A lenda / A canção.


O olhar vagou, a pupila semi dilatada presa no meio do olho, mirando o horizonte fez com que mente vagasse para um local e um tempo bem distantes, quando tudo era conforto, paz e tranquilidade, onde seus grandes medos estavam nas histórias da velha empregada na beira do fogo enquanto preparava o almoço e nas portas dos sonhos enquanto embalava os irmãos para dar aos patrões alguns segundos de descanso.
Lembrou-se do cheiro que só a velha tinha. Um misto de sujeira com ternura que só os avôs conseguem ter.
Da cama baixa em que deitava conseguia ver os nós dos dedos da velha, cansados de anos de trabalho pesado, marcados pelas inúmeras vezes que esfregara panos grossos na lavanderia e as queimaduras provocadas pelas panelas quentes que carregavam o gostoso sabor daquilo que preparava. Mas também eram nós de sabedoria. A palma da mão, grossa de trabalho parecia refletir a voz da senhora que todas as noites lhes contava as histórias de sua infância, em meio a arranhões e pigarros, a voz fluía e narrava-lhe sobre tempos imemoriais e momentos já há muito passados e para a grande maioria esquecidos.
Olhando para o teto como sempre fazia, imersa em seu próprio mundo, a velha cantou.

“Em uma noite muito escura,
Sem estrelas e sem lua.

Na casa a família a comer,
Enchiam-se até não poder.

A mesa grande cheia de gente,
E uma senhora quase sem dente.

De sua mão a colher caiu.
Mas quase ninguém lhe viu.

Depois de todos irem deitar,
A criança veio chamar.

A velha não mais respondeu.
“Ai meu deus, a vovó morreu.”
No velório muita comilança,
Só queriam saber da herança.

Na meia noite tudo mudou,
A senhora se levantou.

Todos se puseram a correr,
Mas a criança ficou sem temer.

Do caixão se levantou.
E a criança ela matou.

Mordeu a cabeça e o pescoço,
Lambuzou-se roendo o osso.”

Lembrou-se de não ter conseguido dormir naquela noite. Mas passaram-se os dias, passaram-se as noites, a idade veio e com ela milhares de “É tudo mentira!”, “Isso é coisa de criança!”, “Você precisa crescer.” E ele cresceu, desacreditou. Nem no enterro da velha ele foi. Mas ela hoje se ergue na memoria, renasceu dentro de si, e ele enfim entendeu. A história virou lenda e a lenda foi esquecida. Com um solvanco despertou de sua distração, a história estava bantendo na porta.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"A beleza do morto"

A demasia do excesso.

Sabedoria canina