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Mostrando postagens de 2017

Umbigo.

Joana é judia, tem 75 anos e nunca entrou num campo de concentração.
Mário viveu a ditadura no Brasil, nunca foi torturado.
Danilo já está com 65 anos e acha que as reformas são necessárias.
Camila passou dos noventa anos e nunca viu um milagre...

João Sei lá qual.

Não era alguém.
Não tinha o cabelo mais bonito.
Não sabia mais que os outros.
Não recebia aplausos pela eloquência e muito menos olhares de cobiça para o que possuía.
Não tinha muitos bens nem muitas contas.
Vivia o melhor que podia sem que isso lhe prendesse.

Era mais um João, da família dos ninguém.
Era livre.
Era rei de si mesmo.

O tempo.

O tempo é relativo.
Isso não é uma máxima física, é uma constatação cotidiana.
Cada um de nós acaba em algum momento buscando formas de sobreviver ao tempo.
Mesmo sendo ele mais poderoso que qualquer um de nós.
Gastamos tempo pensando em formas de ganhar tempo.
E acabamos percebendo que é um esforço vão.
Nunca conseguimos, mesmo com toda tecnologia que temos, conter a força de um vulcão.
Ou até controlar a fúria dos furações.
Aprendemos a sobreviver.
Aprendemos a conviver com esse poder, nunca a controla-lo
Ora, o que dizer então do tempo, a mais poderosa das forças naturais, que dobra as montanhas e seca oceanos. Nós pensamos em horas, algumas grandes instituições pensam em séculos.
O tempo, não pensa, ele apenas é, foi e será. Não importa quem veio ou quem vira, ele permanece. Ora, o tempo pode até ser relativo, mas ao mesmo tempo, ele é eterno.

Ela entendeu tudo errado.

- Terminamos... Não tinha mais como não..
- Cara, não me espanta... mas por quê?
- Porque não dava... Chegou uma hora que queríamos coisas diferentes demais.
- Assim, o que ela veio conversar comigo foi que tava preocupada contigo, que achava que tu tava virando uma bomba relógio, que não se abria mais com ela...
- Pois então... Não da pra aguentar isso má.
- Mas depois daquela viagem que ela comprou pra vocês...
- Puta que pariu, nem me fale.
- Perainda, tu ta me dizendo que não gostou? Tu só falava sobre a porra da Tunísia e ela foi lá e comprou as passagens.
- Eu sei... cara, quer saber... tu não vai entender.
- Espera... tinha outra pessoa nera? Fala a verdade Otávio.
- Ter não tinha... Mas acabou tendo. A Flávia praticamente me empurrou.
- Como empurrou porra, a dona fazia tudo por ti, vivia falando de ti, estava super preocupada, fez de tudo que podia e não podia.
- Exato... Quando nós começamos eu disse para ela que eu queria alguém para amar.
- Oura porra... mas se não for is…

Tanto (a)mar.

Entre o fado e o samba há um atlântico.
Tanto por querer e tanto por existir.
Tanto a lamentar e tanta vida a se viver.
Mas no final, seja ao som das cuícas ou alaúdes, existe uma dor para cada um.
Seja ela saudade ou amor.
Seja d'aquém ou d'além mar.
Sempre existe uma dor e sempre haverá.

Registros.

Fomos em um grupo de seis pessoas para o show.
Fizemos fotos e check ins.
Bebemos.
Fizemos fotos.
A banda de abertura tocou.
Fizemos fotos esperando a chegada dele.
Ele chegou.
Todos tiraram o celular do bolso.
Durante uma hora e meia filmaram o artista.
No afã de guardar memórias do show não fizeram mais do que registros de vídeo.
Viram cada segundo do show pela tela do celular.
E jogaram mais um milhão de bites na nuvem de vídeo de péssima qualidade.

Contatos imediatos. (Parte I)

Puta que pariu... onde é que eu to?!
O olhar deu direto em uma luz de necrotério pendurada no teto acima da barriga dele.
Tentou mexer a cabeça para poder olhar melhor onde estava. Não podia, a cabeça parecia estar presa por correias na testa e no queixo.
Numa fração de segundos os capilares do corpo identificaram amarras nos braços, nas pernas e na cintura também.
Para seu maior desespero também não pode deixar de notar que estava completamente nu.
Sem ter como se mexer debateu-se sobre a maca.
Balançou para todos os lados.
O olhar fixo na luz tentou vagar para outros lugares do teto.
Começou a ver pontinhos estranhos que iam e vinham. Sabia muito bem o que era aquilo, uma consequência da luz mistura a falta de oxigenação no cérebro.
- Leia a mensagem.
- Oi? Quem é que ta falando?
O silêncio foi sua única resposta, mas não estava louco, sabia que alguém tinha falado com ele.
Meio sem querer começou a notar que o pontinhos pareciam formar uma frase. Demorou uns cinco minutos até que e…

A senha.

