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Retomada não programada.

- Eu já disse que não quero que ela venha me buscar! Qual foi a parte que vocês não entenderam?
- Tudo bem Robertinho, mas você sabe que quando escolheu a reintegração você passou a ter que se adequar as leis vigentes.
- Nada disso, que merda... Eu já estou num corpo de 16 anos, não preciso ter que ficar sob a vigilância de ninguém.
- Pode até ser, mas a decisão de ter retomado como brasileiro foi sua.
- Olhe... Nos EUA eu já teria licença de motorista e estaria praticamente emancipado.
- Praticamente... mas não estaria... E vou ter que repetir, você escolheu retomar como brasileiro, nas leis daqui sua CNH só pode sair quando tiver 18.
- AAAHHHH! Vocês são todos muito burros... Quer saber... que se fodam. (tirou um cigarro do bolso e acendeu o isqueiro).
- Esperai Robert... você não pode fazer isso, você vai acabar sendo preso. Falou a mulher de vestido vermelho e rosto esticado que tinha vindo buscá-lo.
- Vai pra merda Julian...
- Você sabe que agora é Judith... E me responda direito…

Mais uma manhã na trincheira.

A manhã amanhecia em algum lugar acima das nuvens carregadas e da poeira que nunca assentava por completo por ser excitada de cinco em cinco minutos pelos bombardeios.
Dentro da trincheira só havia um sentimento: Medo.
Mesmo o corajoso do cabo Daciolo não nos enganava. Gritava sempre para tentarmos avançar porque não queria morrer ali dentro da trincheira, sabia que éramos a unica chance dele e que na hora da corrida assassina ele estaria alguns passos atras de nós. E todos sabemos, na guerra não é necessário ser o melhor, basta ter alguém para levar a bala no seu lugar.
Viemos para a guerra certos de que tudo seria rápido, mas ela já se arrasta há anos.
Pensávamos em voltar heróis, em arrancar a cabeça do inimigo, receber medalhas, visualizávamos um futuro onde as mulheres fariam fila para dançar conosco no baile. Hoje, sujos de merda, de urina e de uma lama que só as trincheiras tem, feita de mistura de dejetos mais abjetos possíveis, vísceras humanas e de ratos, alguns vermes teimo…

A prisão dos outros e a procura da liberdade.

Os direitistas chamavam-me de comunista, esquerdopata, viado enrustido, doutrinador. Disseram que eu escolhi o lado do mal e não o da família, da moral e dos bons costumes. Os de esquerda me disseram que eu deveria sentir vergonha por não ter tomado partido de forma mais enfática, por desviar a atenção diante da verdadeira causa revolucionária... Alienado, lumpemproletario, capacho do sistema, ... A cada palavra que queria falar saia-me um silêncio. Disseram que era porque não tinha nada a dizer. Depois de tanto apanhar aprendi a guardar, a não falar, e fui-me enchendo de tantas palavras não ditas, e das sobras daquelas que eram mal ditas... Estufado o peito, precisava aliviar a pressão. Aliviei-a pintando a parede atrás do meu corpo com sangue e viceras arrastadas pela bala que enfiei no coração. Morto admirei-me por reencontrar tanta gente de quem eu sentia falta. Busquei um abraço. Mas antes que eu pudesse terminar de falar me disseram: como você pôde querer morrer quando a única…

Ela

Não acelerava o coração dentro do seu peito.
Não lhe fazia sentir borboletas no estômago.
Não o impulsionava a fazer textões de declaração.

Mas ela lhe trazia paz.
Ela era lar.

Não importavam onde estavam, se ela estava lá, ele estava em casa.
Assim foi quando viajaram, quando escolheram a primeira casa, quando se mudaram.

Não era uma balada romântica ou um solo de guitarra espalhafatoso.
Era o violão que lá ao fundo da música fazia a base para toda a melodia.

Com ela ele era.
Até seria sem, mas acostumou-se a ser e aprendeu a gostar de quem era.
Ele era freio de mão e ela o momento em que se tira a mão do volante na decida da ladeira.

Eram felizes cada um em si.
Mas um no outro eram plenos.

Walter e os agoras.

Correu desesperado pelo meio da floresta. Os passos apressados misturavam-se com saltos curtos para fugir das raízes e pedras que viravam armadilhas no meio do caminho. O vento raspava-lhe o corpo se prendendo um pouco mais apenas nos pelos que a puberdade lhe trouxera há algum tempo atrás.
Jogou-se com fome dentro da água.
Deixou o corpo boiar dentro do lago.
Sentia ali uma paz que a muito tempo não tinha.
O clima suave e ameno o fez repousar e descansar. Estava livre.
As mãos flutuando no meio da água coroavam braços estendidos em formato de cruz.Viu o sono de Carlos ao levantar a força naquele dia, cada solavanco que o ônibus que ia pelas quadras deu, sentiu a topada dele logo na entrada da fábrica. Américo, responsável pelo abastecimento estava nervoso, a esposa estava atrasada há mais de mês, com o salário atual não dava pra sustentar uma criança, ela pensava em fugir. Mariana do controle de qualidade estava com cólica, Rafael do almoxarifado ia pedir demissão,...Com os olhos a…

Um gole de realidade.

Após um dia tranquilo, onde mesmo com muito trabalho ele conseguiu concluir todas as metas projetadas para aquele dia, Carlos só queria descansar.
Abriu uma cerveja e foi olhar para o mundo.
As vezes na correria do dia-a-dia não sobra muito tempo para saber o que anda acontecendo.
E lá foi ele.
Em alguns cliques já estava no meio do mundo.
Viu uma quadrilha de policiais que extorquia uma facção criminosa de venda de drogas, nos comentários da matéria tinha gente falando que tudo era uma armação dos esquerdistas contra os heróis de farda.
Achou estranho uma série de articulações políticas de um pessoal que se dizia contra o presidente mas que liberou secretários para votarem a favor dele.
Pensou em deixar os jornais para lá e ir ver gente como a gente.
Facebook mal abriu e já viu três ex-alunos falando contra gays e que cota para negro era preconceito.
O coração foi a boca e voltou empurrado pelo resto da cerveja tomada em um único gole.
Melhor ir ler um livro...
O mundo anda muito est…

Umbigo.

Joana é judia, tem 75 anos e nunca entrou num campo de concentração.
Mário viveu a ditadura no Brasil, nunca foi torturado.
Danilo já está com 65 anos e acha que as reformas são necessárias.
Camila passou dos noventa anos e nunca viu um milagre...