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O golpe.

O corpo estava dolorido, somatizando um sentimento obscuro e obtuso. Lembrou de Nando Reis e "o dia que roubaram seu carro deixou uma lembrança", lembrou de cada lição aprendida. De cada foto, de cada depoimento, de cada vídeo de sofrimento daqueles que vieram antes de si. Não a cria a mais preparada, muito menos a mais eloquente, contudo, havia chegado lá por merecimento. As coisas mudavam, assim como na "roda viva" de Buarque, grupos que a dez anos andavam de cabeça baixa e sussurrando seu ódio ao diferente agora o gritavam em alto e bom som. Queria dizer que tudo mudou em um rompante e que por isso fora pegue de surpresa. Sabia que seria uma mentira e por isso precisava admitir, vira a golpe chegar. Há mais de três anos ele se anunciava. Agora, apenas amadureceu. Mas tendo-o visto ou não, a sensação de dor era a mesma. Roubaram-lhe o que havia de mais sagrado. Sangraram-lhe o peito e escancararam a verdade: seus sonhos não valiam nada, sua luta fora em vão. ...

Medo

Sentiu e não era primeira vez que sentia isso. O peso da cabeça só era superado pelo aperto no perto que lhe dilacerava as esperanças. Os olhos injetados teimavam em não focar no quer que fosse. A mentia corria a léguas, passava por montes, lagos e desertos, mas em nenhum momento prendia-se onde deveria estar. Confiava em si. Sabia o que devia ser feito. Esforçou-se, na medida do possível. Mas o medo era real. Sentia que não era o bastante, apesar de saber que era o possível. Mas seria o possível o suficiente?

A lição.

Os aplausos enchiam os ouvidos, preenchiam cada pedaço daquela sala. Todos estavam felizes. Há um bom tempo o professor não aparecia pela escola.  Mas todos lembravam dele. Todos tinham saudades dele. Todos preservavam na memória risadas que deram junto dele.  Estavam prontos para ouvir. . .. ... .... ..... Impassível ele olhava para todos. As palmas que já tinham se perdido no espaço haviam dado lugar a um silêncio que já beirava o constrangimento. Alguns olhares começavam a se procurar sem saber o que fazer. A frente da sala ele apenas olhava para o vazio. Com um pequeno movimento de cabeça olhou em cada olho que o mirava. Um sorriso suave e quase imperceptível fez subir o canto esquerdo do seu lábio. Fez um meneio com a cabeça e saiu da sala sem dar uma única palavra. . .. ... .... ..... Foi assunto por meses. Ainda hoje, alguns anos depois, pessoas que estiveram na sala falam sobre o silêncio. Não poucos comentam sobre tud...

O arqueiro

A cena era fenomenal. As flechas preenchiam toda a parede lateral da casa. Algumas ainda fixavam-se ao longo do jardim. Os soldados entraram pisando leve mas falando alto. Tremiam de medo. Estavam no território de alguém impressionante. Ouviram o rangido da cadeira de balanço. Podiam vislumbrar a silhueta do velho homem que segurava o arco no colo. Ao seu lado, uma criança pequena olhava atento para ele. Com um pequeno movimento todos os soldados correram desesperadamente. Enquanto isso, o velho ergueu mais uma vez o arco. Mirou contra um espaço vazio da parede. A flecha cortou o ar e repousou com força contra o muro de taipa. O garoto correu com dois baldes, rapidinho pintou dois círculos vermelhos e azuis. Pronto, mais um alvo perfeito. - E é assim meu neto que sempre alcança os sonhos, não traçando meta alguma.

O encontro.

Os olhares encontraram-se Por meio segundo o que antes era perdido se fez achar Por um breve instante se pertenceram Para num piscar se desencontrarem Até nunca mais se acharem.

Roteiro da conquista

Atentamente esperava o momento certo de falar. Estudara previamente cada uma das palavras. Sabia exatamente o que dizer, em cada uma das vinte e cinco realidades possíveis. Treinou cada uma das entonações. Lembrava exatamente o que dizer, quando dizer e como dizer. Ela vinha na direção dele. Calma, se falar agora vai parecer alguém desesperado por atenção. Ela passou por trás dele. Manteve-se calmo. Queria parecer controlado para não dar a impressão errada. A distância agora era perfeita, nem perto demais que ficasse desconfortável, nem longe o bastante para precisar subir o tom de voz e chamar a atenção das outras pessoas na sala. Ela estava de cabeça baixa, tudo bem, está tudo sobre controle, ele pegou o livro que estava a sua frente, fingiu ler a capa até que ela levantasse o rosto. Estava tudo segundo o cronograma. Pronto! É agora. Ela olhou pra ele. A boca travou. Espera, vai dar certo, eu consigo! Pera... ela olhou através dele. - Oi bonita! Tudo bem? - Tud...

Maratonista

Sentado na poltrona de couro falso, a taça de vinho esquentando entre os dedos. O cabelo escorrendo sobre a testa e pregado no pescoço denunciava o suor. A casa inteira era um caco. Os móveis agora talvez não interessassem nem ao carreteiro. Os eletrônico não tinham mais fio ou motor que funcionasse. Do braço o sangue vertia em direção ao copo transformando o outro vinho branco em algo mais próximo de um rosé. Se ainda tivesse espelhos veria o corpo todo recoberto de marcas. Não havia osso que não lhe doesse. Contudo, houvesse um espelho, provavelmente não repararia nas ronchas ou nos cortes. Estava exausto, mas estava feliz. O cansaço que lhe amarrava cada músculo era semelhante ao do maratonista em fim de prova. Extenuara-se. Desgastara-se. Consumira-se. Mas sentia-se feliz... Enfim colocara pra fora a raiva que o consumia. Permitira que a bomba explodisse. Apagava tudo de até então e enfim podia voltar a ser. Sorriu.