Julião e Maristela

Eram perfeitos, Julião sabia disso, todos sabiam disso, estava estampada na cara de todos o quanto eram perfeitos.
Ele encontrou Maristela quando menos esperava.
Vinha de um relacionamento meio conturbado, havia acabado ser rejeitado. Andava meio cabisbaixo, mas por uma daqueles momentos que só o destino é capaz de explicar (ou uma intervenção divina caso vocês, como Maristela, sejam devotos ferrenhos de Sant'Antônio... Que mulher devota, não perdia uma única novena, trezena ou septena, estava em todos os terços na rua ou onde quer que lhe chamassem). Ela rira pra ele no momento mais difícil, na mesma hora aquela gargalhada cheia lhe mostrou que aquela era a mulher.
Juntos sorriam de manhã, de tarde e de noite. Com ela conseguia ser o homem mais feliz do mundo... e não, essa não era apenas mais uma daquelas expressões exageradas de amor, era a mais pura demonstração da realidade. Não conseguia resistir a gargalhada dela. Caia no riso também!
Juntos construíram uma casa nova, trocaram de carro, passaram alguns apertos, mas tinham um ao outro, era tudo o que precisavam.

Eram perfeitos.

O telefone tocou no meio da madrugada... isso nunca é um bom sinal... nunca.
Atendeu com a voz ainda rouca de sono e com receio pela hora.

Alô...é o senhor Julião Alencar?
Sim, quem gostaria?
Aqui é Carla, assistente social do Hospital Geral.
Ai meu deus! O que foi Carla?!
Bem... se o senhor puder vir aqui no HG, tenho um assunto delicado para tratar com o senhor...
FALE MULHER!!!!! Diga logo que diabos aconteceu!!!!
É... bem... a senhora Maristela é sua esposa não é?
Sim! O que tem ela? O que TEM ELA???!!!!
Bem é que a dona Maris..
Ai meu deus.... não, não diga, não pode ser... ai Jesus... acho que to passando mal.
Calma... seu Julião, é o seguinte, eu vou mandar o rapaz da viatura que atendeu ao caso aí e o senhor conversa com ele, é melhor que o senhor pegar o carro nesse estado.
Ai meu deus... VIATURA???!!!... ta bom... minha Maristelinha...

O tempo passou como passa final de copa do mundo enquanto se espera o apito para gritar é campeão. Quase dava seis da manhã no peito de Julião e não passavam os vinte minutos que separavam a viatura do HG e sua casa.

Toc.. toc.. toc... (nunca tiveram campainha, Maristela sempre achara um luxo exagerado)
Boa noite.
Ai jesus, ai meu deus... fale logo seu policial, não me esconda nada. Cadê minha mulher, o que foi que fizeram com ela? Ela ta bem?
É... Calma senhor... Bem... ela está nesse momento no Hospital Geral como o senhor deve supor. Não fizeram nada com ela. E ela não está 100%, mas o médico previu a alta dela para amanhã de manhã.
Peraí... então por que esse rebuliço todo se amanhã minha estrelazinha vai estar em casa?
Na verdade, ela não vai estar seu Julião.
Como assim?
Ela ai sair de lá direto para a delegacia. Sua esposa é acusada de homicídio doloso e incêndio criminoso.
Oi????!!!! O senhor deve estar maluco... isso nunca aconteceria... Onde é que ela estava?! Que incêndio foi esse?
Bem... é... é o seguinte senhor, sua esposa estava no motel com um travesti e em algum momento eles resolveram brincar com velas e alguma coisa que estamos acreditando ser umas estátuas. Alguma coisa parece ter dado errado e bem... o rapaz foi carbonizado e o quarto inteiro ficou destruído. Quem nos ligou foi o proprietário do estabelecimento e bem... é isso aí. Caso o senhor queira comparecer amanhã a tarde para fazer alguma visita a ela...
Recado dado, o sargento Eloi virou as costas  e saiu da casa.

Ainda atônito Julião viu o homem se virar e sair... os olhos permaneceram fixos na porta por uns trinta minutos, quando então os olhos acordaram e reparou na casa... em cada um dos pequenos pedaços de pintura comida, de reboco aparente. Nos eletrodomésticos velhos e na tevê quebrada. Ela sempre reclamava de falta de dinheiro, mas agora entendera para onde foram cada um dos pequenos centavos.
Viu o retrato dela na parede e reparou como era magra, os olhos encovados e o cabelo mal tingido de loiro. Nunca fizera o tipo dele. Nunca a amara. Amava a ideia de tê-la... percebeu que nunca a tivera.

Foi dormir.

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