Meus pêsames - parte II

Até que enfim Marinalva conseguira um emprego perto de casa. 
A economia do país até que não tava tão má e por isso não lhe faltava emprego. Principalmente depois que resolveu deixar de ser fixa numa casa só e passou a atender como diarista. 
Todo mundo corria tanto que pareciam nunca ter tempo para fazer as coisas de casa, para isso ela tava sempre lá.
Mas por algum acaso do destino sempre que atendia o celular era pra receber chamado de gente lá do outro lado da cidade. Até fazia um certo sentido afinal, lá que estavam os endinheirados, mas em compensação nem por isso eram bons de pagamento, sempre tinha que chorar nem que fosse cinco reais... Com um tempo passou a ter uma convicção de vida, achava que todo rico só era rico porque pechinchava, só podia.  
O que aumentara ainda mais seu espanto quando recebeu a ligação de um cara, a menos de vinte minutos de ônibus de casa, e que sem o menor resmungo topou o valor que ela propôs. Não podia perder essa oportunidade.

Vassoura, balde, rodo, pano no chão, esfregara e esfregara, e esfregara de novo, tinha que deixar a casa bonita. 
Seu Damasceno era cheio de uns bibelôs por todo lado, ao que parece era um homem bem viajado. 
E acima de tudo, um homem cheio de manias. Pelo que entendeu do bilhete dele, deveria fazer tudo para dois. Dois pratos, duas taças, dois pares de talher, deixar toalhas enxutas para duas pessoas e daí por diante. 
Também tinha um gosto estranho por esculturas, por todo lado na casa via estátuas, algumas até conhecia de Nossa Senhora e São Francisco, mas outras lhe pareciam bem estranhas, tinham elefantes, mulheres com vários braços, cachorros que andavam em duas patas, um passarinho com corpo de gente, um homem todo vermelho com um terno branco, e em cada uma delas tinha que acender um incenso e deixar aceso mesmo quando fosse embora. Morria de medo de um incêndio, mas se o patrão queria, fazer o que né?
Mas de tudo, a parte que achava mais estranha na casa era o teto que tinha umas barras de ferro estranhas que seguiam por quase que a casa inteira e que, pelo que conseguira entender acabavam numa salinha no final do quarto do seu Damasceno de onde vinha um cheiro estranho e forte, e quase sempre quando ia ate perto da salinha, sentia vontade de chorar. Quando contara isso pela primeira vez para a Jessicleide ela disse que devia ser por causa do espírito da menininha, a filhinha do seu Damasceno que ao que todo mundo fala morrera de câncer, ou de saudades da mãe que tinha falecido cerca de um ano antes dela, ou os mais exagerados diziam tinha morrido num ritual de magia do pai... Nunca acreditara nisso, seu Damasceno pagava tão direitinho, não podia ter pacto com o capeta.     

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