O sono.

Arrastou a mão pelo rosto para limpar a baba que escorria do sono ébrio. Sentiu a barba mal feita, a mais de mês não sabia o que era uma lâmina. A mente ainda turva. O corpo suado, ainda nu sobre os lençóis molhados de suor, mesmo do lado do ventilador Arno de pazinhas azuis do paupérrimo e minúsculo quarto em que se encontrava. Lentamente a cabeça retornava ao local. Esfregou os olhos vermelhos de álcool. Os pés sentiam o chão de cimento queimado esperando por uma vassoura, que certamente viria ao amanhecer, quando o movimento da casa amornasse. Persistia ao longe um som bonito e cadenciado de uma sanfona harmônica, dois outros três vozes trôpegas acompanhavam o som melodioso do já embriagado maestro.

Ainda suado e babado vestiu as puídas peças de roupas que estavam no chão, ao lado das roupas miúdas de sua acompanhante que não estava mais lá. Não teve coragem de olhar. A íris já se acostumara com a escuridão quebrada apenas pela luz fraca e amarela do poste que entrava por uma brecha na janela de madeira. Apressou o passo, Sentia todos os olhos nele. Elas sempre o chamaram para lá, ele nunca aceitara. Todos os conheciam. Sentiam pena. Ele era forte, era.

Caminhou a pé os quatro quilômetros que o separavam de casa. Há mais de seis anos não tinha outro tipo de locomoção, não podia mais, não conseguia.

Demorou um minuto e meio na porta. Era uma casa humilde, pequena. Um quarto, um banheiro e um cômodo que tanto servia de cozinha, sala de janta e para receber as visitas... Se bem que há muito não tinham nenhuma. No começo vieram parentes, colegas do trabalho, amigos... Com o tempo rarearam, no último ano, dois ou três cartões no Natal, apenas isso.

Da porta olhou para ela. Estava deitada na cama, do mesmo jeito que estava quando ele saiu. Esperava vê-la em pé, com um rolo de massa na mão esperando para lhe bater, sonhava com isso... Quem dera, mas sabia que ela não o faria. Nem hoje, nem nunca mais, mas a mente ainda confusa achou de lhe pregar essa peça.

Despiu-se diante dela. Nada. Pela primeira vez em quinze anos de casamento sentiu vergonha de sua nudez, sentiu-se culpado. Levantou-a sem muito esforço, estava cada dia mais magra.

Ela olhou assustada, devia estar sonhando. Será que corria em seus sonhos? Será que ali ela podia gerar filhos? Será que era feliz? A água correu por seus corpos nus. Carinhosamente ele limpou-lhe as escaras que manchavam o cotovelo e as costas. As lágrimas dela se misturaram as gotas que caiam do chuveiro. Parecia feliz. Parecia entender.

Enxugou-a cuidadosamente. Fez o penteado que tanto gostava, podia ver em seus olhos, ela gostava. Fez a barba, a lâmina cega do Prestobarba já passado a mais de seis meses denunciava a situação econômica em que se encontravam. O espelho de bordas laranjas era o máximo de luxo que podia se permitir nessa casa. A quinta nos últimos meses. Despejado de todas. O sangue escorreu-lhe pelo queixo. Deixa sangrar...

Vestiu-se com a única blusa que não era de vereador que restava no guarda-roupa.

Encheu a mão com as bolinhas prateadas.

Com amor abriu a boca dela, forçou-a a mastigar e engolir. Colocou mais um pouco dentro da boca da amada e beijou-a, como a mais de seis anos não fazia. Desde o acidente de carro que a deixara assim não mais a tinha sentido daquela forma. Mergulhou nela até que o corpo mais uma vez suado desprendeu-se sobre o de sua amada. Dormiu e não mais abriram os olhos

Comentários

  1. Eiita mah. Adorei. Aliás, adoro esse ar de mistério presente na maioria dos seus textos. Muito bom.
    E Blog de roupa nova néh, gostei!

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  2. pois é, aquele outro tava dificultando a leitura, acho q esse tem um ar mais neutro que ajuda a não tirar a concentração. Já atualizou o teu blog?

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  3. me veio na cabeça tempos de guerra. Onde dois velhinhos não poderiam de forma alguma se sair. Abandonar a casa, as lembranças e as coisas, era aceitar que além de perder a vitalidade de dias que se foram, perderiam também as "memórias" contidas ali no espaço deles.
    Sei que seu texto não se refere a isso. No entanto, eu li assim.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Tu escreve uma coisa, eu leio duas e tu entende três. E viva a comunicação! ehehehe

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  6. kkkkkkkkkk!!!! E viva a comunicação. Não a toa tem aquela sabIduria popular que diz que as palavras são com pedras, só temos o controle sobre elas até as jogarmos, depois, o que vier... veio!

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