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Medo

Sentiu e não era primeira vez que sentia isso. O peso da cabeça só era superado pelo aperto no perto que lhe dilacerava as esperanças. Os olhos injetados teimavam em não focar no quer que fosse. A mentia corria a léguas, passava por montes, lagos e desertos, mas em nenhum momento prendia-se onde deveria estar. Confiava em si. Sabia o que devia ser feito. Esforçou-se, na medida do possível. Mas o medo era real. Sentia que não era o bastante, apesar de saber que era o possível. Mas seria o possível o suficiente?

A lição.

Os aplausos enchiam os ouvidos, preenchiam cada pedaço daquela sala. Todos estavam felizes. Há um bom tempo o professor não aparecia pela escola.  Mas todos lembravam dele. Todos tinham saudades dele. Todos preservavam na memória risadas que deram junto dele.  Estavam prontos para ouvir. . .. ... .... ..... Impassível ele olhava para todos. As palmas que já tinham se perdido no espaço haviam dado lugar a um silêncio que já beirava o constrangimento. Alguns olhares começavam a se procurar sem saber o que fazer. A frente da sala ele apenas olhava para o vazio. Com um pequeno movimento de cabeça olhou em cada olho que o mirava. Um sorriso suave e quase imperceptível fez subir o canto esquerdo do seu lábio. Fez um meneio com a cabeça e saiu da sala sem dar uma única palavra. . .. ... .... ..... Foi assunto por meses. Ainda hoje, alguns anos depois, pessoas que estiveram na sala falam sobre o silêncio. Não poucos comentam sobre tud...

O arqueiro

A cena era fenomenal. As flechas preenchiam toda a parede lateral da casa. Algumas ainda fixavam-se ao longo do jardim. Os soldados entraram pisando leve mas falando alto. Tremiam de medo. Estavam no território de alguém impressionante. Ouviram o rangido da cadeira de balanço. Podiam vislumbrar a silhueta do velho homem que segurava o arco no colo. Ao seu lado, uma criança pequena olhava atento para ele. Com um pequeno movimento todos os soldados correram desesperadamente. Enquanto isso, o velho ergueu mais uma vez o arco. Mirou contra um espaço vazio da parede. A flecha cortou o ar e repousou com força contra o muro de taipa. O garoto correu com dois baldes, rapidinho pintou dois círculos vermelhos e azuis. Pronto, mais um alvo perfeito. - E é assim meu neto que sempre alcança os sonhos, não traçando meta alguma.

O encontro.

Os olhares encontraram-se Por meio segundo o que antes era perdido se fez achar Por um breve instante se pertenceram Para num piscar se desencontrarem Até nunca mais se acharem.

Roteiro da conquista

Atentamente esperava o momento certo de falar. Estudara previamente cada uma das palavras. Sabia exatamente o que dizer, em cada uma das vinte e cinco realidades possíveis. Treinou cada uma das entonações. Lembrava exatamente o que dizer, quando dizer e como dizer. Ela vinha na direção dele. Calma, se falar agora vai parecer alguém desesperado por atenção. Ela passou por trás dele. Manteve-se calmo. Queria parecer controlado para não dar a impressão errada. A distância agora era perfeita, nem perto demais que ficasse desconfortável, nem longe o bastante para precisar subir o tom de voz e chamar a atenção das outras pessoas na sala. Ela estava de cabeça baixa, tudo bem, está tudo sobre controle, ele pegou o livro que estava a sua frente, fingiu ler a capa até que ela levantasse o rosto. Estava tudo segundo o cronograma. Pronto! É agora. Ela olhou pra ele. A boca travou. Espera, vai dar certo, eu consigo! Pera... ela olhou através dele. - Oi bonita! Tudo bem? - Tud...

Maratonista

Sentado na poltrona de couro falso, a taça de vinho esquentando entre os dedos. O cabelo escorrendo sobre a testa e pregado no pescoço denunciava o suor. A casa inteira era um caco. Os móveis agora talvez não interessassem nem ao carreteiro. Os eletrônico não tinham mais fio ou motor que funcionasse. Do braço o sangue vertia em direção ao copo transformando o outro vinho branco em algo mais próximo de um rosé. Se ainda tivesse espelhos veria o corpo todo recoberto de marcas. Não havia osso que não lhe doesse. Contudo, houvesse um espelho, provavelmente não repararia nas ronchas ou nos cortes. Estava exausto, mas estava feliz. O cansaço que lhe amarrava cada músculo era semelhante ao do maratonista em fim de prova. Extenuara-se. Desgastara-se. Consumira-se. Mas sentia-se feliz... Enfim colocara pra fora a raiva que o consumia. Permitira que a bomba explodisse. Apagava tudo de até então e enfim podia voltar a ser. Sorriu.

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