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O tempo.

O tempo é relativo.
Isso não é uma máxima física, é uma constatação cotidiana.
Cada um de nós acaba em algum momento buscando formas de sobreviver ao tempo.
Mesmo sendo ele mais poderoso que qualquer um de nós.
Gastamos tempo pensando em formas de ganhar tempo.
E acabamos percebendo que é um esforço vão.
Nunca conseguimos, mesmo com toda tecnologia que temos, conter a força de um vulcão.
Ou até controlar a fúria dos furações.
Aprendemos a sobreviver.
Aprendemos a conviver com esse poder, nunca a controla-lo
Ora, o que dizer então do tempo, a mais poderosa das forças naturais, que dobra as montanhas e seca oceanos. Nós pensamos em horas, algumas grandes instituições pensam em séculos.
O tempo, não pensa, ele apenas é, foi e será. Não importa quem veio ou quem vira, ele permanece. Ora, o tempo pode até ser relativo, mas ao mesmo tempo, ele é eterno.

Ela entendeu tudo errado.

- Terminamos... Não tinha mais como não..
- Cara, não me espanta... mas por quê?
- Porque não dava... Chegou uma hora que queríamos coisas diferentes demais.
- Assim, o que ela veio conversar comigo foi que tava preocupada contigo, que achava que tu tava virando uma bomba relógio, que não se abria mais com ela...
- Pois então... Não da pra aguentar isso má.
- Mas depois daquela viagem que ela comprou pra vocês...
- Puta que pariu, nem me fale.
- Perainda, tu ta me dizendo que não gostou? Tu só falava sobre a porra da Tunísia e ela foi lá e comprou as passagens.
- Eu sei... cara, quer saber... tu não vai entender.
- Espera... tinha outra pessoa nera? Fala a verdade Otávio.
- Ter não tinha... Mas acabou tendo. A Flávia praticamente me empurrou.
- Como empurrou porra, a dona fazia tudo por ti, vivia falando de ti, estava super preocupada, fez de tudo que podia e não podia.
- Exato... Quando nós começamos eu disse para ela que eu queria alguém para amar.
- Oura porra... mas se não for is…

Tanto (a)mar.

Entre o fado e o samba há um atlântico.
Tanto por querer e tanto por existir.
Tanto a lamentar e tanta vida a se viver.
Mas no final, seja ao som das cuícas ou alaúdes, existe uma dor para cada um.
Seja ela saudade ou amor.
Seja d'aquém ou d'além mar.
Sempre existe uma dor e sempre haverá.

Registros.

Fomos em um grupo de seis pessoas para o show.
Fizemos fotos e check ins.
Bebemos.
Fizemos fotos.
A banda de abertura tocou.
Fizemos fotos esperando a chegada dele.
Ele chegou.
Todos tiraram o celular do bolso.
Durante uma hora e meia filmaram o artista.
No afã de guardar memórias do show não fizeram mais do que registros de vídeo.
Viram cada segundo do show pela tela do celular.
E jogaram mais um milhão de bites na nuvem de vídeo de péssima qualidade.

Contatos imediatos. (Parte I)

Puta que pariu... onde é que eu to?!
O olhar deu direto em uma luz de necrotério pendurada no teto acima da barriga dele.
Tentou mexer a cabeça para poder olhar melhor onde estava. Não podia, a cabeça parecia estar presa por correias na testa e no queixo.
Numa fração de segundos os capilares do corpo identificaram amarras nos braços, nas pernas e na cintura também.
Para seu maior desespero também não pode deixar de notar que estava completamente nu.
Sem ter como se mexer debateu-se sobre a maca.
Balançou para todos os lados.
O olhar fixo na luz tentou vagar para outros lugares do teto.
Começou a ver pontinhos estranhos que iam e vinham. Sabia muito bem o que era aquilo, uma consequência da luz mistura a falta de oxigenação no cérebro.
- Leia a mensagem.
- Oi? Quem é que ta falando?
O silêncio foi sua única resposta, mas não estava louco, sabia que alguém tinha falado com ele.
Meio sem querer começou a notar que o pontinhos pareciam formar uma frase. Demorou uns cinco minutos até que e…

A senha.

Esses dias me perguntaram como eu conseguia viver sem a sensação de mais "primeiras vezes", tiveram muitas respostas filosóficas e tals, mas a vida se encarrega de nos dar respostas, e as vezes das formas mas frívolas possíveis.
Aquela angústia da espera sem saber se vai ou não vai, aquela acelerada no ritmo do coração... Alguém aí já esteve com a senha 22 e não sentiu isso quando a funcionária da repartição pública chamou a 21? A vida nos surpreende todos os dias. Emociona-nos com pequenos regalos cotidianos.
Basta abrir os poros.

A melancolia da saudade que talvez virá.

Beijaram-se. Foi confuso como todo primeiro beijo. Foi terno e intenso ao mesmo tempo, como se fosse o último.
E era. Sabia que nunca mais poderia acontecer. Tinha dentro de si a certeza de que era feliz, mas ao mesmo tempo que aquela felicidade era momentânea. Precisava ser.Pegou-se num misto de felicidade e melancolia.
Segurou ela bem firme junto ao peito. Apertou-a num abraço tão forte que conseguia sentir o coração batendo rápido do outro lado. O nariz ficava exatamente alguns centímetros acima daquele cabelo liso. Sentiu-lhe o cheiro com intensidade. Tentou suga-la para dentro de si. Era impossível. Despediram-se com a sensação de satisfação... Mas ele não conseguia deixar de pensar que daqui a pouco não passaria de uma lembrança. A distância os levaria para lugares completamente diferentes. Seriam corpos e almas em rotas opostas.Sorriu um sorriso sem graça ao pensar que talvez daqui há dez anos ela lembre dele na volta do trabalho e dê um pequeno suspiro de saudades. Quem sabe.…