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Senhor maquinista.

Houve um tempo em que o incomodava tratar alguém com educação e ouvir: mas aqui não tem nenhuma senhora, ou, senhora da no céu meu filho. Achava que essas pessoas não conheciam as regras básicas de educação... Ora bolas, sua mãe lhe repetia a exaustão, sempre chame pessoas mais velhas de senhor ou senhora. Havia nele uma raiz de subserviência internalizada. Agora, falava senhor e senhora para aqueles que estavam ao seu derredor e continuava a ouvir negativas, não mais por quem tinha medo de denotar idade ou que mostravam humildade, ele havia envelhecido e praticamente todos ao seu redor eram mais jovens, menos graduados ou estavam em cargos que lhe eram inferiores. Nascera para um mundo onde ele seria apenas mais um dentro da máquina, não sabia ainda como viver sendo o maquinista.

Transcendência mundo cão.

Passou a mão no cabelo. Embaraçado. Tufo caiu. No meio da fumaça dos carros, bom dia, levou um chute pra acordar. Tentou outro abrigo mas a vida já começava. Não, perdoe, vira a cara, tô apressado... Um rosário de desculpas decorado. Fim da manhã a barriga urgia. Senhora?! Puxou a bolsa contra o corpo e apressou o passo. Cansada da cara feia foi no seu Armando. Um boquete, um almoço. No começo o nojo dava vontade de vomitar. Agora engolia o vômito, precisa da comida na barriga. Um dia recheado de não e de medo. Pra encerrar a ladainha um cheiro na latinha. O vapor subia. Sua alma também. Transcendeu. Ascendeu aos céus. Viu Jesus, e ele mandou ela ir tomar no cu.

23 de abril.

Pediu-lhe a graça. Não buscava a vingança ou a destruição. Não lhe movia o sentimento negativo muito menos o desejo de demolir ao outro ou aos seus feitos. A catequista lhe ensinou que deveria dar a outra face ou perdoar setenta vezes sete, até tentava, mas doía muito ser ofendido para poder perdoar. Seu amigo lhe falou sobre carma, sobre suportar a dor, parecia tão resignado... Não lhe apeteceu. Também nunca quis mover as forças da natureza para atacar como a melhor defesa. Isso era só trocar a dor. Deixaria de lhe doer a ofensa recebida para lhe doer o remorso do mal impingido a outrem. Um dia encontrou Ogum. Nunca mais parou de repetir: " Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcan...

Tecendo o amanhã.

Escreveu, planejou, correu, alinhou, julgou, suspendeu,... João Cabral de Melo Neto dizia que galo sozinho não tece o amanhã. Sua sorte era que o amanhecer era inevitável. Era uma força, uma potência da natureza imparável. Enganou-se todas as vezes que acreditava criar o amanhã. Ele sempre viria. Esforçasse-se ou não. Era passageiro de uma viagem não programada para canto algum. Mas era humano, demasiadamente humano. Precisava iludir-se com a ideia de que tudo fazia sentido. Por isso, implorava a Iansã, senhora dos ventos e das tempestades, traga as chuvas, a fúria a força e a valentia. Xangô meu pai, em tuas mãos a justiça, n as minhas, apenas os calos.

Campeão

Amanheceu antes do sol. O corpo ainda acusava sono. O trânsito invariavelmente cheio fazia o relógio escorregar o ponteiro menor de uma maneira paradoxalmente mais veloz que os pneus da condução. A voz que quase não saia da garganta era grossa como areia raspando as paredes sob a pressão dos pulmões. Mas fora brindado com um nascer do sol estupendo. Era igual ao de quase todos os dias, e por isso mesmo era inigualável. A demora, ja não mais assustadora serviu pra compensar alguns minutinhos do sono não respeitado da noite anterior. A voz entregava que a noite fora feliz. Gritara com força para comemorar, era um campeão!

Alijado Aleijadinho

As meias molhadas. Céu confuso. Corpo cansado e peito confuso. O silêncio e os ouvidos cheios. Nas cordas a filosofia. Carpe Diem dizia a tatuagem mais rasa que o pigmento que manchava a pele. Combater o bom combate cravado fundo na alma como espada de fogo em pedra de manteiga. Barroco, essencialmente barroco.

O filho de Ariano

Era madrugada alta, devia ser entre três e meia e meia. Ariano acordou de um sobressalto. Quase se pôs de pé de forma repentina e abrupta, o que fez Joana semi-despertar. Ela já estava pronta para um protocolar "tá tudo bem?" e logo em seguida voltar a dormir, mas dessa vez foi diferente. Ariano pegou-a pelos ombros e olhando fundos nos seus olhos disse: Joana, o nosso filho acaba de ser concebido. Em algum lugar perto de nós ele foi encomendado e logo vai chegar. Achando toda aquela conversa para lá de esquisita, Joana resume toda a sua incredulidade em um cenho franzido e um: vai dormir... Foram anos tentando ter um filho, mas do ventre de Joana ele nunca veio. Ariano sabia que lhe faltava uma criança. Sabia que ela estava em algum lugar, só não sabia onde. Rodou pelas redondezas. Nos primeiros anos se demorava pra chegar em casa do trabalho por ficar circulando com o carro a procura da criança. Chegou a ter alguns problema...