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Direct mensager.

Hoje eu acordei e meu primeiro pensamento foi você... Você me pergunta se está tudo bem, e com os olhos marejados e o nariz avermelhado eu lhe digo que sim com a cabeça, mas você sabe a verdade... Não está.
Está tudo uma bagunça, mesmo parecendo estar tudo em ordem.
Sinto-me só, porque no meio da multidão não tem você.
No movimento automático de pegar o celular procurando por histórias que me façam passar o tempo, falta o seu sorriso. Sinto saudades... Saudade de tanta coisa, de tanto sentimento, de tanto eu. De tanto eu como você.
O mais louco de tudo é ter saudade de um passado que nunca passou de nada além de uma projeção de um futuro que poderia ter sido mas nunca foi.
Mesmo assim, foi mais verdadeiro que a maioria das verdades, que a maioria dos corpos, dos abraços, dos beijos.
Nunca fomos, mas você sempre foi. Parou por dois segundos...
Pensou um pouco.
O polegar dançou levemente pra cima e pra baixo mas acabou encontrando a seta apontando para a esquerda com um x dentro. …

Senhor maquinista.

Houve um tempo em que o incomodava tratar alguém com educação e ouvir: mas aqui não tem nenhuma senhora, ou, senhora da no céu meu filho.
Achava que essas pessoas não conheciam as regras básicas de educação... Ora bolas, sua mãe lhe repetia a exaustão, sempre chame pessoas mais velhas de senhor ou senhora.
Havia nele uma raiz de subserviência internalizada.
Agora, falava senhor e senhora para aqueles que estavam ao seu derredor e continuava a ouvir negativas, não mais por quem tinha medo de denotar idade ou que mostravam humildade, ele havia envelhecido e praticamente todos ao seu redor eram mais jovens, menos graduados ou estavam em cargos que lhe eram inferiores. Nascera para um mundo onde ele seria apenas mais um dentro da máquina, não sabia ainda como viver sendo o maquinista.

Transcendência mundo cão.

Passou a mão no cabelo.
Embaraçado. Tufo caiu.
No meio da fumaça dos carros, bom dia, levou um chute pra acordar.
Tentou outro abrigo mas a vida já começava.
Não, perdoe, vira a cara, tô apressado...
Um rosário de desculpas decorado.
Fim da manhã a barriga urgia.
Senhora?!
Puxou a bolsa contra o corpo e apressou o passo.
Cansada da cara feia foi no seu Armando.
Um boquete, um almoço.
No começo o nojo dava vontade de vomitar.
Agora engolia o vômito, precisa da comida na barriga.
Um dia recheado de não e de medo.
Pra encerrar a ladainha um cheiro na latinha.
O vapor subia. Sua alma também.
Transcendeu.
Ascendeu aos céus.
Viu Jesus, e ele mandou ela ir tomar no cu.

23 de abril.

Pediu-lhe a graça.
Não buscava a vingança ou a destruição.
Não lhe movia o sentimento negativo muito menos o desejo de demolir ao outro ou aos seus feitos.
A catequista lhe ensinou que deveria dar a outra face ou perdoar setenta vezes sete, até tentava, mas doía muito ser ofendido para poder perdoar.
Seu amigo lhe falou sobre carma, sobre suportar a dor, parecia tão resignado... Não lhe apeteceu.
Também nunca quis mover as forças da natureza para atacar como a melhor defesa.
Isso era só trocar a dor. Deixaria de lhe doer a ofensa recebida para lhe doer o remorso do mal impingido a outrem.Um dia encontrou Ogum. Nunca mais parou de repetir:
"Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo am…

Tecendo o amanhã.

Escreveu, planejou, correu, alinhou, julgou, suspendeu,...João Cabral de Melo Neto dizia que galo sozinho não tece o amanhã. Sua sorte era que o amanhecer era inevitável. Era uma força, uma potência da natureza imparável. Enganou-se todas as vezes que acreditava criar o amanhã. Ele sempre viria. Esforçasse-se ou não.
Era passageiro de uma viagem não programada para canto algum.Mas era humano, demasiadamente humano. Precisava iludir-se com a ideia de que tudo fazia sentido. Por isso, implorava a Iansã, senhora dos ventos e das tempestades, traga as chuvas, a fúria a força e a valentia. Xangô meu pai, em tuas mãos a justiça, nas minhas, apenas os calos.

Campeão

Amanheceu antes do sol.
O corpo ainda acusava sono.
O trânsito invariavelmente cheio fazia o relógio escorregar o ponteiro menor de uma maneira paradoxalmente mais veloz que os pneus da condução.
A voz que quase não saia da garganta era grossa como areia raspando as paredes sob a pressão dos pulmões. Mas fora brindado com um nascer do sol estupendo. Era igual ao de quase todos os dias, e por isso mesmo era inigualável.
A demora, ja não mais assustadora serviu pra compensar alguns minutinhos do sono não respeitado da noite anterior.
A voz entregava que a noite fora feliz. Gritara com força para comemorar, era um campeão!

Alijado Aleijadinho

As meias molhadas. Céu confuso.
Corpo cansado e peito confuso.
O silêncio e os ouvidos cheios.
Nas cordas a filosofia.
Carpe Diem dizia a tatuagem mais rasa que o pigmento que manchava a pele.
Combater o bom combate cravado fundo na alma como espada de fogo em pedra de manteiga.
Barroco, essencialmente barroco.