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Migalhas

Olhava para a tela mais uma vez... Os olhos fixos olhavam mas não viam... Pensava mais uma vez em como ela era incrível... Que merda... queria muito deixar a imagem dela pra lá, mas não conseguia. Procurava conectar-se mais uma vez... "Visualizado"... "visualizado"... Aquele sorriso maldito não lhe saia da cabeça. Os olhos dela apertadinhos enquanto a ponta dos lábios subiam suavemente, o cabelo preto deslizava pelos ombros enquanto ela inclinava suavemente a cabeça... Não conseguia esquecer. Já tentara fazer consigo mesmo aquilo que uma vez dissera para ela... - Viva a sua vida, o que vier é lucro, se ele quiser ficar, ele vai ficar, não porque você quer, mas porque ele escolheu. Naquela hora tudo parecia tão simples, tão racionalmente lógico...tão óbvio... mas não, não fazia o menor sentido. Estar ali na frente do computador mendigando por dois segundos de atenção dela. que merda... Ela não merecia isso tudo, ele era muito melhor do que um ver...

O próximo passo

Ouvia os prantos... Estava acordado, não era ele naquele caixão, tinha certeza. Olhava com seus olhos, mas não via mais como costumava ver. Algo havia mudado... Mas como? Ele era o mesmo, todos ao seu redor podiam atestar isso, pois vinham a todo instante lhe cumprimentar. Meus pêsames Ricardo... ô seu Ricardo, Deus lhe de consolo.... Tenha fé Ricardim, tenha fé.... Oras... todos viam, ele era ele, mas porque não se sentia o mesmo... A última colher cheia de cimento fechou o buraco mais lhe abriu os olhos... Ele também morria. Não era tão inatingível como tentava se supor. Antônio morrerá, mas com ele levava um pedaço de Ricardo também. Nesse dia, e só nesse dia, Ricardo entendeu que a morte do outro é um prenuncio de que a nossa vez um dia vai chegar. Não era imortal e mesmo que repetissem para ele todos os dias que a morte é a mais certa de todas as certezas, vivia seus os dias como se ela nunca fosse chegar. A morte é sempre um problema do outro... mas quando esse outr...

O demônio de Roberto.

- Ah Roberto... saí daí... tá todo mundo te esperando lá fora... Do outro lado da porta, com as costas encostadas na madeira, Roberto respondeu: - tão lá nada mulher, nem reparar que eu saí eles repararam. - Roberto... pelo amor de deus rapaz...você derrubou metade das garrafas de cerveja da mesa... (silêncio entrecortado por soluços)  -deixe de cena e vamos pra lá... - Você sabe que eu não posso... eu... eu não sei nem porque vocês convidaram ele... - Ele é seu pai Roberto... vocês não se veem a anos... O que custa fazer esse esforço... tava tudo indo tão bem... vocês estavam lá conversando meu amor... que besteira é essa... - Você sabe... ele foi embora, quem está aí não é mais meu pai... - Roberto... você já é um cabravéi, olha sua idade... vai ficar deixando um negócio desses acabar com sua festa. Abruptamente a porta abre, do outro lado, o homem com os olhos inchados e vermelhos, com a roupa amarrotada e um pouco de catarro escorrendo pela barba branca fala: - E des...

Carlos e Stephany

O preto escorrido dos olhos era a madrugada que acabava. Os olhos inchados denunciavam a noite mal dormida. Em meio a marrons de pele alguns pedaços de branco ainda destoavam no rosto que ia se desmontando. Suavemente com algodão e removedor colocava Stephany para dormir. Teria o descanso merecido, dormiria o sono da beleza que tanto prezava. Enquanto isso, Carlos deveria ir trabalhar. E após um bom banho quente, café com pão, escovas nos dentes e cadarços amarrados lá ia ele pronto para mais um dia de trabalho, feliz, pleno, dual, completo.

A injeção

- Sai do meeeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Desesperado ele corria em meio aos carros! Corre aqui, da um pulinho ali, opa! Para de uma vez, e corre mais um tanto! Pernas a todo o vapor. Ainda conseguia escutar a voz deles atrás de si! Continuavam a perseguição implacável. Precisava correr!   - Volta aqui! Aonde você pensa que vai?! As pernas começavam a formigar pelo esforço e pela fraqueza do corpo adoentado, mas tinha que continuar, se parasse eles iriam lhe pegar! Um passo depois do outro, mais um passo, só mais outro... estamos quase lá... vamos, eles estão ficando para trás.... Paff O barulho seco da queda chamou atenção das pessoas no meio da rua.... Lentamente abriu os olhos... tudo parecia ainda meio turvo ao seu redor... Reconhecia esse lugar... O poster do Buzz e do Woody mostravam que estava em casa, mais uma vez no seu quarto... sentiu-se aliviado, mas.... peraí! - Como eu cheguei aqui?! - Ô meu filho... pra que aquele escândalo... Sair daque...

Confissão

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém... Conte seus pecados minha filha. - Seu padre, eu pequei... pequei por adultério... - É de coração contrito que buscas perdão? - Sim seu padre, amo meu marido, ele me dá tudo o que eu preciso, mas mesmo assim eu acabei cedendo ao desejo... ele era tão bonito e tão.. - É.... tudo bem filha, reze o ato de contrição  e depois vinte Ave Marias e dez Pai Nosso para pedir a mãe santíssima que lhe ensine o amor e a castidade. - Mas... seu padre... o que eu ganho com isso... o correto não seria eu ter que ir até minha casa, arrependida e contar para ele tudo o que eu fiz... contar que mesmo amando a ele me entreguei a outro... - Reze mais dez rosários ... E só depois volte aqui...  - Mas seu padre... eu estou querendo ir lá e contar a verdade. Não estou mais entendendo nada... - Você pode não ter entendido, mas eu entendi... Esses rosários não são por sua traição... Todos temos quedas, todos pecamos, e todos temos...

Mandinga - parte III

- Você tem certeza? Uma vez feito, feito para sempre. - Sim dona Nhá Moça! A velha gorda passou-lhe a faca no braço. Com o sangue colhido escreveu os nomes dele e dela no papel, amarrou com os fios de cabelo dela e com alguns poucos dele que conseguira quando entrara de surdina na casa quando viu ele sair com a atual noiva para algum restaurante, sei lá o que... que aproveitasse porque nunca mais aquela vaca teria ele de novo! Ele era dela, e ela precisava lembrá-lo disso. Com uma agulha Nhá Moça colocou os nomes dentro da maçã que havia sido colhida antes do nascer do sol da primeira sexta-feira do mês. Carla enfiou a maçã vagina a dentro e deitou-se na cama de Nhá Moça. O mundo girou, parecia rodar freneticamente. O mundo mudava! Ainda bamboleante a mulher levantou de um sopetão e sentiu-se ardendo. A velha lhe acordara ao arrancar a maçã de dentro de sí, sem pena alguma. Da fruta seca fizeram um suco, com papel, sangue e o que mais tivesse ali. . . . - Quer alguma coisa ...