O próximo passo

Ouvia os prantos...
Estava acordado, não era ele naquele caixão, tinha certeza.

Olhava com seus olhos, mas não via mais como costumava ver.
Algo havia mudado...
Mas como? Ele era o mesmo, todos ao seu redor podiam atestar isso, pois vinham a todo instante lhe cumprimentar.

Meus pêsames Ricardo... ô seu Ricardo, Deus lhe de consolo.... Tenha fé Ricardim, tenha fé....

Oras... todos viam, ele era ele, mas porque não se sentia o mesmo...

A última colher cheia de cimento fechou o buraco mais lhe abriu os olhos...
Ele também morria. Não era tão inatingível como tentava se supor. Antônio morrerá, mas com ele levava um pedaço de Ricardo também.

Nesse dia, e só nesse dia, Ricardo entendeu que a morte do outro é um prenuncio de que a nossa vez um dia vai chegar. Não era imortal e mesmo que repetissem para ele todos os dias que a morte é a mais certa de todas as certezas, vivia seus os dias como se ela nunca fosse chegar. A morte é sempre um problema do outro... mas quando esse outro é parte daquilo que nós somos, um pedaço de nós se esvai também e a falta que se gera nos mostra o quanto somos frágeis...

Pode ser que um dia, não muito distante, as distrações preencham esse buraco de medo, afinal assim como Ricardo ninguém consegue passar tanto tempo olhando para o precipício do alto de uma montanha sem nada para se segurar... E quando a cabeça recua acredita-se estar seguro, mas a ponta do precipício está há um passo... e ele sempre pode ser o próximo.

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