O mártir - parte II

O salão gigantesco de mármore e ouro espelhava a luz do sol que entrava pelas portas laterais, não mais cobertas pelas gigantescas cortinas de tecidos finos. 
Nem bem os olhos se acostumaram com a claridade da sala e ele sentiu o braço ser pegue com força pelas mãos suaves de seu senhor. 
-  Sebastião, preciso de você. Chegaram-me notícias perturbadoras e em meio ao que se anuncia quero-vos ao meu lado para que tenha alguém de confiança em quem possa apoiar meus braços cansados após a execução da justiça.
- O que acontece meu amado senhor?
- Apenas prometa que estará ao meu lado. 
- Certamente que sim. É meu juramento de vida estar ao lado do imperador de Roma. Verter meu sangue para que o vosso seja preservado. Entregar minha carne em oblação para que a vossa permaneça imaculada. 
- Todos os pretorianos me prometeram isso, mas... sabes que é mais que um mero soldado para mim. 
- Sim, bem o sei meu senhor, e me honra sabê-lo.
- Sabes que nunca temi a justiça. O sangue construiu a trilha para minha ascensão ao poder. Assim como eu, tu viestes do pouco... mas podes ascender aos céus e quem sabe... tornar-se também um deus entre os viventes. Maximiano Augustus assim o fez por meio de sua fidelidade a mim durante as guerras contra Carino... Galério e Constâncio são césares. Juntos temos o poder na terra. Contudo, a quem mais eu honraria se não aqueles que me amam acima de todas as coisas... Sebastião, entendes o mundo que lhe apresento?
Ainda atônito com as palavras, o jovem soldado assentiu com a cabeça.
- Todos estes homens são velhos e tem faltado com sua missão. Crescem os que ousam dizer que sou apenas um homem normal... que não mereço o amor de meu povo... Sebastião... agarrei a Fortuna pelo braço e fodi-lhe pelo cu. Construí tudo o que tenho... quem mais o poderia ter feito senão um deus vivo? 
- Senhor... em que posso servi-lo?
- Os carcereiros deram conta de um homem que acusa pretorianos de envolvimento com os adoradores do carpinteiro. Quero os nomes... quero as cabeças.
- Mas, por que dar atenção a fala de um miserável prisioneiro que diria qualquer coisa em nome da liberdade e da clemência do augusto imperador?
- Porque estes cristãos são como baratas se proliferando por todos os lados. Contudo... dentro de minhas fileiras? Em meio a aqueles que juraram sua vida a mim? Não Sebastião... isso seria o fim de tudo. 
- Como devo fazê-lo amado senhor? 
- Obrigue-o a dar um nome...
- Sim senhor... vosso desejo será cumprido. (O soldado fez uma reverência de saudação e virou-se em direção a entrada da grande sala)
- Só mais uma coisa Sebastião. - falou o imperador Diocleciano com a potência da voz que já comandou legiões em campo aberto - traga-me todos os capitães da guarda, depois me encontre no palácio dos jogos. Hoje teremos diversão.      

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