Os abençoados.

O ano era 2030, já se passavam quatorze anos desde que os casos apareceram.
No primeiro ano, as crianças até nasciam, mas os poucos que sobreviviam tinham que lidar com as sequelas, o governo, para variar preferiu soluções simplórias. Ao invés de atacar o problema, inicialmente liberou o aborto das crianças deformadas. No ano seguinte, com a vitória do candidato de ultra direita, a interrupção da gravidez tornou-se obrigatória, o governo não poderia mais arcar com os custos do tratamento, seguindo o princípio do estado mínimo, o estado interveio de forma máxima na vida (e morte) das pessoas.

Os dois anos que se seguiram foram piores. Os casos se alastram em escala quase que total no continente. As contas começaram a não fechar mais. A Europa envelhecida viu ai uma oportunidade.
Os portugueses criaram um sistema de transatlanticidade cidadã, homens e mulheres em idade adulta e fértil que quisessem ter filhos poderiam imigrar para o país, contudo, deveriam pagar pelos dois anos de asilo humanitário trabalhando gratuitamente por um expediente em instituições públicas todos os dias. Os asilados empobreciam. A forma como eram vistos deteriorava a cada dia. "São miseráveis... por isso sofrem."

Vendo o avanço da mão da obra e o equilíbrio nas contas previdenciárias, o partido socialista português exigiu que o direito de cidadania dos recém-nascidos não pudesse ser estendido para os pais, sendo assim, eles pagavam mas nunca iriam usufruir dos benefícios. Era até tolerável, contudo, com o tempo os vistos foram perdendo a validade, e sem a condição de cidadãos os pais deviam ir embora, os filhos, por sua vez, como cidadãos...

Não podendo ficar sozinhos em terras lusas as crianças foram encaminhadas para adoção por famílias nativas. Ora, foram muito bem acolhidos por casais idosos que recebiam as orientações para estimular as crianças a práticas que as levassem a ter gosto pelo trabalho braçal, todas as noites ouviam as pregações do Ministério dos Abençoados: - seja forte, seja grande, mostre o poder dos seus braços na construção de um mundo melhor. Escute com atenção seus orientadores, vocês não precisam pensar, nos pensamos por você. Você não precisa estudar, nos já temos todas as respostas. Vejo o quanto esse discurso de baixareis e burocratas pode fazer pelo mundo... Nada! Muito falam e pouco fazem! Construa um mundo novo com o suor do seu rosto! Não pense em si, não pense no seu melhor, pense na sobrevivência da raça, pense na espécie!

Todas as noites as vozes ensinavam aos "abençoados" que seu papel de trabalhadores braçais era o melhor caminho para a sobrevivência da espécie humana.

Bem, hoje chegamos a terceira etapa do programa. Os abençoados são enfim livres para copular mesmo com os cidadãos. Desde 2020 todos receberam a intervenção genética: são estéreis. Apenas o governo pode multiplicar os cidadãos ou os abençoados. Ao completarem 18 anos todos os homens e mulheres devem se apresentar ao serviço militar, os aptos são encaminhados para a seleção de multiplicadores da vida, tem amostras genéticas coletadas, classificadas em categorias de cidadãos de acordo com as aptidões cerebrais, desde os T (trabalhadores braçais, quase que 99% extraídos dos abençoados) aos C (seres nascidos para comandar), passando pelos I (inovadores) e os M (pessoas com a capacidade de desenvolver maior vigor físico e intelectual ao mesmo tempo, seriam os futuros procriadores e estariam dentro da alta hierarquia militar).

Assim caminha a humanidade, assim sobrevivemos. Quão abençoados nós somos.  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"A beleza do morto"

A demasia do excesso.

Sabedoria canina