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Julião e Maristela

Eram perfeitos, Julião sabia disso, todos sabiam disso, estava estampada na cara de todos o quanto eram perfeitos. Ele encontrou Maristela quando menos esperava. Vinha de um relacionamento meio conturbado, havia acabado ser rejeitado. Andava meio cabisbaixo, mas por uma daqueles momentos que só o destino é capaz de explicar (ou uma intervenção divina caso vocês, como Maristela, sejam devotos ferrenhos de Sant'Antônio... Que mulher devota, não perdia uma única novena, trezena ou septena, estava em todos os terços na rua ou onde quer que lhe chamassem). Ela rira pra ele no momento mais difícil, na mesma hora aquela gargalhada cheia lhe mostrou que aquela era a mulher. Juntos sorriam de manhã, de tarde e de noite. Com ela conseguia ser o homem mais feliz do mundo... e não, essa não era apenas mais uma daquelas expressões exageradas de amor, era a mais pura demonstração da realidade. Não conseguia resistir a gargalhada dela. Caia no riso também! Juntos construíram uma casa nova, tr...

Aquele que um dia quase foi mas nunca chegou a ser e acabou se tornando aquilo lá.

O som alto dos carro de propaganda das lojas vizinhas a rodoviária tocou a insanidade ébria e sonolenta dele fazendo-o despertar. Com a parte de trás da mão limpou a baba misturada com vômito que se colavam nos parcos pelos que tinha ao redor da boca.O jornal velho abaixo de si gemeu como que para lembrá-lo de uma vida inteira, de um mundo inteiro que estava la fora, gritando pela sua volta. Mas não podia, não tinha coragem. Havia jogado tudo fora exatamente por isso... não tivera a coragem certa, para fazer a coisa certa, na hora certa... O gole quente da cachaça desceu queimando a garganta ressecada. O primeiro era sempre assim.  Toda manhã era sempre assim... Era aquilo que fizera de si próprio. Quando teve a oportunidade de ir, não foi. Quando teve a oportunidade de ser, não conseguiu. Quando teve a oportunidade de permanecer, arriscou... Com os braços retesados olhou para si próprio no espelho marcado, quebrado e pequeno dentro daquela moldura laranja ...

A fumaça

Acendeu um cigarro. Tragou com força, queria sentir o calor dentro de si como a tanto não sentia... - Cof... cof... não sabia ao certo o que estava fazendo... Pensou que talvez o cigarro conseguisse fazer com que ele entrasse naquele estado de concentração que só os personagens de filme conseguem ter depois de um momento muito complicado... Tentou mais um, duas, três vezes... sabia que aquilo não era certo. A cada tragada ouviu o Drauzio Varela falar sobe os malefícios do tabagismo, ouviu sua namorada falar sobre como alguém próximo da família sofrera para largar o vício depois que usou indiscriminadamente o cigarro para tentar caber no vestido que ia usar no casamento da filha. Viu um milhar de caixas e seus traqueostomizados e impotentes... Viu, lembrou... Sentiu... Compreendeu. Aquilo era errado, mas queria mesmo assim... Todos nós temos alguma merda a esconder... que seja isso. E que da ponta desse fogo queime o ódio que o consome... Se alguém precisa sofrer com as consequênci...

As-salam alaykom -parte I

Perdia-se olhando para as velas que vinham longe. Ao redor delas, pontos escuros no céu sempre limpo, as aves sabem onde está sua presa e como não poderia ser melhor se elas já estiverem presas...  O pano branco da tenda dava-lhe a cobertura necessária para sobreviver ao causticante calor.  - Cafè, s"il vous plâit. O garçom moreno de olhos grandes e um nariz aduncou fez um meneio tão discreto com a cabeça que estava a ponto de repetir o pedido quando ele lhe deu as costas e saiu apressado, pé ante pé em passos curtos mas velozes. Com o canto do olho percebeu a movimentação de seus convivas que ficaram admirados com a habilidade de sua pronuncia. Sempre se orgulhara da facilidade em aprender a língua dessas crianças.   Tomou um susto quando reparou que a vela já havia percorrido pelo menos metade da distância até o porto. Os ventos hoje estavam favoráveis... Um bom sinal.  Os outros ocupantes da mesa estavam inquietos. Talvez por nunca terem estado diante d...

Vem-cá-corre-me-acompanha!

Huuuummmmm carne-preta-cheiro-fumaça . Ré...ré... rée!!! Saltitou rapidinho saindo da varanda geladinha e foi pros lados do deck, era pra lá que o faro apurado apontava. cadê-grande-cabeça-da-matilha? cadê-eles? Aguçou seu faro e tinha a mais plena certeza, pelo menos o pequeno-aperta-rabo-late-muito tava ali, conseguia sentir o cheiro dele ainda novinho saindo de perto da coisa-queima-carne-boa indo em direção ao água-muita-briga-quando-bebe. Em dois saltos já tava lá, mas nada do pequeno... Sem duvidar do próprio faro, mas só conferindo da mais uma bela puxada de ar... Sim, ele tava ali, o cheiro tava bem aqui... mas cadê? Chega perto da ponta-da-pra-beber-sem-molhar e consegue ver todo turvado dentro da água o corpo do pequeno. Por isso não tinha conseguido identificá-lo logo... a água tinha esse poder de arrancar o cheiro do povo-grande-zuadento-que-da-comida. Sai-dai-pequeno , falou... Sai-dai-pequeno, sai-dai-pequeno .... nada de resposta... Saltitando de um...

Cassandra

A luz amarelada entrava turva pela vidraça empoeirada do terceiro andar. Se alguma viva alma transitasse por aquela rua esquisitíssima naquele momento poderia ver o corpo do homem completamente nu encostado na janela e com os olhos perdidos. O vento frio passava pela fresta da janela e batia contra a pele de Heitor pregando no corpo o suor do gozo de a poucos minutos. O cabelo crespo, suado, caía-lhe sobre os ombros recobertos de pelos e músculos firmes, fruto do trabalho constante. Olhava para o fim dos tempos e mais além. Via o passado, relembrava as rizadas, repassava cada uma das conversas, o pulso acelerava mais uma vez... Sentia o frio na barriga, filha do medo, da tensão de ser inadequado, de não dar certo. Sentia-lhe novamente o cheiro do cabelo castanho liso, removia-lhe mais uma vez a timidez com aquelas piadas sem graça, mas que como a água iam levando fragmento por fragmento o muro da sisudez própria de Cassandra. O rangido da cama o despertou para a presença dela. ...

A mal comida

Sentia a água gelada caindo em gotas grossas pelo corpo. Como precisava daquilo. As noites mal dormidas começavam a cobrar seu preço. Os olhos sempre perdidos tentavam ter o sonho que a noite não conseguira alcançar. A vista somente remetia aos lábios roxos do corpo do pobre pai que há tantos dias não respondia a medicação. Aquele corpo branco e frágil como o de um passarinho mal saído da casca... Casca, era isso que seu pai havia se tornado... Mas ainda não era hora... Por que tão cedo? Ainda havia o moleque pra terminar de educar... Quantas vezes Carolina não se colocara contra a decisão do pai, já idoso mas que mesmo assim decidira adotar uma criança...  O que tinha de velho tinha de teimoso... Agora, no auge da adolescência aborrecida o garoto encontrava-se nas portas de ficar sem pai, mais uma vez... PEM PEM PEM PEM! O despertador a tirou do torpor provocado pelo relaxamento proporcionado pela água... Precisava se apressar. Cabelo, dentes, maquiagem...