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Tanto (a)mar.

Entre o fado e o samba há um atlântico.
Tanto por querer e tanto por existir.
Tanto a lamentar e tanta vida a se viver.
Mas no final, seja ao som das cuícas ou alaúdes, existe uma dor para cada um.
Seja ela saudade ou amor.
Seja d'aquém ou d'além mar.
Sempre existe uma dor e sempre haverá.

Registros.

Fomos em um grupo de seis pessoas para o show.
Fizemos fotos e check ins.
Bebemos.
Fizemos fotos.
A banda de abertura tocou.
Fizemos fotos esperando a chegada dele.
Ele chegou.
Todos tiraram o celular do bolso.
Durante uma hora e meia filmaram o artista.
No afã de guardar memórias do show não fizeram mais do que registros de vídeo.
Viram cada segundo do show pela tela do celular.
E jogaram mais um milhão de bites na nuvem de vídeo de péssima qualidade.

Contatos imediatos. (Parte I)

Puta que pariu... onde é que eu to?!
O olhar deu direto em uma luz de necrotério pendurada no teto acima da barriga dele.
Tentou mexer a cabeça para poder olhar melhor onde estava. Não podia, a cabeça parecia estar presa por correias na testa e no queixo.
Numa fração de segundos os capilares do corpo identificaram amarras nos braços, nas pernas e na cintura também.
Para seu maior desespero também não pode deixar de notar que estava completamente nu.
Sem ter como se mexer debateu-se sobre a maca.
Balançou para todos os lados.
O olhar fixo na luz tentou vagar para outros lugares do teto.
Começou a ver pontinhos estranhos que iam e vinham. Sabia muito bem o que era aquilo, uma consequência da luz mistura a falta de oxigenação no cérebro.
- Leia a mensagem.
- Oi? Quem é que ta falando?
O silêncio foi sua única resposta, mas não estava louco, sabia que alguém tinha falado com ele.
Meio sem querer começou a notar que o pontinhos pareciam formar uma frase. Demorou uns cinco minutos até que e…

A senha.

Esses dias me perguntaram como eu conseguia viver sem a sensação de mais "primeiras vezes", tiveram muitas respostas filosóficas e tals, mas a vida se encarrega de nos dar respostas, e as vezes das formas mas frívolas possíveis.
Aquela angústia da espera sem saber se vai ou não vai, aquela acelerada no ritmo do coração... Alguém aí já esteve com a senha 22 e não sentiu isso quando a funcionária da repartição pública chamou a 21? A vida nos surpreende todos os dias. Emociona-nos com pequenos regalos cotidianos.
Basta abrir os poros.

A melancolia da saudade que talvez virá.

Beijaram-se. Foi confuso como todo primeiro beijo. Foi terno e intenso ao mesmo tempo, como se fosse o último.
E era. Sabia que nunca mais poderia acontecer. Tinha dentro de si a certeza de que era feliz, mas ao mesmo tempo que aquela felicidade era momentânea. Precisava ser.Pegou-se num misto de felicidade e melancolia.
Segurou ela bem firme junto ao peito. Apertou-a num abraço tão forte que conseguia sentir o coração batendo rápido do outro lado. O nariz ficava exatamente alguns centímetros acima daquele cabelo liso. Sentiu-lhe o cheiro com intensidade. Tentou suga-la para dentro de si. Era impossível. Despediram-se com a sensação de satisfação... Mas ele não conseguia deixar de pensar que daqui a pouco não passaria de uma lembrança. A distância os levaria para lugares completamente diferentes. Seriam corpos e almas em rotas opostas.Sorriu um sorriso sem graça ao pensar que talvez daqui há dez anos ela lembre dele na volta do trabalho e dê um pequeno suspiro de saudades. Quem sabe.…

Utopias

Dizem que uma utopia é inalcançável.
Dizem que ela é como o horizonte que foge eternamente sem dando uma passo a cada passo que damos.
Mas...
E se alcançarmos alguma delas?
Os sábios iluministas pediam a liberdade de expressão.
Voltaire arrogava o direito de livre manifestação de pensamento...
Falavam em democracia da informação e da expressão.
Falavam em extinguir os controles e permitir que as pessoas falassem tudo o que pensam porque dai sairia o consenso.
Discursavam sobre criar formas de acesso a informação, encurtar as distancias...

O que acontece quando se alcança uma utopia?

Âncora.

A âncora desceu trabalhosamente cortando a água abaixo de si.
Parecia leve demais para aquele barco.
Passaram-se meses e as marés faziam-se sentir cada vez mais fracas.
O navio balançava cada vez menos.
Após alguns anos não duvidariam se os dissessem que estavam em terra firme tal era a solidez que sentia sob os pés.
A cada ano a âncora pesava mais.
A cada instante ficava mais difícil voltar ao alto-mar.