Pão quente

- "Aziz Ashum."
Ia caminhando com o peito cheio de alívio.
O som da voz do senhor Mergan ficou preso na cabeça dele.
A lógica poderia até dizer que deveriam haver muitas vagas disponíveis.
Mas a mesma lógica também fazia lembrar que se muitos empregos ficaram ociosos por falta de seus antigos donos, muitas empresas também estavam fugindo do país.
Já faziam cinco anos desde que os primeiros levantes contra o governo começaram, e ainda estávamos lá... boa parte dos combatentes não eram mais os mesmos... Já os generais, os engravatados, esses dominavam acima de todos a arte de sobreviver, de enriquecer...
- "Aziz Ashum" falou o senhor Mergan.
Agora, depois de três meses procurando algum emprego e tendo que sustentar a família apenas por meio de pequenos bicos (as casas viviam quebradas, fosse pelos tiros ou pelo reflexo das bombas). A vida (na verdade a morte de tanta gente) o fez aprender o básico da carpintaria, sobre levantar um muro, rebocar uma parede, instalar um fogareiro,... Mas tinha saudade de fazer seus pães.
Ah, esse sempre foi o sonho de Aziz, ganhar a vida fazendo o melhor pão de Aleppo.
Não havia sentimento mais gratificante do que esse, acordar cedinho, esquentar os dedos pela manhã em um forno de lenha crepitando, o cheiro, os bons dias...
A vizinhança parecia até mais...
.
..
....
zzziiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
...
..
.
- Não me deixa pai, não me deixa.
.
..
- Pai, não me dei... 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"A beleza do morto"

A demasia do excesso.

Sabedoria canina