Rua do desejo

Passou gel no cabelo.
Colocou o sapato mais novo que tinha.
Ainda não tivera tempo de comprar roupas novas então tascou aquela blusa preta de banda de rock mesmo.
O sapato verde limão com um short azul de tactel e a blusa preta formavam uma combinação tão correta quanto terços e cocaínas.
Era uma imagem meio tosca, mas enfim... era o que tinha pra hoje.
Era o primeiro mês de Teobaldo fora da cadeia.
Passara quase quinze dias andando a esmo, só pelo prazer de andar mesmo.
Passava na casa do amigo que o abrigara, tomava um banho, descolava alguma coisa pra comer e ia pra rua de novo.
Gostava do barulho do centro cheio e do vento que tinha lá na avenida central.
Mas cada vez que voltava do centro vinha por um caminho diferente.
Nunca entendeu o porquê, talvez nem existisse, fosse só mania mesmo, sempre que ia a algum lugar tentava voltar fazendo outro caminho.
Talvez mania de perseguição do tempo da cadeia, ou mais uma das pequenas loucuras que o alimentava.
Lembrava de que quando era criança se acostumara a comer pão com água porque a mãe lhe disse que era só isso que tinha pra comer na prisão, com medo de um dia ir parar lá e não conseguir se acostumar com a comida, foi se acostumando desde cedo. Lá dentro descobriu que comiam de um tudo, menos pão e água.
Em uma das voltas que dava pelo centro, entrou numa ruelinha que tinha algumas lojas de roupa.
Todo mundo estranhou a presença dele ali.
Realmente era uma figura que não tinha nada a ver com aqueles vestidos bonitos expostos nos manequins nem com aquelas senhoras de cartões com limites maiores do que todos os salários legais que recebeu na vida. Mesmo assim, ela sustentou o olhar contra o dele. Não com o desprezo que era habitual, parecia olhar com um misto de curiosidade e enfrentamento, parecia querer dizer "ei, você não me intimida", mas ao mesmo tempo olhava com uma fome estranha. Ela estava ali, mas não se parecia com o resto de tudo que tinha ao seu redor.
Era linda, branca como uma folha de papel nova de caderno no começo do ano. O cabelo passava da altura dos ombros, era cheio e ondulado. O semblante sério, desafiador... e guloso.

Desde desse dia sempre arrumava uma desculpa pra passar por aquela rua.
Quebrara suas próprias manias.
Enfrentava os outros olhares, sem problema.
Vez por outra o olhar dela se cruzava com o dele.
Ganhava o dia.
E pensava em outra desculpa para passar por ali.
Aquela era a rua dela.
Aquela era a rua do desejo.

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