O riso dos "inocentes".

Pelo canto de olho percebia a movimentação ao seu redor. Era uma algazarra. Bolas de papel de um lado para o outro. Cadeiras sendo arrastadas. O ouvido, já treinado a reconhecer o menor ruído possível alcançava o som de alguns beijos por baixo da balburdia de risos e gritos. Estavam se divertindo. Não sabia se ficava feliz ou triste. Sua carteira estava exatamente no meio da sala. Tudo acontecia a seu redor, mas nada parecia lhe tocar. A cabeça, que sempre pendia teimosamente para baixo em uma constante manobra evasiva para evitar os olhares dos outros meninos e meninas da turma acabou fazendo com que percebesse uma moeda que vinha deslizando suavemente pelo chão de cimento batido da sala. Tomou coragem e apanhou-a.

Silêncio. Por um segundo o mundo esteve em paz. Por um segundo estava feliz pelo achado. A moeda grossa de cinquenta centavos que parecia vinda do outro lado do universo teve o poder de lhe dar a certeza de que alguém se importava com ele. Atreveu-se a sorrir.


Foi obrigado a engolir a felicidade em doses desesperadas de susto. Augusto, o maior de todos entre os colegas da turma puxou-o pela gola. Viu-se mais uma vez em pé. Mas os olhos arreganhados tiveram que lidar com algo que sempre sonhara evitar. Todos olhavam para ele, e o pior, todos os rostos sorriam. Aquele destoado jorro de gargalhada desafinadas oriundas de gargantas em transição.

Desesperado, sentiu quando a vergonha escorreu de forma quente pela calça até pingar no chão.

Desse dia em diante passara a ser visto por todos quando entrava e quando saia da sala.

Nunca dantes haviam se dado ao trabalho de recordar o seu nome. Hoje ele atende por três ou quatro. Não escolheu nenhum. Não gostava de nenhum. Mas não tinha poder para recusá-lo. Até tentou nas primeiras semanas. Sua raiva parecia ser o combustível ideal para as galhofas e piadas zombeteiras.

Por fim resignou-se.

Não podia vencer a manada.

Comentários

  1. Foda... Posso listar alguns bons nomes que já passaram por isso. A escola é uma das piores etapas da vida mesmo.

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