Postagens

Machado - Ideias do Canário

Assim como abri um precedente a Fernando Pessoa, neste post repito a atitude para o grandioso Machado de Assis. Há tempos pensava em um texto que debatesse algumas questões que estavam em latência e não conseguia redigi-lo. Ontem deparei-me com este texto machadiano que falou exatamente o que queria dizer. Reproduzu-o por que já se encontra em domínio público. http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1932 Idéias do canário Machado de Assis Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração. No princípio do mês passado, — disse ele, — indo por uma rua,sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de urna loja de belchior. Nem o estré...

O riso dos "inocentes".

Pelo canto de olho percebia a movimentação ao seu redor. Era uma algazarra. Bolas de papel de um lado para o outro. Cadeiras sendo arrastadas. O ouvido, já treinado a reconhecer o menor ruído possível alcançava o som de alguns beijos por baixo da balburdia de risos e gritos. Estavam se divertindo. Não sabia se ficava feliz ou triste. Sua carteira estava exatamente no meio da sala. Tudo acontecia a seu redor, mas nada parecia lhe tocar. A cabeça, que sempre pendia teimosamente para baixo em uma constante manobra evasiva para evitar os olhares dos outros meninos e meninas da turma acabou fazendo com que percebesse uma moeda que vinha deslizando suavemente pelo chão de cimento batido da sala. Tomou coragem e apanhou-a. Silêncio. Por um segundo o mundo esteve em paz. Por um segundo estava feliz pelo achado. A moeda grossa de cinquenta centavos que parecia vinda do outro lado do universo teve o poder de lhe dar a certeza de que alguém se importava com ele. Atreveu-se a sorrir. Foi obrigado ...

O herói, ou o volta daqueles que nunca foram.

Era uma manhã de domingo como outra qualquer. Remexia papéis e cadernos velhos, procurava por referências, apontamentos e até mesmo uma dose de inspiração para as aulas que viriam daqui a pouco. Sempre vale a pena rever os papeis, sempre existem comentários esquecidos, anotações a serem repensadas e adaptadas para o presente. Contudo, não procurando, encontrei-me. Encontrei a mim mesmo de um modo que nunca fui mesmo tendo querido ser. Vi os rabiscos de fim de caderno, naquela última e surrada folha que recebia todo o descarrego das aulas enfadonhas, das tristezas de brincadeiras sofridas e até mesmo de amores não correspondidos. Vi-me toscamente rabiscado. Era um bombeiro de peito forte e cabeludo, tinha anos de corporação e voltara a cidade. Sim, voltara um herói. Ela reparava como tinha sido tola por ter-me deixado ir e voltava toda apaixonada e transformava o esnobado em carinho. Em outra era um diplomata, sonho antigo e ainda presente, noutro um astronauta, mais além,...

A travessia.

Era uma vez, dois cachorros atravessando a rua.. .. .. .. .. .. Vruuuuuuummmmmm! . . . Só um terminou a travessia. *Baseado em lamentáveis fatos reais. É triste ver motoristas lidando com isso como se não fosse nada. Mas é real.

O último batismo.

As gotas voavam vorazes sobre o azulejo quebrado. Mal terminavam de escorrer lá se vinha outra leva. As mãos sujas e firmes sacudiam o pincel com a displicência mecânica de quem há muito já não se dava conta do que estava fazendo. Os rostos tristes contemplavam pela última vez o corpo. Há alguns momentos era o padre, com o baldinho e algumas plantas a aspergir a água sobre o caixão. Há bem menos tempo ainda eram os olhos a jorrar o líquido sobre as faces rubras de dor, cansaço e saudade. Agora era ele, uma versão grotesca da morte que levava nas mãos um caixote de madeira cheio de cimento. Não usava preto, muito menos uma túnica. O corpo quase desnudo fedendo a cachaça com apenas um chinelo de tira azul e encardido impediam o pé purulento com duas gazes amareladas de caminhar por aquele chão ausente de vida. Seus movimentos rápidos logo deram por encerrado o assunto. Fechou a tumba. Cimentara o pai de alguém, o marido daquela, o amante da outra. Não tava muito...

O amado.

O corpo dolorido reclamava pedindo um pouco de descanso. Sentia as juntas preguentas de suor. Os joelhos rangeram. Levantava-se de junto da cama com dificuldade. Ergueu os olhos já acostumados com a escuridão do quarto sem luxo e vislumbrou seu amado. Chamaram-na de louca quando largou tudo por causa dele. Não acreditavam que fosse possível, mas para ela era! E estava sendo. Caminhou lentamente, inicialmente com as pontas dos pés, mas pouco a pouco foi permitindo que a planta toda se encostasse ao chão frio de sua cela. Banhou-se com cuidado, seu dia estava chegando. Precisava estar linda, precisava estar majestosa. Tinha que estar a altura dele. Com o corpo cheirando a sabão de coco foi se deitar. Com as mãos debulhou as contas do rosário e descansou. Amanhã professaria seus votos. Amanhã deixaria tudo de lado. Via cada rosto irônico, cada risada ao conhecer-lhe o sonho. Relembrava as palavras duras do pai e da mãe. Sentiu-se triste pelo namorado que ...

Temistocles Alberto de Bragança Segundo

De dentro do quarto conseguia ouvir o barulho rítmico das ondas batendo nas rochas logo adiante. Perfumou o corpo nu enquanto olhava-se lascivamente no espelho. Esfregava as gotas borrifadas para deixar o odor mentolado uniforme. Ao acariciar o corpo sentiu-o aquecer por dentro com um desejo súbito. Gostou da ideia. Amou a ideia. Ainda despido percorreu o grandioso loft em que estava, olhou para a mobília cara, toda feita em madeira de lei e coberta por travesseiros de penas de ganso. Os entalhes em estilo rococó da moldura superior do sofá chamaram-lhe a atenção. Por um segundo chegou a desviar o olhar o espelho que havia na parte superior do móvel, deslumbrava-se mais uma vez. As entradas estavam ficando maiores, mas davam-lhe um ar charmoso. Duas rugas se sobressaiam as últimas correções feitas cirurgicamente. Nada demais, mas por uma fração de momento sentiu-se desvanecer, mas fora tudo um momento, uma ilusão. A barba meio grisalha que emoldurava o rosto tantas vezes premiado e há ...