Meus pêsames

Meus pêsames...
...meus pêsames...
...meus... pêsames..
...meus...
...meus...

Fechou os olhos e recostou a cabeça no estofado da poltrona, não conseguia retirar a imagem da cabeça nem as vozes que incessantemente falavam de um sentimento de uma forma completamente sem sentido...

Meus pêsames... meus pêsames...

O que diabos queriam dizer com isso? Por que diabos alguém diria isso... O que era isso?

Sentiam o pesar pela perda dele e por isso partilhavam-no com ele... sabia a resposta, mas ela não respondia nada...
Achava menos cruel quando alguém simplesmente vinha em silêncio e o abraçava... apertado, demorado... Sentia o conforto, por alguns milésimos de segundo, mas sentia...
Sentia muito mais calor quando lhe transmitiam seus sentimentos com um olhar de compaixão...
Isso era muito melhor. Sentiam e compartilhavam da mesma paixão que ele... Paixão que é amor, sacrifício e ao mesmo tempo sofrimento...

Compadeçam-se de mim... mas nunca, nunca me deem seus pêsames... já basta o peso de minha própria alma... já bastava o peso de ter visto a sua pequena sofrer em uma cama de hospital por meses sem fim... chorando a cada agulha, gemendo a cada nova sessão do tratamento, virando uma versão cadavérica de si própria quando os cabelos e os quilos teimavam em ir embora... Sofreu ao lado dela, cada dia, cada minuto...
Ela descansou... já ouviu essa muitas vezes... é uma das formas menos cruéis de se dizer que já deu... que nunca mais veria o rosto dela se mexendo de novo... que nunca mais sentiria a pele dela tocando-lhe os cabelos enrolados que tanto gostava... que nunca mais a abraçaria... nunca mais...

Diziam-lhe para ter fé, que logo logo estariam juntos novamente... Ele não cria, frequentara a igreja a força, nunca sentiu de verdade o que as pessoas ao seu redor diziam sentir... Sempre estivera só... E no fim, deve ser isso mesmo... Nosso corpo se vai, e é só... só.... uma grande solidão, um nada... um frio causticante....um frio...causticante... ela odiava o frio... ela odiava o FRIO!

Não!!! Não!!!! Ela não pode ficar sozinha lá, ela não pode... não a minha pequena... ela é nova demais para tudo isso!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"A beleza do morto"

A demasia do excesso.

Sabedoria canina