Esses dias me perguntaram como eu conseguia viver sem a sensação de mais "primeiras vezes", tiveram muitas respostas filosóficas e tals, mas a vida se encarrega de nos dar respostas, e as vezes das formas mas frívolas possíveis.
Aquela angústia da espera sem saber se vai ou não vai, aquela acelerada no ritmo do coração... Alguém aí já esteve com a senha 22 e não sentiu isso quando a funcionária da repartição pública chamou a 21? A vida nos surpreende todos os dias. Emociona-nos com pequenos regalos cotidianos.
Basta abrir os poros.

A melancolia da saudade que talvez virá.

Beijaram-se. Foi confuso como todo primeiro beijo. Foi terno e intenso ao mesmo tempo, como se fosse o último.
E era. Sabia que nunca mais poderia acontecer. Tinha dentro de si a certeza de que era feliz, mas ao mesmo tempo que aquela felicidade era momentânea. Precisava ser.Pegou-se num misto de felicidade e melancolia.
Segurou ela bem firme junto ao peito. Apertou-a num abraço tão forte que conseguia sentir o coração batendo rápido do outro lado. O nariz ficava exatamente alguns centímetros acima daquele cabelo liso. Sentiu-lhe o cheiro com intensidade. Tentou suga-la para dentro de si. Era impossível. Despediram-se com a sensação de satisfação... Mas ele não conseguia deixar de pensar que daqui a pouco não passaria de uma lembrança. A distância os levaria para lugares completamente diferentes. Seriam corpos e almas em rotas opostas.Sorriu um sorriso sem graça ao pensar que talvez daqui há dez anos ela lembre dele na volta do trabalho e dê um pequeno suspiro de saudades. Quem sabe.…

Utopias

Dizem que uma utopia é inalcançável.
Dizem que ela é como o horizonte que foge eternamente sem dando uma passo a cada passo que damos.
Mas...
E se alcançarmos alguma delas?
Os sábios iluministas pediam a liberdade de expressão.
Voltaire arrogava o direito de livre manifestação de pensamento...
Falavam em democracia da informação e da expressão.
Falavam em extinguir os controles e permitir que as pessoas falassem tudo o que pensam porque dai sairia o consenso.
Discursavam sobre criar formas de acesso a informação, encurtar as distancias...

O que acontece quando se alcança uma utopia?

Âncora.

A âncora desceu trabalhosamente cortando a água abaixo de si.
Parecia leve demais para aquele barco.
Passaram-se meses e as marés faziam-se sentir cada vez mais fracas.
O navio balançava cada vez menos.
Após alguns anos não duvidariam se os dissessem que estavam em terra firme tal era a solidez que sentia sob os pés.
A cada ano a âncora pesava mais.
A cada instante ficava mais difícil voltar ao alto-mar.

A ilha.

O som da voz de Nina Simone vinha lá de longe, de sei lá onde. Sem pedir licença entrou pelo seu ouvido e correu na velocidade do galope de Scadufax a plenos pulmões pelas planícies de Rohan, mal chegou atravessou todo o seu corpo e foi coçar-lhe o cérebro, foi despertar-lhe o coração.  Parecendo gás de refrigerante enchendo a boca e explodindo o mesmo sabor por todas as papilas ao mesmo tempo.  A música lhe invadiu. E numa sinapse que quase acompanhava a velocidade da luz percebeu: a rotina havia lhe consumido. Deixara que a corrente lhe levasse. Sempre que parava um pouco tentava ler ou ouvir sobre as notícias daqui e dali, de perto e de além.  Sem perceber tornou-se pragmático.  Seu rocha de salvação no meio da correnteza cotidiana era a música e tinha soltado os braços que durante tanto tempo a agarraram com firmeza.  Mas a voz forte, aveludada, impositiva e verdadeira de Nina mexeram consigo. Parece que uma ilha se levantava sob os pés e o erguia do meio da rotina.

Todo dia.

Todo dia era o mesmo ritual.
O despertador tocava as 4:48, impreterivelmente.
Ainda meio sonolento arrancava o celular da tomada.
Sem precisar olhar fazia o curto caminho até o banheiro.
Atualizava as conversas das redes sociais e algumas poucas notícias enquanto esperava o intestino funcionar.
Lá pelo quarto ou quinto grupo o som começava a vir da casa vizinha.
O cheiro de café atravessada a curta distância entre eles.
A maldita mulher conseguia irritar a qualquer um.
Não era nem cinco e meia da manhã e ela já estava com o rádio ligado.
Ouvia sempre aquele mesmo radialista com voz de quem engoliu ovo quente falando coisas melosas sobre amor intercalados por músicas bregas e uma outra notícia.
Quando ele corria para fora de casa já fazia questão de enfiar os fones nos ouvidos para tentar não perder o resto do sono e aproveitar a desculpa para não ter que falar com aquela mulher irritante.
Lá pras seis e meia, sete horas da noite quando chegava em casa corria pra debaixo da ducha e te…

