A bexiga Cedilha.



Parecia uma cedilha. Caminhava pela rua com os olhos fixos no chão.
Ao mesmo tempo percorria caminhos distantes.
Os olhos perdidos não viram a pedra diante dos pés.
A topada quebrara-lhe a magia.
Há pouco corria em terras distantes enfrentando monstros e vencendo bruxos, cavaleiros sem honra, beijando donzelas e fazendo com que o mundo inteiro visse o quanto era bom.
Mas a pedra lhe trouxera de volta a vida.

Bianca enxergou nele algo que nem ele conseguia ver.
Já sofrera várias vezes por amor.
Sonhara, divagara, vivera em mundos além e ainda um pouco mais distante.
Transformara todas as suas fantasias em uma realidade tão bem sonhada que parecia que tinha sido, sem que nunca fossem. Foram tantas e tão belas, tão suaves e carinhosas. Sim, e lhe amaram, sem que ele gaguejasse nas palavras ou tropeçasse no medo eterno que sentia, mesmo depois de treinar horas e horas na frente do espelho. Às vezes tendo tanta vergonha de si próprio, ensaiava em silêncio, apenas olhando para seu próprio rosto refletido no espelho do banheiro e vendo a realidade imaginada turva, assim como um reflexo em espelho d'água.
Mas ela viu que ele tinha alguma coisa, sem que ele nem ao menos tivesse lhe falado.
E junto dela ele criou coragem.
Junto dela ele cresceu.
Junto dela ela enfrentou boas barras.
Apareceram umas e outras, ele bem que as queria, mas nunca teve coragem, nunca ousou dar aquele passo a mais.
Dizia que era por que era forte, que o que sentia era verdadeiro e bom.
E era, de verdade.
Mas havia, lá no fundo, bem no fundo, num lugar que ele tentava esconder até de si próprio uma pitada de medo.
Medo de perder a única que o entendeu como ele realmente era e que lhe impulsionou a ir além daquilo que todos esperavam dele.

Eram quatro e vinte da madrugada quando sentiu a primeira pontada.
Às seis e meia da manhã, horário em que sempre levantava, foi encontrado na cama.
Os pais não falaram nada, não estavam acostumados a interpelar-lhe por nada, mesmo que achassem estranho  fato de ele não ter se levantado para ir ao trabalho como costuma fazer todos os dias.
Os primos que frequentavam a casa entraram no quarto, tomaram de posse do computador e da televisão, jogaram, brincaram e se foram. Sem nem ao menos dar fé do velho cedilha na cama.
Apenas Bia lhe viu, quando depois de um dia inteiro de ligações apareceu para tentar descobrir onde aquele "filho da mãe" estava que nem pra atender aquela merda de celular.
 Já estava roxo. Nem um filete de ar saia-lhe pelas narinas.

Demorou mais um bom bocado até que em meio a lágrimas salgadas e catarro escarrado a jovem recebesse a notícia.
O médico legista com bigodes acinzentados entrou no quarto em meio a um ritual que mais parecia de seriado americano.
Ligou luzes, vasculhou manchas e não achou nada.
A única coisa estranha naquele quarto era aquela massa morta em cima da cama com uma garganta inchada que parecia mais um sapo rei no meio da floresta em época de acasalamento.
Sem ter mais o que fazer o bigodão encostou o bisturi na garganta de cedilha. Foi como colocar agulha quente em balão de festa!
Um ar podre de coisa acumulada começou a sair de dentro dele.
E no meio de tantas coisas atropeladas conseguiram ouvir a voz dele, em um tom, em um fluidez, com uma coragem que nunca ouviram antes. Falou por mais de duas horas seguidas sobre time de futebol, textos acadêmicos, livros, pornografia, a morte dos bebês focas por noruegueses malvados e por fim falou de amor, dos seus medos, de seus sonhos e de suas frustrações.

No fim de tudo, fez-se silêncio.
Por quase assombrosos trinta segundos ninguém teve coragem de interromper, até que o velho bigode cinza se mexeu e baixinho, do meio dos fios, falou:
 - É, esse aí morreu, e morreu de Eutrofização! Engoliu tanto de si próprio que engasgou.

Enterraram um pedaço seco de gente, mas, por mais que o maquiador da funerária tentasse, não conseguiram tirar dele aquele sorriso de alivio. Enfim falara.

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