O herói, ou o volta daqueles que nunca foram.

Era uma manhã de domingo como outra qualquer.

Remexia papéis e cadernos velhos, procurava por referências, apontamentos e até mesmo uma dose de inspiração para as aulas que viriam daqui a pouco.

Sempre vale a pena rever os papeis, sempre existem comentários esquecidos, anotações a serem repensadas e adaptadas para o presente.

Contudo, não procurando, encontrei-me.

Encontrei a mim mesmo de um modo que nunca fui mesmo tendo querido ser.

Vi os rabiscos de fim de caderno, naquela última e surrada folha que recebia todo o descarrego das aulas enfadonhas, das tristezas de brincadeiras sofridas e até mesmo de amores não correspondidos.

Vi-me toscamente rabiscado. Era um bombeiro de peito forte e cabeludo, tinha anos de corporação e voltara a cidade. Sim, voltara um herói. Ela reparava como tinha sido tola por ter-me deixado ir e voltava toda apaixonada e transformava o esnobado em carinho. Em outra era um diplomata, sonho antigo e ainda presente, noutro um astronauta, mais além, um aviador, e tantos outros. Vi vários futuros do pretérito, em todos eram um príncipe (mesmo que não tivesse saco pra essa história), tinha saído, ganhado o mundo e retornava, no melhor estereótipo do herói para os braços de alguém que nunca me quisera.

Nenhum desses sonhos se fez verdade, nunca fui um herói, muito menos um príncipe. Mas, sem precisar ter ido, nem mesmo ter sido (por tanto tempo como os desenhos faziam supor) rejeitado e abandonado, o desenho dela tornou-se real.

Ela está aqui do meu lado, e com ela, sinto-me um herói. Ainda fraco, franzino, não tão bem sucedido, mas feliz, por que entre todos os sonhos, o que tivemos juntos permanece a cada dia mais real.

Comentários

  1. Também não sou heroína, mas vou repetir o que sempre te digo quando saio: "Vou porque preciso. Volto porque te amo". E sinto no caminho muitas saudades.

    É real.

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  2. Ai, que lindo Dhenis!!! Não sei se era bem esse tipo de comentário que esperava. Na verdade, um autor pode esperar tudo dos seus leitores. Adorei porque, ao meu ver, o homem fala a partir de uma fantasia das mulheres. Ele se sabe como não-príncipe, mas a própria condição de não sê-lo é o que o torna delicado, leve, romântico, da forma como vislumbramos um príncipe, o ideal. O bombeiro de peito cabeludo, o diplomata, todos os estereótipos de "heróis" ficaram fracos, tão embaçados como num sonho, porque tudo não passa de um sonho, não é mesmo? Curti demais!!!

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  3. adorei! é isso mesmo Izadora! vc acompanhou perfeitamente a ideia!

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  4. É... perfeito. Minha nossa, é terrivelmente perfeito! A introdução suave, as pausas, e sobretudo, o ar de romantismo que usar "eu" no texto inteiro, descrevendo uma experiência própria do narrador, putz, isso deixa o texto tão intenso que é difícil não sorrir com o desfecho!

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