O ritual

Atras da nuvem preta o primeiro fiapo e sol se fez ver, clareando o mundo e anunciando que a hora chegara.
Ele, insone assistiuu a todo o processo em que o sol, sem meias palavras rasgou o tempo, apossando-se da Terra e se impondo como senhor.
Suspirou fundo, a cabeça pesada de lembranças, de vozes, de pessoas, de medos.
Chegara o dia de seu ritual.
Todos passavam por ele.
Todos diziam saber que ele tambem passaria.
Como ele queria partilhar dessa certeza.
Até se sentia pronto, sentia-se conscio de como deveria agir.
Mas agiria?

 - Merda!

A pouca comida que conseguira ingerir quase voltara. Sabia que precisaria estar forte para o dia de hoje, sabia que seria preciso de todo alimento e de toda coragem para cumprir sua tarefa.
Simples tarefa. Que por ser tão simples lhe dava tanto medo de não conseguir completa-la.
Os mais velhos sempre a abordavam com o desdém habitual de quem já não liga mais, talvez até por que nem lembre.
Os mais jovens que como ele ainda iam fazer o maldito teste falavam historias que ele sabia serem fantasiosas, mas, e se não fossem? Se realmente só conseguisse ser aprovado se burlasse o ritual?

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!

Seu peito pipocando como tarol em estadio de futebol na hora do gol começava a incomodar.
As batidas rápidas jorravam tanto sangue para a cabeça preocupada que ela parecia cinco vezes maior e mais pesada do que realmente era.

Sabia que precisava ir, mas pensou... e se ficasse mais um pouco enrolado nos cobertores? Talvez conseguisse convencer a todos que estava doente e que não pudera ir, assim teria mais tempo para juntar forças e coragem para enfrentar o ritual.

- Não.

De um salto levantou-se. Sentiu a pedra fria sobre os pés. Sentiu o vento gelado de fim de madrugada beijar-lhe a pele como um sinal da natureza de que seria preciso ser firme para sobreviver.
Do alto da caverna olhou para a floresta que lhe esperava, ainda era escura e selvagem, ao fundo, o céu cinza ia dando lugar a luz morna do amanhecer.

Era hora de lutar.

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