Lar

O escarlate das veias capilares saltava do espelho em meio ao brilho das gotas de água que jogara no rosto.
Não sabe como começou, não tem nem mesmo lembrança de antes de ser assim. Sentia o peito acelerar, os olhos marejavam, e corria para o banheiro, o mais próximo que tivesse. Jogava água sobre o rosto e ficava fitando aquela coisa frágil do outro lado. Em uma experiência esquizofrênica tinha pena de si e ao mesmo tempo sentia a dor que o levava aquele mesmo ritual.
Há alguns anos isso não acontecia. Desde que saiu da casa daquelas pessoas e entrou no seu próprio lar. Mas voltou a acontecer.
Agora não sabia mais onde estava.
Sempre repetia como um grande mantra: "Lar é onde posso ser fraco. Lar é o lugar onde posso sofrer."  
De repente percebeu que não tinha mais um lar.
O espelho voltava a ser o seu refúgio. 
O cheiro de desinfetante, sua colônia.
 
 

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