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Mostrando postagens de Janeiro, 2017

O galope.

Sabia mais do que ninguém que a vida é feita de escolhas. As decisões cotidianas lhe ensinaram a ser bastante assertivo. Precisava responder de forma rápida aos momentos que mal chegavam e já se iam. Aprendeu com a velha avó: - meu filho, a vida tem momentos que são como cavalos selados passando a galope, ou você monta, ou você cai; e a oportunidade nunca mais volta.
Já pagou a propina para o guarda. Já colou na prova da escola. Já apanhou o dinheiro no chão. Já desceu pela porta de trás quando o ônibus quebrou...
Mas ficou calado na frente dela. E hoje são amigos. 

O rei sobre a montanha.

Conseguia ver todo o vale a sua frente.
Chegara até lá.
O trono bem no alto da montanha lhe permitia ver o que nunca antes outro alguém vira.
Não importava a direção, podia ver a tudo e a todos.
Nada estava entre ele e o que seu olhar podia alcançar.
Mas não havia mais nada para ver.
Em sua ânsia de chegar até o topo da montanha ele cortou, matou, assassinou, roubou.
Estava no topo do mundo.
Sentado em seu trono de sujeiras.
Era um rei.
E seu reino era um mar de cinzas.
Coroara-se como o primeiro de seu nome.
E o último de seu povo.

Ernestinho

Dezembro de 1991, enquanto as televisões transmitiam aqueles brancos gordos nas portas do Kremlin anunciando o fim da União Soviética e a vizinhança era tomada pelo cheiro de álcool, Denys Ernesto Dzagoev arrumava as suas malas. Enfim ia realizar um sonho de infância e conhecer a África.
Ao longo dos anos sessenta, quando nasceu, vários países africanos experimentavam uma luta pela independência frente as potências coloniais europeias que ainda tentavam resistir ao avanço da democracia internacional. Sua mãe, camarada do politiburo de Leningrado contava todos os dias antes de dormir a história do incrível médico argentino que abandonara todas as riquezas para lutar pela justiça e paz mundial chamado Ernesto Che Guevara, inclusive, em homenagem ao guerreiro argentino, havia ganhado seu nome do meio.
Durante anos Denys alimentou o sonho de ir as terras por onde Guevara lutou para poder conhecer aqueles campos sempre verdes e pessoas de pele negra que sua mãe sempre falava.
Foram os seis…

A metamorfose análoga imanente.

A roda gigante da vida dele já entrava em curva decrescente.
O peso das experiências se acumulava como sacos de arroz nas costas de carreteiro.
Já viajara meio mundo.
Conheceu um milhar de pessoas.
Ouviu e falou em várias línguas.

Mas no final das contas percebia que era o mesmo menino.
Continuava querendo ser como aquele personagem do filme que tinha acabado de ver.
Aprendeu bastante, mas acima de tudo, continuou.

Até parou pra pensar se no final das contas Hegel, Platão e essa turma toda tinha razão com suas noções de imanência...
Por baixo de toda a camada de palavras bonitas e rebuscadas todos acabavam gostando daquilo que sempre gostaram, votando nas pessoas que sempre votariam e amando como se não aprendessem nada com cada surra que a vida lhes dá.

No final das contas, parece que estamos aprendendo e nos transformando, mas na cabeça dele, parece que cada transformação na verdade só o tem levado a ser aquilo que ele sempre foi.

A metamorfose de Raul nunca o fez um Roberto Carlos.

Atlas

Os anos foram se acumulando lentamente em cima dos ombros dele.
A cada nova translação completa, uma nova pedra para carregar.
Seus movimentos a cada dia mais lentos, mas também cada vez mais preciosos.
Parecia não querer mais ser o cachorro atrás do carro e sim o jacaré com a boca aberta.
Não sabia ao certo se o problema era estar mais velho, mais cansado, mais ocupado, mais impaciente,...
De todas as questões só tinha uma constatação, ficara mais calado.
O silêncio que tanto incomodava na juventude agora parecia um movimento natural.
Não sabia o porquê, só sabia que era.