Pão quente

- "Aziz Ashum."
Ia caminhando com o peito cheio de alívio.
O som da voz do senhor Mergan ficou preso na cabeça dele.
A lógica poderia até dizer que deveriam haver muitas vagas disponíveis.
Mas a mesma lógica também fazia lembrar que se muitos empregos ficaram ociosos por falta de seus antigos donos, muitas empresas também estavam fugindo do país.
Já faziam cinco anos desde que os primeiros levantes contra o governo começaram, e ainda estávamos lá... boa parte dos combatentes não eram mais os mesmos... Já os generais, os engravatados, esses dominavam acima de todos a arte de sobreviver, de enriquecer...
- "Aziz Ashum" falou o senhor Mergan.
Agora, depois de três meses procurando algum emprego e tendo que sustentar a família apenas por meio de pequenos bicos (as casas viviam quebradas, fosse pelos tiros ou pelo reflexo das bombas). A vida (na verdade a morte de tanta gente) o fez aprender o básico da carpintaria, sobre levantar um muro, rebocar uma parede, instalar u…

O galope.

Sabia mais do que ninguém que a vida é feita de escolhas. As decisões cotidianas lhe ensinaram a ser bastante assertivo. Precisava responder de forma rápida aos momentos que mal chegavam e já se iam. Aprendeu com a velha avó: - meu filho, a vida tem momentos que são como cavalos selados passando a galope, ou você monta, ou você cai; e a oportunidade nunca mais volta.
Já pagou a propina para o guarda. Já colou na prova da escola. Já apanhou o dinheiro no chão. Já desceu pela porta de trás quando o ônibus quebrou...
Mas ficou calado na frente dela. E hoje são amigos. 

O rei sobre a montanha.

Conseguia ver todo o vale a sua frente.
Chegara até lá.
O trono bem no alto da montanha lhe permitia ver o que nunca antes outro alguém vira.
Não importava a direção, podia ver a tudo e a todos.
Nada estava entre ele e o que seu olhar podia alcançar.
Mas não havia mais nada para ver.
Em sua ânsia de chegar até o topo da montanha ele cortou, matou, assassinou, roubou.
Estava no topo do mundo.
Sentado em seu trono de sujeiras.
Era um rei.
E seu reino era um mar de cinzas.
Coroara-se como o primeiro de seu nome.
E o último de seu povo.

Ernestinho

Dezembro de 1991, enquanto as televisões transmitiam aqueles brancos gordos nas portas do Kremlin anunciando o fim da União Soviética e a vizinhança era tomada pelo cheiro de álcool, Denys Ernesto Dzagoev arrumava as suas malas. Enfim ia realizar um sonho de infância e conhecer a África.
Ao longo dos anos sessenta, quando nasceu, vários países africanos experimentavam uma luta pela independência frente as potências coloniais europeias que ainda tentavam resistir ao avanço da democracia internacional. Sua mãe, camarada do politiburo de Leningrado contava todos os dias antes de dormir a história do incrível médico argentino que abandonara todas as riquezas para lutar pela justiça e paz mundial chamado Ernesto Che Guevara, inclusive, em homenagem ao guerreiro argentino, havia ganhado seu nome do meio.
Durante anos Denys alimentou o sonho de ir as terras por onde Guevara lutou para poder conhecer aqueles campos sempre verdes e pessoas de pele negra que sua mãe sempre falava.
Foram os seis…

A metamorfose análoga imanente.

A roda gigante da vida dele já entrava em curva decrescente.
O peso das experiências se acumulava como sacos de arroz nas costas de carreteiro.
Já viajara meio mundo.
Conheceu um milhar de pessoas.
Ouviu e falou em várias línguas.

Mas no final das contas percebia que era o mesmo menino.
Continuava querendo ser como aquele personagem do filme que tinha acabado de ver.
Aprendeu bastante, mas acima de tudo, continuou.

Até parou pra pensar se no final das contas Hegel, Platão e essa turma toda tinha razão com suas noções de imanência...
Por baixo de toda a camada de palavras bonitas e rebuscadas todos acabavam gostando daquilo que sempre gostaram, votando nas pessoas que sempre votariam e amando como se não aprendessem nada com cada surra que a vida lhes dá.

No final das contas, parece que estamos aprendendo e nos transformando, mas na cabeça dele, parece que cada transformação na verdade só o tem levado a ser aquilo que ele sempre foi.

A metamorfose de Raul nunca o fez um Roberto Carlos.

Atlas

Os anos foram se acumulando lentamente em cima dos ombros dele.
A cada nova translação completa, uma nova pedra para carregar.
Seus movimentos a cada dia mais lentos, mas também cada vez mais preciosos.
Parecia não querer mais ser o cachorro atrás do carro e sim o jacaré com a boca aberta.
Não sabia ao certo se o problema era estar mais velho, mais cansado, mais ocupado, mais impaciente,...
De todas as questões só tinha uma constatação, ficara mais calado.
O silêncio que tanto incomodava na juventude agora parecia um movimento natural.
Não sabia o porquê, só sabia que era.