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O filho de Ariano

Era madrugada alta, devia ser entre três e meia e meia. Ariano acordou de um sobressalto. Quase se pôs de pé de forma repentina e abrupta, o que fez Joana semi-despertar. Ela já estava pronta para um protocolar "tá tudo bem?" e logo em seguida voltar a dormir, mas dessa vez foi diferente. Ariano pegou-a pelos ombros e olhando fundos nos seus olhos disse: Joana, o nosso filho acaba de ser concebido. Em algum lugar perto de nós ele foi encomendado e logo vai chegar. Achando toda aquela conversa para lá de esquisita, Joana resume toda a sua incredulidade em um cenho franzido e um: vai dormir... Foram anos tentando ter um filho, mas do ventre de Joana ele nunca veio. Ariano sabia que lhe faltava uma criança. Sabia que ela estava em algum lugar, só não sabia onde. Rodou pelas redondezas. Nos primeiros anos se demorava pra chegar em casa do trabalho por ficar circulando com o carro a procura da criança. Chegou a ter alguns problema...

O grito do silêncio.

Dizia Tucídides que "O silêncio deles é uma eloquente afirmação." Alguns milhares de anos depois, o americano Jack Kerouac cria que "o silêncio em si é como o som dos diamantes que podem cortar tudo!" O silêncio lhe parecia sábio, o mais sábio a se fazer, mas eis que se depara com Carlos Ruiz Zafón e a ideia de que "O silêncio só é necessário quando não se tem nada de válido a dizer. Ele faz com que até os idiotas pareçam sábios por um minuto." Estaria fingindo-se de sábio, estaria escondendo-se atrás do muro das lamentações? Ou melhor, teria ele ido para dentro do muro? Nunca estivera em cima dele, sempre teve suas próprias opiniões. Mas, estava disposto a brigar por elas?  Quantas vezes decidiu gritar de pulmão cheio? Quantas vezes precisou gritar até a garganta sangrar? Por que temer? O que poderia ele dizer que não deveria ser dito? Nunca falara de nada que não conhecesse ou não acreditasse. Temia o confronto? Dizem os acadêmi...

A estabilidade fulgaz.

Nunca se sentiu tão fragilizado. Justo agora que nunca esteve tão bem. Pela primeira vez a poupança lhe dava o conforto para escolher umas férias que não fossem de apenas três dias em um bate e volta pra algum lugar pertinho de casa. Os vizinhos olhavam torto pra beleza da casa que construiu. Tinha um emprego estável, era reconhecido pela qualidade do que fazia. Mas sentia-se frágil. Ouvia "eu te amo", mas não sabia de quão fundo vinham aquelas palavras. Não lhe faltava um corpo quente e fogoso ao lado. Sentia a falta da atenção, não do cuidado, mas sim do carinho, não do corpo, mas da alma. Poderia ir embora, tinha todas as condições para isso, até mesmo quem quisesse que ele o fizesse. Mas do que adiantava sair se era lá que queria ficar?

Recalculando o trajeto.

Todo satisfeito saiu do banho cheirando a sabonete líquido. Parou na frente do espelho, enxugou os cabelos, deu um sorriso para sua própria imagem e foi se arrumar. Meia hora depois estava lá de calça jeans, uma blusa com um corte bacana e um sapato novinho em folha. Como ainda faltavam alguns minutos para a confraternização foi rever as orientações para chegar no local do evento que tinham sido passadas no grupo da rede social da turma dos tempos da escola. Pegou todas as referências, reviu os melhores trajetos, estava tudo certo. Resolveu limpar um pouco do espaço de armazenamento do celular para garantir que mais tarde não faltasse quando todos estivessem querendo guardar aquele momento. Acabou parando na pasta de fotos do grupo. Viu cada um dos colegas pelo menos uma centena de vezes, os menos populares não apareciam tanto, mas não menos que uma dúzia. Depois de muito rolar as fotos achou-se uma única v...

A escolha.

Ele não desapareceu. Apenas escolheu onde estar. Por um micronesimo de segundo pensou em ser sem se importar com o que diriam de si. Trocou o riso alto seguido do silêncio constrangedor da sala vazia com muitas pessoas dentro pelo som alto de sua própria quietude. Permitia-se não ser. E que seja feliz quem fosse. Ele seria ou não seria, não sabe. Só tinha certeza que naquele momento ele era.

Retomada não programada.

- Eu já disse que não quero que ela venha me buscar! Qual foi a parte que vocês não entenderam? - Tudo bem Robertinho, mas você sabe que quando escolheu a reintegração você passou a ter que se adequar as leis vigentes. - Nada disso, que merda... Eu já estou num corpo de 16 anos, não preciso ter que ficar sob a vigilância de ninguém. - Pode até ser, mas a decisão de ter retomado como brasileiro foi sua. - Olhe... Nos EUA eu já teria licença de motorista e estaria praticamente emancipado. - Praticamente... mas não estaria... E vou ter que repetir, você escolheu retomar como brasileiro, nas leis daqui sua CNH só pode sair quando tiver 18. - AAAHHHH! Vocês são todos muito burros... Quer saber... que se fodam. (tirou um cigarro do bolso e acendeu o isqueiro). - Esperai Robert... você não pode fazer isso, você vai acabar sendo preso. Falou a mulher de vestido vermelho e rosto esticado que tinha vindo buscá-lo. - Vai pra merda Julian... - Você sabe que agora é Judith... E me responda...

Mais uma manhã na trincheira.

A manhã amanhecia em algum lugar acima das nuvens carregadas e da poeira que nunca assentava por completo por ser excitada de cinco em cinco minutos pelos bombardeios. Dentro da trincheira só havia um sentimento: Medo. Mesmo o corajoso do cabo Daciolo não nos enganava. Gritava sempre para tentarmos avançar porque não queria morrer ali dentro da trincheira, sabia que éramos a unica chance dele e que na hora da corrida assassina ele estaria alguns passos atras de nós. E todos sabemos, na guerra não é necessário ser o melhor, basta ter alguém para levar a bala no seu lugar. Viemos para a guerra certos de que tudo seria rápido, mas ela já se arrasta há anos. Pensávamos em voltar heróis, em arrancar a cabeça do inimigo, receber medalhas, visualizávamos um futuro onde as mulheres fariam fila para dançar conosco no baile. Hoje, sujos de merda, de urina e de uma lama que só as trincheiras tem, feita de mistura de dejetos mais abjetos possíveis, vísceras humanas e de ratos, alguns vermes te...