Nanoolhos

O carregamento deveria chegar por volta das dez e meia da noite.
O carro forte com placas de diamantita e era tripulado por três soldados em exotrajes com dois drones de combate dando suporte aéreo.
A carga de hoje era especial, dois potes de biodados com lembranças do primeiro-ministro Cunha.
Hermes sabia do risco, mas queria enfrentá-lo mesmo assim.
Era um daqueles que podiam chamar de inconformados.
Eles faziam parte de um movimento que intencionalmente removeu através de cirurgia as lentes de suas vidas. Mais do que isso, acreditavam que esses recursos tecnológicos excessivos que permeavam cada passo deles na sociedade só os tornavam reféns.

No início os nanoolhos foram bem vindos.
Auxiliavam a recuperar a visão de pessoas vitimadas pelos gases tóxicos usados pelos martiáquicos na guerra dos mundos em 2130, mas não havia nada que o biocapitalismo não conseguisse transformar em lucro.
Em menos de dez anos protótipos bem mais leves e em formatos de lentes já estavam a venda no mercado.
O olho pela primeira vez transcendia as funções previstas pela natureza. Ligado as terminações nervosas das capilares oculares os nanoolhos conseguiam fazer com que a visão se tornasse uma integração completa entre a realidade virtual e a concreta.
Um mundo muito mais colorido e acima de tudo, particular.
Cada um configurava o mundo ao seu próprio gosto.
A cada semana novas skins eram vendidas nas lojas da Google, Microsoftov e Applechang.
Um universo de texturas passou a ser ofertado em pouquíssimo tempo.
A partir das terminações do olho criavam-se captações que produziam sensações em todas as partes do corpo.
Logo, o olhar, como nunca antes, se tornava a janela para a alma.
O que pareceu para muitos ser a solução para outros era a prova de como estávamos todos nas mãos das empresas.
Desde a privatização da segurança em São Paulo - nome do novo país originado da divisão do Brasil e que abrangia os estados do sul, São Paulo e a parte mais rica de Minas Gerais e do Centro Oeste, além de faixas de terra recém conquistadas do Uruguai e Paraguai - (e que até hoje, oitenta e nove anos depois se ressentia pela recusa dos cariocas em ingressar sua nova nação) os índices de segurança nunca foram tão altos quanto depois da chegada dos nanoolhos.
Algumas pessoas começaram a fazer a relação entre os fatos, bastou o negócio ocular tornar-se uma febre junto a população que as ações da polícia passaram a ser cada vez mais rápidas, até que vinte anos depois passaram a ser preventivas. Era óbvio que eles de alguma maneira conseguiram mapear as terminações nervosas e identificar os níveis de adrenalina e outros dados para compreender quando alguém ia cometer alguma ação considerada ilegal.
Os inconformados, como o próprio nome deixa evidente, não aceitaram esse tipo de controle e tentavam criar uma nova sociedade que olhasse mais uma vez para o mundo apenas com os olhos do corpo, buscavam assim ficar mais uma vez livres. Encontraram abrigo na fronteira entre os dois países. Depois da guerra de independência, uma extensa área entre a nova república parlamentarista paulista e a república federativa do Brasil foi abandonada. Brasilia fervia em chamas nucleares segundo todos os dados apresentados nos reportes de quinze segundos do Jornal Nacional.
Hermes descobriu da pior maneira possível que era tudo mentira.
E todos precisavam saber do mesmo.
Contudo...
Não podia ser ele, um qualquer falando.
Eles nunca acreditariam.
Precisava expor as memórias do primeiro-ministro recém falecido.
Todos amavam Cunha em São Paulo e era por meio dos olhos dele, ligado aos olhos de cada cidadão que a verdade seria revelada!

2197 era um ano para entrar na história.
Seria o ano da ressurreição do Brasil!

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