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23 de abril.

Pediu-lhe a graça.
Não buscava a vingança ou a destruição.
Não lhe movia o sentimento negativo muito menos o desejo de demolir ao outro ou aos seus feitos.
A catequista lhe ensinou que deveria dar a outra face ou perdoar setenta vezes sete, até tentava, mas doía muito ser ofendido para poder perdoar.
Seu amigo lhe falou sobre carma, sobre suportar a dor, parecia tão resignado... Não lhe apeteceu.
Também nunca quis mover as forças da natureza para atacar como a melhor defesa.
Isso era só trocar a dor. Deixaria de lhe doer a ofensa recebida para lhe doer o remorso do mal impingido a outrem.Um dia encontrou Ogum. Nunca mais parou de repetir:
"Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo am…

Tecendo o amanhã.

Escreveu, planejou, correu, alinhou, julgou, suspendeu,...João Cabral de Melo Neto dizia que galo sozinho não tece o amanhã. Sua sorte era que o amanhecer era inevitável. Era uma força, uma potência da natureza imparável. Enganou-se todas as vezes que acreditava criar o amanhã. Ele sempre viria. Esforçasse-se ou não.
Era passageiro de uma viagem não programada para canto algum.Mas era humano, demasiadamente humano. Precisava iludir-se com a ideia de que tudo fazia sentido. Por isso, implorava a Iansã, senhora dos ventos e das tempestades, traga as chuvas, a fúria a força e a valentia. Xangô meu pai, em tuas mãos a justiça, nas minhas, apenas os calos.

Campeão

Amanheceu antes do sol.
O corpo ainda acusava sono.
O trânsito invariavelmente cheio fazia o relógio escorregar o ponteiro menor de uma maneira paradoxalmente mais veloz que os pneus da condução.
A voz que quase não saia da garganta era grossa como areia raspando as paredes sob a pressão dos pulmões. Mas fora brindado com um nascer do sol estupendo. Era igual ao de quase todos os dias, e por isso mesmo era inigualável.
A demora, ja não mais assustadora serviu pra compensar alguns minutinhos do sono não respeitado da noite anterior.
A voz entregava que a noite fora feliz. Gritara com força para comemorar, era um campeão!

Alijado Aleijadinho

As meias molhadas. Céu confuso.
Corpo cansado e peito confuso.
O silêncio e os ouvidos cheios.
Nas cordas a filosofia.
Carpe Diem dizia a tatuagem mais rasa que o pigmento que manchava a pele.
Combater o bom combate cravado fundo na alma como espada de fogo em pedra de manteiga.
Barroco, essencialmente barroco.

O filho de Ariano

Era madrugada alta, devia ser entre três e meia e meia. Ariano acordou de um sobressalto. Quase se pôs de pé de forma repentina e abrupta, o que fez Joana semi-despertar. Ela já estava pronta para um protocolar "tá tudo bem?" e logo em seguida voltar a dormir, mas dessa vez foi diferente.
Ariano pegou-a pelos ombros e olhando fundos nos seus olhos disse: Joana, o nosso filho acaba de ser concebido. Em algum lugar perto de nós ele foi encomendado e logo vai chegar.
Achando toda aquela conversa para lá de esquisita, Joana resume toda a sua incredulidade em um cenho franzido e um: vai dormir...Foram anos tentando ter um filho, mas do ventre de Joana ele nunca veio.
Ariano sabia que lhe faltava uma criança. Sabia que ela estava em algum lugar, só não sabia onde.
Rodou pelas redondezas.
Nos primeiros anos se demorava pra chegar em casa do trabalho por ficar circulando com o carro a procura da criança.
Chegou a ter alguns problemas no shopping por ser um homem estranho observa…

O grito do silêncio.

Dizia Tucídides que "O silêncio deles é uma eloquente afirmação." Alguns milhares de anos depois, o americano Jack Kerouac cria que "o silêncio em si é como o som dos diamantes que podem cortar tudo!"
O silêncio lhe parecia sábio, o mais sábio a se fazer, mas eis que se depara com Carlos Ruiz Zafón e a ideia de que "O silêncio só é necessário quando não se tem nada de válido a dizer. Ele faz com que até os idiotas pareçam sábios por um minuto." Estaria fingindo-se de sábio, estaria escondendo-se atrás do muro das lamentações? Ou melhor, teria ele ido para dentro do muro? Nunca estivera em cima dele, sempre teve suas próprias opiniões. Mas, estava disposto a brigar por elas? 
Quantas vezes decidiu gritar de pulmão cheio?
Quantas vezes precisou gritar até a garganta sangrar?
Por que temer?
O que poderia ele dizer que não deveria ser dito?
Nunca falara de nada que não conhecesse ou não acreditasse.
Temia o confronto?
Dizem os acadêmicos que é da diversidade da…

A estabilidade fulgaz.

Nunca se sentiu tão fragilizado. Justo agora que nunca esteve tão bem.
Pela primeira vez a poupança lhe dava o conforto para escolher umas férias que não fossem de apenas três dias em um bate e volta pra algum lugar pertinho de casa. Os vizinhos olhavam torto pra beleza da casa que construiu. Tinha um emprego estável, era reconhecido pela qualidade do que fazia.
Mas sentia-se frágil.
Ouvia "eu te amo", mas não sabia de quão fundo vinham aquelas palavras.
Não lhe faltava um corpo quente e fogoso ao lado. Sentia a falta da atenção, não do cuidado, mas sim do carinho, não do corpo, mas da alma.
Poderia ir embora, tinha todas as condições para isso, até mesmo quem quisesse que ele o fizesse.
Mas do que adiantava sair se era lá que queria ficar?