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Mostrando postagens de Março, 2016

O juiz

Cerimonialmente adentrou.
A presença encheu o espaço.
O misto de garbo e empáfia acompanhados do cheiros inebriante de alfazema e talco.
- Todos de pé. A sessão está aberta.
O olhar vago deu lugar ao mais pétreo de todos.
Mastigando o próprio queixo deixou suas duas mãos pousarem sobre a mesa.
Solenemente proferiu:
- A esbornia contudo.
Arrancando a toga saiu em uma velocidade formulaumneana.
Tem mais o que fazer do que julgar a vida alheia.

Eternos?

Só essa semana era o décimo quarto caso de suicídio na área de Menelau.
Pela décima quarta vez não havia carta de despedida.
Não se sabia ao certo o motivo da atitude.
O sistema médico era bom.
Nunca viveu-se tanto.
As crianças mal conseguiam acreditar quando a professora falava na escola que há menos de setenta anos as pessoas no país tinham a expectativa média de vida de 70 anos.
Hoje, espera-se pelo menos dez anos a mais que o dobro disso.
Vencemos a barreira do primeiro século.
Alguns cientistas apontam para a possibilidade de termos ainda nessa década os primeiros casos de pessoas com mais de oito quartis de vida.
Contudo, nunca as pessoas mataram-se tanto.
Temos tempo para tudo.
Controlamos muito bem a natalidade.
Mas ainda não sabemos ao certo as causas da mortalidade.
Não as causas das doenças, essas conhecemos bem, e controlamos a grande maioria delas.
Não a causa da violência urbana, conseguimos medidas bastante positivas nessa área.
Nunca estudamos tanto.
Nunca viajamos tan…

Clichê (s)

A alma combinava perfeitamente com o corpo cansado.
Sentia a ponta dos dedos frias como se tivesse acabado de pegar em cubos de gelo.
Teve meio milionésimo de segundo de satisfação ao arrumar coragem (nos dois sentidos do termo) para levantar-se da cadeira do computador onde estava sentado desde que chegou ao trabalho pela manhã cedo, e fugiu para casa faltando sete minutos para as cinco horas.
Era uma rebeldia tosca, mas era alguma.
De dentro do carro vivia um clichê.
As mãos guiavam o volante do carro pela pista de alta velocidade enquanto os olhos perdidos em um vazio distante vislumbrava apenas os vultos dos carros adiante de si. A mente absorta parecia hipnotizada pela trilha de fundo com as guitarras arrastadas e a voz melodiosa de Caetano que pregava que o lugar mais frio do Rio era o seu quarto... Que fosse, mas por essas bandas, sabia muito bem onde parecia ter se concentrado todo o frio e letargia do Nordeste.
Em um soluço de vontade virou a direita onde sempre seguia reto.

A cova aberta

A reforma seguia a passos lentos.
A merda da conjuntura econômica e política desafia a paciência e o bolso de qualquer um. Falou Carlos Mandreozzi para o casal de amigos banqueiros que concordavam com um movimento calanguesco de cabeça enquanto tragavam o vinho trivento malbec.
A noite regada a safras não tão velhas quanto exigia o paladar dos consumidores deixou uma dor de cabeça leve na cabeça de Carlos que nem viu a hora em que Regina chegou em casa. Quando levantou, o som das marteladas constantes e repetitivas parecia um mantra monocórdio que lhe estourava os tímpanos.
Depois do desjejum foi passear na praia e só voltou lá pro fim da tarde.
Os trabalhadores de braços cruzados tomavam um cafezinho...
Ousadia maldita de gente que não entende seu lugar.
Chamando-o em um canto afastado, Pádua fedendo a suor e cimento sussurrou:
- Seu Carlos, tem o negócio de uns osso aí... é... com essas coisas eu não trabalho não.
- Pádua, eu tenho um deck pra construir, não quero saber de conversa …

Diversão

O celular teimoso vibrava de modo insistente.
Não havia nada mais odiável do que receber ligação no meio da escrita de uma frase no what's up.
Era um diabo de uma vibração direta que destruía qualquer concentração e raciocínio.
Ainda mais aquela barulheira toda dentro do quarto logo a frente.
Olhou para cima.
Sentado na poltrona rasgada para aproveitar o pouco de sol que entrava pelas tábuas que fechavam a janela lateral, tentou deixar o ódio escorrer. Quase com se fosse um óleo bem amargo que tinha dificuldade em descer goela abaixo.
Não deu muito certo.
Coçou a perna, depois o suvaco e por fim fungou. Tinha pegue esse cacoete em algum lugar. Nas três primeiras semanas tentou livrar-se dele. Agora... que se foda, já havia virado um ritual.
A porra da mancha de infiltração no teto estava aumentando.
Tentou concentrar-se de novo no celular. A merda do jogo não terminava de carregar as atualizações. E bem quando a porcaria pulou do 99% para alguma tela que desconhecia o maldito núme…