Pedrinha miudinha.

"Pedrinha miudinha, pedrinha de aruanda é.." os batuques tocavam alto. Os braços levados por um transe rítmico batiam com força nos atabaques e tambores. Ôoooooooo. Como por um passe de mágica o volume das batidas baixou e ficou fazendo uma música de fundo perfeita enquanto no centro da roda, as barras de renda e miçangas balançavam, circulando rápido e onduladamente. A voz começou a soar. Era baixa, mas forte e precisa. Com um rouco arrastado preenchia todos os cantos do terreiro, chegava a todos os ouvidos, parecia falar dentro e cada alma.
- Cadê meu pagamento mizifí?
Uma galinha deu seu ultimo cacarejo. Enquanto o sangue escorria sobre a farofa, uma garrafa de cachaça beijou os lábios do santo.
Em meio a fumaça a voz mais uma vez fez os corações ficarem gelados.
-Hum...Ouvi seu pedido, recebi sua oferta. Agora, para brigar com esse diaxo fraquim tem que fazer outro tipo de sacrifício. Mande aqui o diaxo daquele boi.
E apontou com o dedo semi-curvado para um boi magro e feio que tinha no final do terreno da casa de orações. O animal pareceu saber que era com ele por que começou a mugir alto e rápido.
Os atabaques altearam mais uma vez enquanto o animal vinha arrastado para o centro e as mãos em tremelique do cavalo que carregava o santo recebiam um punhal de lâmina retorcida. A entidade ordenou:
- Olhe bem nozói desse bicho meu afilhado. Dêxe que esse boi mandingueiro tome de volta todo o mal olhado que botou sobre sunssê.
E de um golpe rápido arracou-lhe os olhos do boi, que sangrando e mugindo caiu no chão. Enterrou os olhos do bicho dentro de um vaso de comigo ninguém pode. -Rebole esse vaso no fundo do mar. Sunssê é meu afilhado, nada vai te bulinar mais.
Em um movimento rápido, o padrinho retirou uma pedra de dentro do bolso. E mais uma vez a voz baixinha soou.
Carregue essa pedrinha junto com você, todo dia, toda hora. Perca sua mão, deixe lhe arracare a pele, mas essa pedrinha voismicê num pode perder.

Os tambores bateram forte, a dança recomeçou. Os corpos suados, vestidos de impecável branco balançavam de um lado para o outro. Enquanto isso o afilhado sentia seu corpo sendo liberado do peso de todo o trabalho que lhe fizeram. Lembrou de como aquela velha nojenta e metida de cruz vermelha no peito e inveja no coração lhe olhava e budejava enquanto via seu sucesso. De lá para cá fora só infelicidade, o diaxo dos home resolveram lhe passar a perna, fecharam seu negócio de fabricar cd pirata, tivera que vender o carro e a casa pra pagar os prejuízos e evitar a morte da qual os antigos amigos tanto lhe amaeaçaram.
Sentia-se livre, mas queria mais.
Teria sua vingança.
Sentia a pedra quente dentro de sua mão, enquanto, arfando de alegria dançava e lembrava.
Diziam pra ele que se aceitasse tudo quietinho, na outra vida ia ter muita glória, mas ele não queria saber.
- Só vão ver seu corpo sangrado no final. Rá, agora era a sua hora,se pensavam que ele já estava vencido, agora ele se sentia brilhando mais que lua em dia de cheia!
Teria sua vingança e veria eles no chão!

E ao fundo de sua glória soava a melodiosa "pedrinha miudinha...."

Comentários

  1. Ihuu, do caralh.... meesmo. Gosto de vc escrevendo assim, mais do que quando escreve histórias romanticas e épicas. :]

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  2. carai. tá massa demais. Sério seu porra! Mano, tu tem um feeeling pra descrição que vou te contar...tava lendo e ao mesmo tempo ouvindo a música e sentindo a batida dos tambores. Envolvente.

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