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Eli Eli Lama Sabactani - parte III

 A cabeça coçava. O cabelo estava molhado. O corpo inteiro dolorido. Lentamente o olho se acostumava a penumbra do local. Piscava os olhos com força para tentar forçar a vista a compreender o que era aquilo perto de si. Sentia o meio de suas pernas arder. Como se tivesse sido dilacerada por algo que a invadiu com força. A dor foi superada pelo susto. O que tinha aos pés parecia ser um corpo. - Kadoshi Adonai! Nunca fora a mais devota entre os parentes, mas não podia dizer outra coisa que não aquilo, era seu pai que estava aos seus pés. Só podia. Um grito profundo, agudo e assustado lhe rasgou o peito quando a luz acendeu e confirmou as suas suspeitas. Era o pai, mas estava desfigurado. A cabeça parecia uma bola de sangue. Podia ver de relance a boca dele e não havia ali nenhum dente. O que foi isso? Na porta da sala estava a mãe, com a língua pendendo para fora do rosto arroxeado pela corda que lhe suspendia no chão. Também via pingos de sangue no chão, logo abaixo do ventre mater...

Eli Eli Lama Sabactani - parte II

A portinhola foi aberta com força pelo lado de fora. De dentro saíram todos os ocupantes, molhados de suor. Precisavam de um banho, o cheiro já estava ficando excessivamente evidente. Tobias permitiu que usassem o banheiro de seu próprio quarto, era melhor não aparecessem no quintal, onde o anfitrião tinha construído outro banheiro para usar enquanto estivesse mexendo na horta. Como todo bom alemão era ligado a terra, e era daquela pequena porção de chãoq ue conseguia prover a alimentação de todos sem levantar suspeitas. Afinal se começasse a comprar comida para todos levantaria suspeitas, a comunidade da cidade sabia que ele era sozinho desde que a mulher e a filha morreram em um acidente com um galão de gasolina quando do fim do primeiro grande conflito mundial. Tobias contava que sempre fora previdente e guardava um pouco pois sentia que a Alemanha não aceitaria a derrota, que tudo não passava de um silêncio que precedia a explosão. Sentia que o povo alemão tomaria novamente as red...

Eli Eli Lama Sabactani - parte I

A respiração parecia com o motor de um carro. Mesmo sem fazer barulho nenhum, o corpo se transformava em uma grande máquina de fazer sons. O coração tamborilava no peito como se quisesse sair e se esconder dos monstros que podiam ser vistos pela fresta das ripas de madeira que compunham o fundo falso do guarda roupas daquele homem bondoso que nunca haviam notado, mas que milagrosamente se apiedou deles naquele momento onde a bondade parecia ter abandonado o mundo. Louvado seja Iaweh. As quatro pessoas ocupavam um espaço que comportaria muito bem uma criança de dez anos, e só. Mas não se entristeciam pela miudeza do esconderijo. Era o lugar mais maravilhoso que havia no mundo. A casa de três andares, com escada de piso de mármore e corrimão de madeira de lei parecia um passado distante, mas não tão longínquo como os sábados de descanso ao som de Wagner com seus sons fortes e marchas grandiosas. Adorava ver a pequena Hanah exercitando-se no piano. Mas tudo era passado, agora só lhe re...

Machado - Ideias do Canário

Assim como abri um precedente a Fernando Pessoa, neste post repito a atitude para o grandioso Machado de Assis. Há tempos pensava em um texto que debatesse algumas questões que estavam em latência e não conseguia redigi-lo. Ontem deparei-me com este texto machadiano que falou exatamente o que queria dizer. Reproduzu-o por que já se encontra em domínio público. http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1932 Idéias do canário Machado de Assis Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração. No princípio do mês passado, — disse ele, — indo por uma rua,sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de urna loja de belchior. Nem o estré...

O riso dos "inocentes".

Pelo canto de olho percebia a movimentação ao seu redor. Era uma algazarra. Bolas de papel de um lado para o outro. Cadeiras sendo arrastadas. O ouvido, já treinado a reconhecer o menor ruído possível alcançava o som de alguns beijos por baixo da balburdia de risos e gritos. Estavam se divertindo. Não sabia se ficava feliz ou triste. Sua carteira estava exatamente no meio da sala. Tudo acontecia a seu redor, mas nada parecia lhe tocar. A cabeça, que sempre pendia teimosamente para baixo em uma constante manobra evasiva para evitar os olhares dos outros meninos e meninas da turma acabou fazendo com que percebesse uma moeda que vinha deslizando suavemente pelo chão de cimento batido da sala. Tomou coragem e apanhou-a. Silêncio. Por um segundo o mundo esteve em paz. Por um segundo estava feliz pelo achado. A moeda grossa de cinquenta centavos que parecia vinda do outro lado do universo teve o poder de lhe dar a certeza de que alguém se importava com ele. Atreveu-se a sorrir. Foi obrigado ...

O herói, ou o volta daqueles que nunca foram.

Era uma manhã de domingo como outra qualquer. Remexia papéis e cadernos velhos, procurava por referências, apontamentos e até mesmo uma dose de inspiração para as aulas que viriam daqui a pouco. Sempre vale a pena rever os papeis, sempre existem comentários esquecidos, anotações a serem repensadas e adaptadas para o presente. Contudo, não procurando, encontrei-me. Encontrei a mim mesmo de um modo que nunca fui mesmo tendo querido ser. Vi os rabiscos de fim de caderno, naquela última e surrada folha que recebia todo o descarrego das aulas enfadonhas, das tristezas de brincadeiras sofridas e até mesmo de amores não correspondidos. Vi-me toscamente rabiscado. Era um bombeiro de peito forte e cabeludo, tinha anos de corporação e voltara a cidade. Sim, voltara um herói. Ela reparava como tinha sido tola por ter-me deixado ir e voltava toda apaixonada e transformava o esnobado em carinho. Em outra era um diplomata, sonho antigo e ainda presente, noutro um astronauta, mais além,...

A travessia.

Era uma vez, dois cachorros atravessando a rua.. .. .. .. .. .. Vruuuuuuummmmmm! . . . Só um terminou a travessia. *Baseado em lamentáveis fatos reais. É triste ver motoristas lidando com isso como se não fosse nada. Mas é real.