Postagens

À deriva

Sentia a brisa lenta do mar roçando a face. Absorto tentava pensar. A fome não deixava. Buscava concentrar-se em alguma musica que gostava tanto, mas não conseguia lembrar como ela começava. Nenhuma gaivota. Nenhuma alga marinha. A terra só podia estar distante. O quão distante ainda conseguiria ir? Perdera o leme e as velas a mais de sessenta milhas náuticas. Tivera um sonho. Assumira o risco. Possuía o controle.  Tudo parecia tão distante como uma outra vida. Estava à deriva. Perdido em alto mar. Sabia para onde queria ir. Mas não conseguia ver como chegar.

Idiota

Não passa de um idiota. Com seu sorriso largo e sempre aberto. É um idiota de marca maior. Dizem-lhe não, ele escuta um talvez. Mandam-lhe fazer. Ele faz... e ri de ter feito. Falam-lhe que é impossível... e ele acha graça. Para ele existem rótulos, mas eles são só rótulos... Que escondem... lá no fundo, pessoas. Machucam-lhe no agora. Na hora odeia, em cinco minutos esquece, em dez... sorri. O céu ainda lhe parece belo. O sol incrível. Prefere gozar. Escolheu sentir o prazer. Sabe o que é sofrer. Conhece cada palavra de exclusão. Poderia recitar cada uma das negativas... Mas prefere ser idiota. Prefere dizer sim. E sorrir.

Rima

Por mais que ela tente, Não se sente com a gente, No seu peito, com força ela sente, Como é estranho ser diferente, Pois mesmo frente ao sofrimento, Não consegue ser indiferente. Não pode não ouvir o lamento, Daquele pobre e sofrido rebento. Ergue-se com fogo no peito E lhe estende a mão de um outro jeito. É complicado não enxergar, Não ouvir e não ter solidariedade, Vendo tantos a cambalear, Pelas ruas frias da cidade.    

"Fascio"

Olhem para fora dessa sala senhores. O que todos encontraram é nada mais nada menos do que miséria.  Homens e mulheres estendendo as mãos ao vento esperando que alguém tenha um mínimo de pena e lhes jogue alguns trocados. O povo jogará as moedas como sinal de arrependimento pela riqueza que possuem diante da miséria daqueles que lhes suplicam. Sentir-se-ão culpados se não o fizerem.  Quem são eles para simplesmente falarem: "Não, não vos ajudaremos"? Os pobres miseráveis que nada tem não podem receber apenas carrancas.  Se elas tiverem que vir, que venham pelo menos acompanhadas de algumas moedas.   Afinal, somos todos iguais.  O professor soltou uma sonora risada. Ora... Por que sairia o homem de sua situação de miséria e abatimento se tudo que ele precisa lhe é provido pelos outros. E mais ainda. Se esses outros não podem se orgulhar de serem melhores do que eles. Afinal das contas, na falácia da democracia, somos todos iguais....

Mav

O corpo pequeno transbordava com a coragem que lhe inflava o peito. Quando todos disseram que era loucura, quando inclusive ela achava tudo impossível, ela quis.  Estava quebrada por causa de outro alguém. Lambeu as feridas e decidiu ser feliz. Foram horas de conversas trocadas. Risadas dadas. Perguntas... Acordos. Só lhe pediu uma vez e não tinha como não entender o recado: queria tudo, queria ser o que fosse, Capitu, Satine, Morgana... só não queria terminar como uma história triste. Ela mal sabia, mas isso nunca foi uma opção. Era grande demais para que as letras a conseguissem resumir. Ele tentou. Por várias vezes, mas cada tentativa só gerava cada vez mais a certeza de que expressá-la sempre era buscar sinônimos para coragem, força, delicadeza e paixão. Era tão imensa que uma única língua nunca conseguiu dizer o que tinha pra dizer. Precisou de várias... E não uma de cada vez. Tinham que ser todas... ao mesmo tempo. Assim, quem sabe, pudesse dizer o ...

Razão

Os cabelos em chamas viraram borboletas em meio ao caminho para o nada. De seus olhos saíram mordidas violentas e cruéis. O nariz prendia tudo ao redor como ventosas cefalópodes. A barriga ria com a ironia de um velho sobrevivente. Zombava da miséria daqueles coitados que não conseguiriam permanecer quando seu peito cuspisse o fogo que carregava dentro de si. Destruição era seu nome. A razão era sua escrava. E o medo seu amante... e queria muito sair para foder.

Caminhada

Tirou o cabelo do rosto com a mão direita. O peito ardendo era o prenúncio. As pupilas dilatadas mostravam o olhar atento. O corpo buscava transparecer segurança. A hesitação milimétrica no caminhar colocava toda a cena a perder. Estava tensa. A garganta travada não a deixava pensar o contrário. Enquanto muitos parariam, ela resolveu dar uma passo a mais. Era mais fácil permanecer. Mas era mais vivo continuar. Era mais simples fazer mais do mesmo. Mas queria a excitação do original. Era mais seguro estar. Mas ela escolheu ser. Deu o segundo passo. E todos os outros se seguiram. As vezes adiante, as vezes para trás. Em alguns momentos hesitantes, em outros seguros.