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Mostrando postagens de Fevereiro, 2016

Os abençoados.

O ano era 2030, já se passavam quatorze anos desde que os casos apareceram.
No primeiro ano, as crianças até nasciam, mas os poucos que sobreviviam tinham que lidar com as sequelas, o governo, para variar preferiu soluções simplórias. Ao invés de atacar o problema, inicialmente liberou o aborto das crianças deformadas. No ano seguinte, com a vitória do candidato de ultra direita, a interrupção da gravidez tornou-se obrigatória, o governo não poderia mais arcar com os custos do tratamento, seguindo o princípio do estado mínimo, o estado interveio de forma máxima na vida (e morte) das pessoas.

Os dois anos que se seguiram foram piores. Os casos se alastram em escala quase que total no continente. As contas começaram a não fechar mais. A Europa envelhecida viu ai uma oportunidade.
Os portugueses criaram um sistema de transatlanticidade cidadã, homens e mulheres em idade adulta e fértil que quisessem ter filhos poderiam imigrar para o país, contudo, deveriam pagar pelos dois anos de asilo…

Lar

O escarlate das veias capilares saltava do espelho em meio ao brilho das gotas de água que jogara no rosto. Não sabe como começou, não tem nem mesmo lembrança de antes de ser assim. Sentia o peito acelerar, os olhos marejavam, e corria para o banheiro, o mais próximo que tivesse. Jogava água sobre o rosto e ficava fitando aquela coisa frágil do outro lado. Em uma experiência esquizofrênica tinha pena de si e ao mesmo tempo sentia a dor que o levava aquele mesmo ritual. Há alguns anos isso não acontecia. Desde que saiu da casa daquelas pessoas e entrou no seu próprio lar. Mas voltou a acontecer. Agora não sabia mais onde estava. Sempre repetia como um grande mantra: "Lar é onde posso ser fraco. Lar é o lugar onde posso sofrer."   De repente percebeu que não tinha mais um lar. O espelho voltava a ser o seu refúgio.  O cheiro de desinfetante, sua colônia.