Postagens

Walter e os agoras.

Correu desesperado pelo meio da floresta. Os passos apressados misturavam-se com saltos curtos para fugir das raízes e pedras que viravam armadilhas no meio do caminho. O vento raspava-lhe o corpo se prendendo um pouco mais apenas nos pelos que a puberdade lhe trouxera há algum tempo atrás.
Jogou-se com fome dentro da água.
Deixou o corpo boiar dentro do lago.
Sentia ali uma paz que a muito tempo não tinha.
O clima suave e ameno o fez repousar e descansar. Estava livre.
As mãos flutuando no meio da água coroavam braços estendidos em formato de cruz.Viu o sono de Carlos ao levantar a força naquele dia, cada solavanco que o ônibus que ia pelas quadras deu, sentiu a topada dele logo na entrada da fábrica. Américo, responsável pelo abastecimento estava nervoso, a esposa estava atrasada há mais de mês, com o salário atual não dava pra sustentar uma criança, ela pensava em fugir. Mariana do controle de qualidade estava com cólica, Rafael do almoxarifado ia pedir demissão,...Com os olhos a…

Um gole de realidade.

Após um dia tranquilo, onde mesmo com muito trabalho ele conseguiu concluir todas as metas projetadas para aquele dia, Carlos só queria descansar.
Abriu uma cerveja e foi olhar para o mundo.
As vezes na correria do dia-a-dia não sobra muito tempo para saber o que anda acontecendo.
E lá foi ele.
Em alguns cliques já estava no meio do mundo.
Viu uma quadrilha de policiais que extorquia uma facção criminosa de venda de drogas, nos comentários da matéria tinha gente falando que tudo era uma armação dos esquerdistas contra os heróis de farda.
Achou estranho uma série de articulações políticas de um pessoal que se dizia contra o presidente mas que liberou secretários para votarem a favor dele.
Pensou em deixar os jornais para lá e ir ver gente como a gente.
Facebook mal abriu e já viu três ex-alunos falando contra gays e que cota para negro era preconceito.
O coração foi a boca e voltou empurrado pelo resto da cerveja tomada em um único gole.
Melhor ir ler um livro...
O mundo anda muito est…

Umbigo.

Joana é judia, tem 75 anos e nunca entrou num campo de concentração.
Mário viveu a ditadura no Brasil, nunca foi torturado.
Danilo já está com 65 anos e acha que as reformas são necessárias.
Camila passou dos noventa anos e nunca viu um milagre...

João Sei lá qual.

Não era alguém.
Não tinha o cabelo mais bonito.
Não sabia mais que os outros.
Não recebia aplausos pela eloquência e muito menos olhares de cobiça para o que possuía.
Não tinha muitos bens nem muitas contas.
Vivia o melhor que podia sem que isso lhe prendesse.

Era mais um João, da família dos ninguém.
Era livre.
Era rei de si mesmo.

O tempo.

O tempo é relativo.
Isso não é uma máxima física, é uma constatação cotidiana.
Cada um de nós acaba em algum momento buscando formas de sobreviver ao tempo.
Mesmo sendo ele mais poderoso que qualquer um de nós.
Gastamos tempo pensando em formas de ganhar tempo.
E acabamos percebendo que é um esforço vão.
Nunca conseguimos, mesmo com toda tecnologia que temos, conter a força de um vulcão.
Ou até controlar a fúria dos furações.
Aprendemos a sobreviver.
Aprendemos a conviver com esse poder, nunca a controla-lo
Ora, o que dizer então do tempo, a mais poderosa das forças naturais, que dobra as montanhas e seca oceanos. Nós pensamos em horas, algumas grandes instituições pensam em séculos.
O tempo, não pensa, ele apenas é, foi e será. Não importa quem veio ou quem vira, ele permanece. Ora, o tempo pode até ser relativo, mas ao mesmo tempo, ele é eterno.

Ela entendeu tudo errado.

- Terminamos... Não tinha mais como não..
- Cara, não me espanta... mas por quê?
- Porque não dava... Chegou uma hora que queríamos coisas diferentes demais.
- Assim, o que ela veio conversar comigo foi que tava preocupada contigo, que achava que tu tava virando uma bomba relógio, que não se abria mais com ela...
- Pois então... Não da pra aguentar isso má.
- Mas depois daquela viagem que ela comprou pra vocês...
- Puta que pariu, nem me fale.
- Perainda, tu ta me dizendo que não gostou? Tu só falava sobre a porra da Tunísia e ela foi lá e comprou as passagens.
- Eu sei... cara, quer saber... tu não vai entender.
- Espera... tinha outra pessoa nera? Fala a verdade Otávio.
- Ter não tinha... Mas acabou tendo. A Flávia praticamente me empurrou.
- Como empurrou porra, a dona fazia tudo por ti, vivia falando de ti, estava super preocupada, fez de tudo que podia e não podia.
- Exato... Quando nós começamos eu disse para ela que eu queria alguém para amar.
- Oura porra... mas se não for is…

Tanto (a)mar.

Entre o fado e o samba há um atlântico.
Tanto por querer e tanto por existir.
Tanto a lamentar e tanta vida a se viver.
Mas no final, seja ao som das cuícas ou alaúdes, existe uma dor para cada um.
Seja ela saudade ou amor.
Seja d'aquém ou d'além mar.
Sempre existe uma dor e sempre haverá.