já tá uma putaria de gente ali fora, até imprensa já chegou... - Sei não má... sei não... - Vamos tirar na sorte, eu quero cara. - Tá, fico com coroa. - Puta merda Zé... se eu sou cara, óbvio que tu é coroa.   - Ou má... sim, falei só pra enfatizar, pra dizer que to concordando, égua... - kkkk, beleza, vamos lá Lançaram a sorte. Atentamente observavam cada girada que a moeda dava - zupt - A moeda é minha. José, você pega a cena e o Luciano o corpo.   - Ô sargento... ta bom... sim senhor. A sala cheia de badulaques, farelos de gesso provavelmente provenientes de entidades por todos os lados misturados com búzios, sangue, muito sangue e pedaços queimados de alguma coisa que achavam ser uma mesa ou uma cadeira, ainda não tinha entendido completamente. Duas massas sangrentas pintavam o chão numa tonalidade...

Amigos?

Bom dia! Bom dia! Tudo bem né? Tudo! E você? Ah, comigo ta beleza! Massa, tranquilo então né?! Sim sim, tudo tranquilo. De resto, tudo em cima né? Graças a Deus! Ô rapaz, pois beleza então! Bom te ver viu. Legal, feliz em te ver também. Pois bom dia viu? Beleza! Bom dia pra vc também! Falou! Boa sorte aí! Até logo! Até! . . . . .

Cantando a vida!

"Nosso suor sagrado É bem mais belo Que esse sangue amargo E tão sério E Selvagem! Selvagem! Selvagem!..." - Opa!!! A velhinha olhou pra ele com aquela cara de meu-deus-esse-menino-é-doido! Tirou um dos fones de ouvido, a musica estava tão boa e tão alta que nem se tocava que estava cantando junto e no mesmo volume! Continuou seu caminho! Continuou sua canção! "Temos nosso próprio tempo Temos nosso próprio tempo" Abraçou a mãe, cantou junto do irmão! Bolou no chão com o cachorro! Eles meio estupefatos! Do irmão veio a pergunta: - menino tu tava onde, tava namorando era? - não não, tava trabalhando! Era verdade, e voltara a pé no sol cearense de meio-dia! Mas cantava! Cantava ao trabalho, cantava aos amigos, cantava aos problemas, cantava aos amores! Estava vivo! Sentia-se vivo! O calor causticante do caminho traçado a pé só lhe mostrou o quanto era gente, o quanto podia sentir! Então! Que se exploda tudo! Não não, que não se explod...