Bárbara

Eram quatro e cinqüenta e cinco da manhã, Bárbara levantou a cabeça do travesseiro e lentamente se levantou da cama, bem devagar para não fazer barulho.
Com olhos ainda sonolentos chegava perto do fogão, ligara o bujão e começava a preparar o café.

Forte e doce.

Assim como ela. Era assim que se considerava, que sempre se considerara.
Ainda criança escutara varias vezes a sua avó lhe dizer que era tão forte quanto seu nome.
E cresceu acreditando nisso.
Sempre disse para si mesma, eu sou forte.

E foi.
Foi forte quando se apaixonara pelo primeiro carinha, aquele bonitão do colégio que levou ela pra cama.
Já fazia tanto tempo, na época devia ter treze, quatorze..., não mais que isso. Fora forte quando ele disse que ele não a queria mais e que só dormiria com ela se um colega dele fosse junto.
E não foi uma unica vez. O ano letivo passou e os colegas também.
Foi forte, quando o vídeo foi parar em todos os celulares da escola.
Opa, melhor tirar o café do fogo senão vai queimar.


Começou a passar o pão, a cortar as frutas.

Acordou as crianças, eram dois: Tobias Michael e Pedro Salomão. Este segundo dera muito trabalho no parto, mas ela fora forte. Ele nascera vivo e estava lá saudável para contar a história.

História de mais uma superação e força de Bárbara.

Quando tinha dezenove, uma amiga lhe apresentou um belo homem recém mudado de Cabo-verde, ele era grandalhão e tinha um sorriso bonito, tão alvo. Estava a dois meses no Brasil e abrira uma pequena lojinha de importados.

Foi arrebatador, em três meses se conheceram, noivaram e casaram. Em dois anos ele tinha o visto permanente.

Ela fora forte quando ele lhe deu a noticia: estava desempregado. Ela tinha acabado de sair do segundo e mais difícil parto, mas não pode deixar-se abater, afinal, sua vó dissera...

Voltava do colégio, já havia deixado as crianças e agora pegaria a terceira condução. Ia para a casa de Mariane a amiga que lhe acudira no momento difícil. Passou a costurar calcinhas para arrumar alguns trocados. Era um trabalho cansativo, gostava menos ainda de queimar as pontas dos fios, saia toda dolorida.

Doze horas, chegava com as crianças em casa, ia acordar Tomás, seu marido; e voltar para o trabalho.

Eram duas e meia, duas e quarenta da madrugada, não dava pra ver direito, ele voltou, embriagado, como tantas outras vezes, cheirando a outras, como tantas outras vezes.
Mas dessa vez ele parecia diferente. Algo brilhava na mão dele.

Era uma faca?

Ele a atacou, uma, duas, tres vezes. Choro, gritos, e sangue.

Só se lembra do som, distante da ambulância chegando.

Ele fora embora, agora era ela, e as duas crianças.

Meses se passaram até que algo muito estranho aconteceu. Ela nunca poderia imaginar que fosse acontecer com ela.

Na facção de Mariane conhecera um mulher grandalhona, com um cabelo grosso e tão segura de sí. Ela lhe dera atenção e carinho. Encostada em seu ombro Bárbara pensou, mais uma vez tenho que ser forte.

E foi.

Todos falaram mal dela, mas o que podia fazer se era com Tânia que se sentia bem, que se sentia segura.

E fora forte, até mesmo quando todos olharam torto para ela no meio da rua. Quando fizeram piadinhas de canto de boca na reunião de pais. Quando Tânia deixou o emprego para se dedicar a uma ONG pela diversidade e teve de arrumar dois empregos.

Foi forte, passara por cima de tudo.

Onde ela está. A cama parece tão grande.
Que horas eram? Duas e meia, ou duas e quarenta?

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