Depois da tempestade

Os olhos semi-abertos - ou semi-cerrados - viam através de passagens inconstantes e inconsistentes a água lá fora. O calor provocado pelo abafamento das janelas fechadas o incomodara o suficiente para destituir-lhe do sono que tanto queria.
- Que droga, justo hoje, não podia.
Mas era verdade. Forçou-se a acordar.
Ainda estava com aquela sensação de dormência, mas erguera-se, aprumara a coluna e agora não podia mais negar para si próprio, estava chovendo, e bastante.
O ônibus estava quase vazio, mas o trocador fechara todas a janela, e passava budejando ao seu lado com uma flanela enchugando os bancos molhados por janelas que os passageiros "sem-querer" deixaram abertas.

Bem, tinha que se arrumar para descer, no meio daquele temporal...por Deus...

Bem, ainda faltavam umas seis paradas, então, nada melhor do que torcer.
Ah, e quer saber, deveria ser contratado como torcedor oficial de qualquer time do Brasil, por que deu certo. Quando chegou a sua parada o céu ainda estava nublado e caiam algumas gotas finas, mas comparado aquele pau-d'agua de agora a pouco, estava uma maravilha.

Caminhava pelas ruas alagadas, com calçadas mais cheias que o habitual, repletas de pessoas se escondendo da forma que podiam da chuva fedorenta que caia. Só agora reparara como a chuva aqui era diferente, deixava uma sensação meio pegajosa no corpo.... seria por causa do fluxo intenso de carros....sei lá....

Entrara no ballet, junto a mais uma dezena de jovens meio apressados ia fazendo acrobacias pelas calçadas lotadas e meio-fios alagados, mas ia conseguindo.

Até que lá na frente vira algo impressionante, a cena pareci-lhe muito comum, ele como um bom garoto do interior já vira isto inúmeras vezes, mas devia admitir, a situação era inegavelmente insólita.
Um homem sentado na borda da pista lavava sua camisa, jogava-a dentro de uma das poças formadas pela sarjeta sempre entupidas e depois batia-a no chão e esfregava-a no asfalto recém lavado pelas águas da chuva....

Conseguira chegar ao trabalho e lá passou um dia inteiro de chuva, com aquele friozinho de dar preguiça. Só tinha uma coisa na cabeça: a cama quentinha na frente da televisão dentro do seu quarto, mas alguém precisa trabalhar pra sustentar aquela família, então, fica pra a próxima...
- Tomara que chova no Domingo...

Enfim o sinal tocara, era hora de ir, encontrava uma cidade de ressaca, mas até que ela estava bonita, não tinha mais todo aquele lixo no meio da rua. Mais uma vez pegara a condução, agora, era pro rumo do lar....que bom.

Em meio ao seu cansaço enfadado, olhava para o lado de fora, sem querer ver nada, mas dessa vez viu. Uma senhora de seus sessenta e muitos anos, sorria parecendo criança enquanto tentava pegar uma borboletinha que saia do meio do jardim do shopping, que estava mais belo do que nunca por ter sido regado por aquelas águas tão imundas, mas que por um segundo o fizeram-no sorrir.

Ia pra casa, depois da tempestade.

Comentários

  1. Eu me vi neste texto. ^.^ Escrevo histórias assim, com pedaços de mim...mas às vezes fico meio receiosa de me expressar. Estou trabalhando nisso ultimamente..rss é bom.

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  2. Que legal que você se identificou, na bem da verdade é um texto bem maranguapense né??!! heheheh

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  3. Vi a cena que você me falou outro dia. De fato, em Fortaleza parece que já chove lodo, a cidade fica verde e pegajosa depois das chuvas... estranho.

    Texto excelente, amor, tem se aprimorado bastante desde que voltou a escrever. Nem sempre comento no blog, mas leio tudo, acredite.

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  4. Descobri agora que você tem um blog. Além de ser um excelente professor, você consegue ser melhor ainda como escritor. Parabéns !

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