Um conto do cólera - fragmento de uma dissertação.


Amanheceu frio. Um dia nublado, com o vento que preconiza a chuva soprando forte e úmido. Sabia que o sol estava lá, bem atrás das nuvens.
Fechara a janela, não podia suportar mais aquilo, aquela sensação de frio já o solapava demais, sua carne e sua alma.
As lembranças fluíam em uma propulsão veloz e voraz, meio que mecanicamente abotoava a camisa, cobria-se de preto. A casa estava silenciosa, nem se parecia com aquela moradia cheia de vida de alguns meses atrás. A dor fora tamanha que o homem não lembrava ao certo o tempo que se passara desde aqueles dias de alegria. E não era sem motivos, depois de anos morando ali, a partir do ano de 1845 começara a assistir o sucesso da economia da vila. Não era mais um pequeno povoado de passagem.
O homem, comerciante, ia todas as quintas-feiras para o comércio do gado, que vinha de Canindé e rumava para Fortaleza. Pouco a pouco, as pessoas que frequentavam a feira mudaram, os pequenos vaqueiros e donos de poucas terras deram lugar a senhores bem arrumados e com sacolas mais cheias.  A vila tornara-se uma grande produtora de gêneros. O porto que se instalara em Fortaleza passou a servir de escoadouro da produção de cana-de-açúcar que vinha dos distritos nos arredores do povoado, sem falar que em pouco tempo descobriram o cultivo do café. Foram bons momentos. Foram. Dezessete anos. Breves anos. Esse fora o tempo que levaram para transformar a aparência do pequeno aglomerado de casas.
 A década de 1850 foi marcada por anos felizes, a economia crescia, a vila ganhava ares mais organizados e, logo na virada, entre 1849 e 1851, chegaram as notícias: eram vila e sede de freguesia. Nada mais justo, já que agora o lugar era um dos principais parceiros econômicos para a capital Fortaleza.

O homem terminou sua tarefa enfadonha com os botões e começou a caminhar pela casa. Em sua marcha lenta passava por quartos ainda escuros e fechados, salas e corredores estreitos, mas vazios, silenciosos.  Ainda não podia acreditar que eles foram, e ele não.

De soslaio, olhava para o cômodo onde funcionava a sala. Podia ver sua esposa, que remendava mais uma vez o joelho da calça do filho mais novo. Era um moleque travesso, que passava os dias fugindo das tarefas, correndo pelo terreiro da casa atazanando a vida dos negrinhos que traziam os baldes de água do rio. Mas quando a vista desembaçou e as lágrimas terminaram de cair, enxergara a verdade: era apenas a cadeira, a mesma cadeira em que ela se sentava todos os dias para fazer suas costuras e reparos nas roupas dos moleques, mas ela não estava ali.

Resolvera sair da casa, tudo estava recente demais, não tinha condições de suportar aquilo. Caminhava pelas ruas bonitas do novo centro. Passava em frente à Igreja Matriz, com suas paredes grossas, seu átrio espaçoso. Era ela o maior símbolo de toda a mudança da vila. Quando em 1849 chegou a ordem do bispo e do presidente de província dizendo que agora Maranguape era a sede da freguesia muita gente ficou em polvorosa. Lembrava bem como aquele lugar era apenas um roçado alto no meio de alguns poucos pés de cana. Já havia uma igrejinha na vila, mas ela era muito acanhada, quase decadente, ficava do outro lado do rio, na “Outra Banda” da cidade, onde haviam as casas mais antigas. Os fazendeiros não deixaram que a matriz fosse construída lá. Trouxeram-na para a sua banda. E agora lá estava a igreja grande e imponente.
Lembrava-se bem de todas as confusões que esta igreja já causara. Achava até que tudo o que acontecera – o mal que acometera a vila – tinha sido por culpa desses políticos, que não cessavam de interferir na fé alheia. Os ricos senhores mexiam e remexiam em um mundo que não lhes competia. Alteraram por duas vezes o padroeiro da vila. Ora, isso é coisa com que não se brinca. Acharam de retirar de São Sebastião o nome e a proteção da vila. Não tardou um ano, estávamos sob o signo da peste.

Uma garoa fina começava a cair, o vento frio que soprava há pouco não mentira. Parecia que, assim como o homem, os céus também choravam. Nunca fora muito bom com as letras, só entendia o básico para poder tocar seu comércio adiante, contudo, acompanhara a doença dia após dia através dos jornais. Ia para a casa do Dr. Marcos Teófilo, seu vizinho. Ele lia periodicamente o jornal “O Cearense”, do qual era assinante, e naquela leitura em alta voz repassava para os amigos as notícias do restante da província.
Recordava-se bem, se bem que às vezes nem gostava de recordar. Era um fim de tarde, início de março, quando o médico leu uma série de cartas publicadas que questionavam sobre a possibilidade de a província ter sido atacada pelo cólera. No jornal, o Dr. Thebergue e o padre Manoel Francisco da Frota desacreditavam totalmente nesta possibilidade, diziam que lá no sul da província reinava a saúde e a bonança.
Na vila de Maranguape também se criou uma celeuma, Dr. Marcos achava que a peste já se encontrava em solo cearense, mas o Dr. Motta, outro médico que atendia aos fazendeiros enriquecidos da vila, achava essa idéia impossível, afinal, dizia ele, o Ceará era uma terra onde reinava a salubridade. A tal peste, inclusive, já correra das terras cearenses em 1855. Para que prova maior?          

