O santeiro

A sala era alva, coberta de branco das paredes até o teto. Grossa pelo gesso que se impunha em camadas que de tão espessa vez por outra despencavam sobre o chão. Uma profusão de cores misturadas no chão faziam daquele espaço um arco-íris sobre o qual os poucos que lá entravam podiam caminhar.
Em meio ao calor ardente advindo de uma fornalha no final da sala trabalhava o homem, em meio a madeiras, facas, serrotes, formas e pincéis.
O dedo todo marcado pelo talho que retirava pedaços grandes e que fazia curvas suaves, que vez por outra banhava a peça com seu próprio sangue.
A sala sem ventilação fazia-o suar e nesse suor derramava-se por inteiro sobre as peças transpirando inspiração, sentindo as dores do parto terminava mais um santo.
Saído da madeira, coberto de tinta e entranhado do santeiro, lá se via mais um estava pronto.

Este santo seria seu milagre, fruto de suas próprias mãos, traria o sustento para a casa, colocaria o pão na mesa.

Por hoje bastava. Por hoje.

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