Aquele que um dia quase foi mas nunca chegou a ser e acabou se tornando aquilo lá.

O som alto dos carro de propaganda das lojas vizinhas a rodoviária tocou a insanidade ébria e sonolenta dele fazendo-o despertar.
Com a parte de trás da mão limpou a baba misturada com vômito que se colavam nos parcos pelos que tinha ao redor da boca.O jornal velho abaixo de si gemeu como que para lembrá-lo de uma vida inteira, de um mundo inteiro que estava la fora, gritando pela sua volta.
Mas não podia, não tinha coragem.
Havia jogado tudo fora exatamente por isso... não tivera a coragem certa, para fazer a coisa certa, na hora certa...

O gole quente da cachaça desceu queimando a garganta ressecada.
O primeiro era sempre assim. 
Toda manhã era sempre assim...
Era aquilo que fizera de si próprio.
Quando teve a oportunidade de ir, não foi.
Quando teve a oportunidade de ser, não conseguiu.
Quando teve a oportunidade de permanecer, arriscou...

Com os braços retesados olhou para si próprio no espelho marcado, quebrado e pequeno dentro daquela moldura laranja de alguns poucos trocados... Não serviria para trocar nem mesmo por mais uma única dose.
A pia de plástico barato rangeu sobre o peso dele... não que fosse pesado, mas sim porque era de mais péssima qualidade. 
Viu a si próprio e sentiu saudades daquele homem seguro, forte e poderoso, mas que no auge do seu poder preferia auxiliar aos outros,  era um diplomata de guerra, um funcionário das Nações Unidas que tentava minimizar a situação periclitante das vitimas da eterna guerra entre judeus e palestinos...
Sentiu saudades de quem nunca fora...

O barulho do rato correndo pelo chão recheado de poeira e de alguns poucos restos de comida que nem mesmo ele tinha mais coragem de pegar do piso o acordou do pesadelo. Nunca fora o que sonhara...
Não era mais nem mesmo a sombra daquele moleque charmoso, com creme no cabelo e um jeito meio despojado que mesmo sem muito esforço conseguia ser tão querido por aquelas mulheres do final da rua da praça da estação... Seus anos de Alejandro Proxeneta se foram, agora era um esboço mal acabado. Um pedaço de "se"s recheado com uma grande porção de nunca será e regado a doses fartas de medo e arrependimento.

Tomou outro gole... pensava demais... sonhava demais... lembrava demais... 
Precisava beber. Precisava matar a sede.        

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