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O arqueiro

A cena era fenomenal. As flechas preenchiam toda a parede lateral da casa. Algumas ainda fixavam-se ao longo do jardim. Os soldados entraram pisando leve mas falando alto. Tremiam de medo. Estavam no território de alguém impressionante. Ouviram o rangido da cadeira de balanço. Podiam vislumbrar a silhueta do velho homem que segurava o arco no colo. Ao seu lado, uma criança pequena olhava atento para ele. Com um pequeno movimento todos os soldados correram desesperadamente. Enquanto isso, o velho ergueu mais uma vez o arco. Mirou contra um espaço vazio da parede. A flecha cortou o ar e repousou com força contra o muro de taipa. O garoto correu com dois baldes, rapidinho pintou dois círculos vermelhos e azuis. Pronto, mais um alvo perfeito. - E é assim meu neto que sempre alcança os sonhos, não traçando meta alguma.

O encontro.

Os olhares encontraram-se Por meio segundo o que antes era perdido se fez achar Por um breve instante se pertenceram Para num piscar se desencontrarem Até nunca mais se acharem.

Roteiro da conquista

Atentamente esperava o momento certo de falar. Estudara previamente cada uma das palavras. Sabia exatamente o que dizer, em cada uma das vinte e cinco realidades possíveis. Treinou cada uma das entonações. Lembrava exatamente o que dizer, quando dizer e como dizer. Ela vinha na direção dele. Calma, se falar agora vai parecer alguém desesperado por atenção. Ela passou por trás dele. Manteve-se calmo. Queria parecer controlado para não dar a impressão errada. A distância agora era perfeita, nem perto demais que ficasse desconfortável, nem longe o bastante para precisar subir o tom de voz e chamar a atenção das outras pessoas na sala. Ela estava de cabeça baixa, tudo bem, está tudo sobre controle, ele pegou o livro que estava a sua frente, fingiu ler a capa até que ela levantasse o rosto. Estava tudo segundo o cronograma. Pronto! É agora. Ela olhou pra ele. A boca travou. Espera, vai dar certo, eu consigo! Pera... ela olhou através dele. - Oi bonita! Tudo bem? - Tud...

Maratonista

Sentado na poltrona de couro falso, a taça de vinho esquentando entre os dedos. O cabelo escorrendo sobre a testa e pregado no pescoço denunciava o suor. A casa inteira era um caco. Os móveis agora talvez não interessassem nem ao carreteiro. Os eletrônico não tinham mais fio ou motor que funcionasse. Do braço o sangue vertia em direção ao copo transformando o outro vinho branco em algo mais próximo de um rosé. Se ainda tivesse espelhos veria o corpo todo recoberto de marcas. Não havia osso que não lhe doesse. Contudo, houvesse um espelho, provavelmente não repararia nas ronchas ou nos cortes. Estava exausto, mas estava feliz. O cansaço que lhe amarrava cada músculo era semelhante ao do maratonista em fim de prova. Extenuara-se. Desgastara-se. Consumira-se. Mas sentia-se feliz... Enfim colocara pra fora a raiva que o consumia. Permitira que a bomba explodisse. Apagava tudo de até então e enfim podia voltar a ser. Sorriu.

Rotina

Casa Trabalho Casa Trabalho Trabalho Casa Casabalho Trabasa Catrabasalho

Sabedoria canina

Sábios são os  cães. Sem filosofia alguma encontraram a essência do ser. Conhecem uns aos outros pelos cus e pelos toletes solenemente repousados nas calçadas. Verdadeiras cápsulas de identidade. Afinal, todos nós estamos fadados, da primeira sinapse ao último suspiro, a fazer merda.

A demasia do excesso.

Estava cansado. Não do trabalho, ele era bom. Não da casa, la estava tudo certo. Cansou do exagero. De ver todos sempre tão hiperbolicamente felizes. Não se tinham mais fins de semana legais. Eram sempre os mais memoráveis. Acompanhados por amigos? Não, pelos melhores do mundo. A turma mais "top"... Nunca se estava triste. Quando se admitia alguma dor, essa era a maior dor do mundo... Que se explodissem os sofrimentos dos famintos e dos lutuosos, nenhuma dor nunca seria dor maior... Não se falava de política, torcia-se por ela. Não se defendia um ponto, brigava-se por ele. E ai de quem ousasse discordar... Mesmo que com argumentos, era apenas a opinião... Não conversavam mais, expunham aos gritos o que queriam. Não se rezava, obrigava-se a Deus a prestar atenção, nem que para isso fosse preciso fazer o som da exigência chegar até a estratosfera. Não via como seria possível, tanta taurin...