Notado

Era por volta de seis da manhã.
O sol ainda preguiçoso acendia lentamente seus faróis.
O corpo esguio contra o chão contorcido em ângulos esdrúxulos era sintomático de uma vida.
De uma vida não. De uma morte.


- Alô, dona Carmem de Carvalho?
- Diga.
- A senhora tem algum problema cardíaco?
- Sim... é de alguma drogaria? Agora essa, nem amanheceu direito e eu recebendo trote...
- Bem, dona Carmem, a senhora poderia vir ao Instituto Médico Legal? A nossa assistente social gostaria de conversar com a senhora.
- Poderia... você pode adiantar...
- Infelizmente só podemos falar quando a senhora chegar.
- Ok...

O ônibus enganchado na lentidão habitual do trânsito hoje conseguia bater todos os recordes.
Não sabia se pelo aperto no peito que lhe fazia emergir em uma esfera espaço temporal distinta de tudo até então, mas nunca demorava mais do que uma hora pra fazer o percurso entre a casa e o centro da cidade e já estava presa ali há pelo menos hora e quarenta minutos.
Quando o ponteiro do relógio marcava quase nove horas começou a ver as luzes intermitentes dos carros de policia... Alguma coisa aconteceu logo a frente, isso explica tudo...
O ônibus inteiro movido no afã da visão da desgraça levantou-se. Os olhos acostumados a tragédia cotidiana dos intermináveis programas policiais com seus closes escatológicos em corpos embaçados e sangues esparramados olharam sem nenhuma estranheza o corpo, ou os restos de corpo jogados ao chão.

- Vuuuummmmm, ploct. kkkkkkkkkkk Bradou a criança do banco da frente.
- mulher esse menino é horrivel kkkkkk Virando-se para Carmem a mãe completa
Para não perder a resposta aguardada Carmem completou: - bem feito, só um idiota pra tratar de se jogar numa manhã de segunda-feira do alto de uma viaduto. Ta vendo... só pra atrapalhar o trânsito.

Continuou seu caminho até o Instituto. Chegou junto do corpo que terminara de ter as partes recolhidas há pouco.
  

A cabeça outrora cheia de incertas agora jazia aberta. Explodida contra o asfalto nunca mais pesaria sobre os ombros cansados daquele guerreiro.
A labuta de todos os dias, a eterna correria cotidiana, o frenesi do estar sempre uma passo atrás chegara ao fim.
Pela primeira vez estivera um passo a frente de todos.
Pela primeira vez não terá que lidar com a cara de enfado dela.
Muito menos com a expressão de desprezo deles.
Será notado.
Quem sabe até mesmo comovam-se com sua repentina partida e pensem o quanto ele era bom.
Sempre merecera um afago. Um carinho. Um reconhecimento.
Será reconhecido.
Disso tinha a mais absoluta certeza.
Isso, alimentou o sorriso e boca cheia que exibia ao longo do salto.


Foi notado... Atrapalhara o transito, atrasara as vidas, fechara o sinal.

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