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Humanidade

Hoje vi uma das cenas cotidianas que provam que dinheiro não mede dignidade ou caráter de ninguém. Voltava caminhando pela rua do Fórum, aqui no Maranguape, quando um carro arrumadinho passada em velocidade média ao meu lado. Segundos depois começo a escutar grunhidos de cachorro... Sim, ele atropelou o animal... Num rápido relance dava pra ver, pela velocidade e por não ter nenhum outro veículo atrás dele que dava pra frear... Segundos depois, quando estava para atravessar a rua, vi que dois rapazes que estava com um daqueles cascos de geladeira adaptados para carregar coisas se aproximaram do cachorrinho. Enquanto um acalmava, outro tirava umas frutas de dentro da carrocha. Quando terminei de atravessar, eles já haviam acalmado o bichinho... - Ei cara, o que vocês vão fazer? - Vou levar ele pra cuidar. - Como assim? - Vou ver se limpo essa perna dele pra num pegar bicheira e deixo ele amarrado uns dias pra ver se melhora. - Sério? - É um ser vivo de deus má, um motorista desses de...

A merda fica!

Acordou dois minutos antes do despertador. Jogou-se debaixo do chuveiro. A água retirava o cheiro de cama que ainda impregnava-o de preguiça. Lanche... Dentes escovados...Fio dental... Arrumou a cama... Gel no cabelo... Blusa azul de botão... Penteou os cabelos... Porta... Duas doses de ar, o vento prenunciava que o dia seria quente. Portão... rua... - Bom dia?! - Opa, tudo bem?!  - E a senhora como vai?!... Na parada, os mesmos rostos de sempre. Lotação...  "Secretária, que trabalha o dia inteiro comigo..." Fones ativos "Cosmic Love" era o melhor começar o dia. Abandonou o ônibus com seus passageiros, motorista e aquele mesmo repertório de sempre no programa do Evaldo Costa. - Com licença, com licença...  Rua... Calçada... Escadas... Chave... OI?! QUE MERDA É ESSA? Os olhos pareciam não querer acreditar, mas o olfato não enganava, no meio daquele caos tinha um tolete de bosta, de BOSTA no meio da sala!!! Entronizadamente postado n...

Migalhas

Olhava para a tela mais uma vez... Os olhos fixos olhavam mas não viam... Pensava mais uma vez em como ela era incrível... Que merda... queria muito deixar a imagem dela pra lá, mas não conseguia. Procurava conectar-se mais uma vez... "Visualizado"... "visualizado"... Aquele sorriso maldito não lhe saia da cabeça. Os olhos dela apertadinhos enquanto a ponta dos lábios subiam suavemente, o cabelo preto deslizava pelos ombros enquanto ela inclinava suavemente a cabeça... Não conseguia esquecer. Já tentara fazer consigo mesmo aquilo que uma vez dissera para ela... - Viva a sua vida, o que vier é lucro, se ele quiser ficar, ele vai ficar, não porque você quer, mas porque ele escolheu. Naquela hora tudo parecia tão simples, tão racionalmente lógico...tão óbvio... mas não, não fazia o menor sentido. Estar ali na frente do computador mendigando por dois segundos de atenção dela. que merda... Ela não merecia isso tudo, ele era muito melhor do que um ver...

O próximo passo

Ouvia os prantos... Estava acordado, não era ele naquele caixão, tinha certeza. Olhava com seus olhos, mas não via mais como costumava ver. Algo havia mudado... Mas como? Ele era o mesmo, todos ao seu redor podiam atestar isso, pois vinham a todo instante lhe cumprimentar. Meus pêsames Ricardo... ô seu Ricardo, Deus lhe de consolo.... Tenha fé Ricardim, tenha fé.... Oras... todos viam, ele era ele, mas porque não se sentia o mesmo... A última colher cheia de cimento fechou o buraco mais lhe abriu os olhos... Ele também morria. Não era tão inatingível como tentava se supor. Antônio morrerá, mas com ele levava um pedaço de Ricardo também. Nesse dia, e só nesse dia, Ricardo entendeu que a morte do outro é um prenuncio de que a nossa vez um dia vai chegar. Não era imortal e mesmo que repetissem para ele todos os dias que a morte é a mais certa de todas as certezas, vivia seus os dias como se ela nunca fosse chegar. A morte é sempre um problema do outro... mas quando esse outr...

O demônio de Roberto.

- Ah Roberto... saí daí... tá todo mundo te esperando lá fora... Do outro lado da porta, com as costas encostadas na madeira, Roberto respondeu: - tão lá nada mulher, nem reparar que eu saí eles repararam. - Roberto... pelo amor de deus rapaz...você derrubou metade das garrafas de cerveja da mesa... (silêncio entrecortado por soluços)  -deixe de cena e vamos pra lá... - Você sabe que eu não posso... eu... eu não sei nem porque vocês convidaram ele... - Ele é seu pai Roberto... vocês não se veem a anos... O que custa fazer esse esforço... tava tudo indo tão bem... vocês estavam lá conversando meu amor... que besteira é essa... - Você sabe... ele foi embora, quem está aí não é mais meu pai... - Roberto... você já é um cabravéi, olha sua idade... vai ficar deixando um negócio desses acabar com sua festa. Abruptamente a porta abre, do outro lado, o homem com os olhos inchados e vermelhos, com a roupa amarrotada e um pouco de catarro escorrendo pela barba branca fala: - E des...

Carlos e Stephany

O preto escorrido dos olhos era a madrugada que acabava. Os olhos inchados denunciavam a noite mal dormida. Em meio a marrons de pele alguns pedaços de branco ainda destoavam no rosto que ia se desmontando. Suavemente com algodão e removedor colocava Stephany para dormir. Teria o descanso merecido, dormiria o sono da beleza que tanto prezava. Enquanto isso, Carlos deveria ir trabalhar. E após um bom banho quente, café com pão, escovas nos dentes e cadarços amarrados lá ia ele pronto para mais um dia de trabalho, feliz, pleno, dual, completo.

A injeção

- Sai do meeeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Desesperado ele corria em meio aos carros! Corre aqui, da um pulinho ali, opa! Para de uma vez, e corre mais um tanto! Pernas a todo o vapor. Ainda conseguia escutar a voz deles atrás de si! Continuavam a perseguição implacável. Precisava correr!   - Volta aqui! Aonde você pensa que vai?! As pernas começavam a formigar pelo esforço e pela fraqueza do corpo adoentado, mas tinha que continuar, se parasse eles iriam lhe pegar! Um passo depois do outro, mais um passo, só mais outro... estamos quase lá... vamos, eles estão ficando para trás.... Paff O barulho seco da queda chamou atenção das pessoas no meio da rua.... Lentamente abriu os olhos... tudo parecia ainda meio turvo ao seu redor... Reconhecia esse lugar... O poster do Buzz e do Woody mostravam que estava em casa, mais uma vez no seu quarto... sentiu-se aliviado, mas.... peraí! - Como eu cheguei aqui?! - Ô meu filho... pra que aquele escândalo... Sair daque...