O sacrário - parte I

Arrumava o cabelo. Descansara cinco minutinhos dentro do carro com o ar condicionado ligado a fim de minimizar as consequências de um dia inteiro, dois turnos com alunos mimados da Escola Elite. Após uma rápida checada no espelho, a professora desceu do carro, e, após a autorização do inter-fone entrou na casa de jardim grande e fonte de madeira emanando vida e calma. Sempre sonhou com um jardim daqueles, mas com o salário de professora que ganhava, a muito já se conformou com a piazinha de água benta feita de biscuit que tinha na porta de casa.

Dentro da luxuosa residência sentou-se em um sofá de uma maciez tão inesperada a e assustadora que chegou a dar um rápido pulinho por causa do susto. Incomodava-lhe apenas aquele cheiro meio desagradável que vinha do interior da mansão.
Após alguns minutos a dona da casa chegara: linda e jovem, dentro dum moleton cinza, largo e despojadamente caindo pelo ombro direito. Formalidades pra lá, formalidades pra cá. Um pouco de vinha e voilá: - Como você bem sabe, eu sou a professora do Matheus e tenho sentido a falta dele, a pelo menos três semanas não temos notícias dele na escola. A direção já ligou e sempre respondem que é por que ele está viajando, mas me lembro que ele estava bem doentinho quando deixou de ir para as aulas, então pensei em passar por aqui e ver se ele está bem.
- Ah, muito obrigado por ter se preocupado, mas ele está no melhor lugar possível para ele. O rosto impassível da mulher pareceu dar um segundo de contração, demonstrando desconforto, mas de pronto a imagem de mármore voltara-lhe as faces.
- Tudo bem então - retrucou a professora, um pouco incomodada com o cheiro de fezes que parecera aumentar um pouco, mas o vinho logo lhe fizera esquecer dele - Espero vê-lo logo de volta as aulas, se não, temo que ele acabe perdendo o ano letivo.
- Ele não vai voltar. Vocês não vão tomá-lo de mim. ele é meu! Eu sei o que é melhor para ele!
Assustada a professora retruca: - Calma minha senhora, tudo bem, eu só queria o bem do seu filho.
- Saia da minha casa! Vocês acham que eu não sei como cuidar do MEU filho! Saia imediatamente.

Esbaforida, entre uma passada e outra a professora trêmula entrou no carro e em pouco tempo estava em casa.
O apartamento velho, com apenas um dos três elevadores funcionando fez com que ela subisse para o terceiro andar junto a um vazo de planta fedendo a adubo. O cheiro a incomodara, mas mais que isso, a fizera lembrar da mulher, ela também parecia carregar o mesmo odor, só que um pouco mais acre.
Sétimo andar, era ali que descia. Passou por um pequeno corredor. Persignou-se com a água de seu vazinho de biscuit, e enquanto despia-se via seu corpo estragado pela falta de tempo para cuidar de sí própria. Por um segundo sentira inveja daquela maluca...

A reação da mãe de Matheus a atormentava. Já passavam das duas da madrugada e ainda não conseguira dormir, tomara um calmante, sempre haverá um em uma casa de professor com mais de 10 anos de experiência - lhe dissera uma vez Tomaz, um velho português que há cinquenta anos morava no Brasil e era coordenador pedagógico da escola. Para ela, ele nunca acrescentara nada na vida do colégio, era mais um bibelô para a direção exibir aos pais nas reuniões de assinatura de boletins.
O remédio a fizera dormir mas a inquietação lhe acompanhou durante o sono. Alguma coisa muito estranha estava acontecendo, ela tinha que descobrir.
Algo ali fedia.

Comentários

  1. Bom, desde o segundo parágrafo já saquei o final. quero só ver como você vai descreve-lo.... vou esperar

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  2. Hummmmm suspense... curiosa com o final...

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  3. Também já saquei algo...mas me intriga esse título.

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  4. faltou alguém comentar em julho. Mas eu também imagino o final.

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