Éramos dois.

Éramos dois em frente ao mar.
Não estávamos sozinhos, havia outros casais se beijando, não importava, para mim, éramos dois e bastava.
Com o braço passado sobre o ombro dele fiquei no ângulo perfeito para olhar-lhe a barba, ralinha ainda, de quem tirou há um dia ou dois. Nunca entendo esse ritmo esquisito que os pelos masculinos têm. Mas enfim, era ele, e o sol. Um sol cansado dando adeus a mais um dia de trabalho para as pessoas dentro dos ônibus. Um sol excitante que lembrava que logo estaríamos os dois suados mesmo com o vento frio do ar condicionado.
Éramos dois, mesmo com a insistência do mar batendo aos nossos pés e querendo chamar minha atenção. Mal ele sabia que não podia mais me apaixonar, já havia entregado meu coração para ele, para meu barbudinho.
Ébria de paixão senti até um leve frio na barriga quando ele abriu a boca pra falar.
Admito que não consegui ouvir o que ele disse pela primeira vez, as ondas insistiam em me chamar, em gritar por atenção, até respingaram molhando minhas roupas.
Contudo, ouvi, ouvi o que ele tinha a me dizer, não queria mais nós dois, queria ser um e mais uma, e outra e outra...
Imediatamente percebi o quanto estava sendo tola. A camisa ainda molhada me mostrou o caminho certo, as gotas escorrendo pelo meu corpo mostravam quem verdadeiramente me queria, e agora nada mais podia ficar entre nós dois.
Sim, agora mais uma vez estava completa, ele me preencheu, podia sentir transbordar dentro de mim.
Éramos dois, eu e o mar.




pensei nesse texto após ler essa notícia:  http://www.cnews.com.br/cnews/noticias/21588/jovem_pula_de_espigao_na_praia_de_iracema_e_some#.UDaJb6B26YA

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