Cassandra

A luz amarelada entrava turva pela vidraça empoeirada do terceiro andar.
Se alguma viva alma transitasse por aquela rua esquisitíssima naquele momento poderia ver o corpo do homem completamente nu encostado na janela e com os olhos perdidos.

O vento frio passava pela fresta da janela e batia contra a pele de Heitor pregando no corpo o suor do gozo de a poucos minutos. O cabelo crespo, suado, caía-lhe sobre os ombros recobertos de pelos e músculos firmes, fruto do trabalho constante.
Olhava para o fim dos tempos e mais além. Via o passado, relembrava as rizadas, repassava cada uma das conversas, o pulso acelerava mais uma vez... Sentia o frio na barriga, filha do medo, da tensão de ser inadequado, de não dar certo.
Sentia-lhe novamente o cheiro do cabelo castanho liso, removia-lhe mais uma vez a timidez com aquelas piadas sem graça, mas que como a água iam levando fragmento por fragmento o muro da sisudez própria de Cassandra.

O rangido da cama o despertou para a presença dela.
De soslaio via os seios a coxa que teimavam em escapar ao lençol surrado. Ainda dava pra ver as marcas vermelhas de suas mãos e boca salpicados por todo o corpo alvo da mulher. Caso alguém conseguisse não se perder naqueles contornos seria possível decifrar cada segundo dos tórridos momentos vividos a pouco. Uma história narrada por chupões e apalpadelas.

Ao longe escutou o som de um alarme...
Algumas vozes, correria, não podia ser a mais do que cinco ou seus quadras dali. Sua audição era sua maior benção... pensava que depois dessa noite seria amaldiçoado pelos deuses e a perderia.
Mais um pouco e o estampido inegável e sempre reconhecível de um tiro silenciara a todos...

Perdera seu paraíso... A vida voltava a correr lá embaixo, os segundos de prazer olímpico eram mais uma vez furtados pela crueldade e crueza da vida real...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"A beleza do morto"

A demasia do excesso.

Sabedoria canina