A prisão dos outros e a procura da liberdade.

Os direitistas chamavam-me de comunista, esquerdopata, viado enrustido, doutrinador. Disseram que eu escolhi o lado do mal e não o da família, da moral e dos bons costumes.
Os de esquerda me disseram que eu deveria sentir vergonha por não ter tomado partido de forma mais enfática, por desviar a atenção diante da verdadeira causa revolucionária... Alienado, lumpemproletario, capacho do sistema, ...
A cada palavra que queria falar saia-me um silêncio. Disseram que era porque não tinha nada a dizer. Depois de tanto apanhar aprendi a guardar, a não falar, e fui-me enchendo de tantas palavras não ditas, e das sobras daquelas que eram mal ditas...
Estufado o peito, precisava aliviar a pressão. Aliviei-a pintando a parede atrás do meu corpo com sangue e viceras arrastadas pela bala que enfiei no coração.
Morto admirei-me por reencontrar tanta gente de quem eu sentia falta.
Busquei um abraço.
Mas antes que eu pudesse terminar de falar me disseram: como você pôde querer morrer quando a única coisa que queríamos era viver?

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"A beleza do morto"

A estabilidade fulgaz.

O rio.