O homem acreditara no Dr. Motta, não por concordar com ele, mas por que preferia crer que nada chegaria na vila. Pouco tempo durou a sua intencional ignorância. Mal começou o mês de abril e já surgia o anúncio: o cólera chegara.
 Mesmo assim reinava entre a população da vila a crença de que a peste só atacaria os sertões secos e doentes. A vila era uma terra de serras, de ares saudáveis e de águas medicinais, assim diziam os médicos. Quantas vezes o homem mesmo já não fora ordenado pelos doutores a ir passar uns dias no alto da Pirapora, banhando-se na cachoeira para curar catarros e febres.
A água fria que caia do céu o lembrava das gotas grossas e pesadas caindo das cachoeiras durante seu tratamento. Era melhor voltar para a casa, senão era capaz de adoecer de novo e, se tinha algo que não podia fazer, era isso.
No meio do caminho, vira dois escravos magros, quase esqueletos ambulantes carregando paus atravessados nas costas com baldes nas pontas. O rangido do metal o levara a reviver um pesadelo. Se via diante daqueles malditos carregadores de defuntos, que o governo da província contratara logo que a situação se tornara crítica. Podia sentir aquele bafo fedorento de cachaça, aqueles olhos baixos e vermelhos que pararam diante de sua porta e levaram, toda desarrumada, sua menina, sua filha caçula. Queria ter tido forças para acompanhá-la, para vesti-la melhor, para levá-la ao padre, mas não conseguira. Tinha suas próprias dores, estava fraco e corroído pelo vômito e pelas fezes, se é que podia chamar aquele líquido quente e nauseabundo de fezes.
Logo no início de maio, a doença chegou em Maranguape. Em pouco tempo, a quantidade de acometidos era assustadora. Lembrava-se das outras doenças que enfrentara na vila e como elas pareciam meras paródias diante da violência com que o cólera chegara. Parecia disposto a matar, não parecia querer dar chance aos médicos e medicamentos. Marcos Teófilo, seu amigo, passou a ter dias cheios, ia de um lado para o outro da vila tentando atender aos doentes, mas, na verdade, parecia apenas ir assistir a seus antigos pacientes na hora da morte. Suas tentativas de combater o mal colérico não pareciam dar certo. Pulava de uma casa para outra vendo o mesmo cenário: quartos nauseabundos habitados por corpos emagrecidos e olhos fundos que pareciam procurar no médico uma resposta para aquilo que lhes atacava sem explicação. Não demorou muito e o poder provincial resolveu se apiedar da vila, que em poucos dias já contava com quase 500 mortos. O Dr. Motta não suportou a epidemia e, um mês depois da chegada da doença, pediu destrato e se foi da vila. Foi quando o governo contratou o Dr. Rufino de Alencar.
Todos viram nele uma pequena sombra de esperança. A presença de Rufino era constante na vila e, em outras oportunidades, viera acudi-la em momentos de graves enfermidades. Mas o que o trouxe não foi apenas o apelo do poder público, queria estar próximo a seu pai, o pároco Pedro Antunes de Alencar Rodovalho. Até então as pessoas da vila não haviam conhecido nenhum outro pároco, ele viera junto com a criação da freguesia. No ano da peste, 1862, Pedro Antunes era um senhor de muitos anos.

Entre maio e junho as notícias de fora ficaram escassas. “O Cearense” parou de circular, mas no momento não se buscava saber o que acontecia fora da vila, tínhamos muitos problemas e poucos agentes de solução. O delegado Joaquim Felício adoecera, o Dr. Marcos também. A quem recorrer? Muitos resolveram se apegar à fé, mas quando olhavam para o céu ele parecia nublado. O representante de Deus, padre Rodovalho, caíra doente e em estado gravíssimo. Em meio a isso, homens e mulheres buscavam a cura dentro de sua própria sabedoria.
O homem lembrava-se de que logo que a esposa caíra doente uma escrava lhe sugerira pendurar algumas moedas de cobre no pescoço de modo que ficassem pendendo sobre o ventre que se contorcia em dores. Não dera certo. Um conhecido lhe indicara ipecacuanha e até mesmo uma mistura de aguardente e limão. Tentara de tudo, mas nada funcionava. E ele, sem ter mais o que fazer, resolveu seguir as orientações de seu convalescente amigo Marcos: entregou a esposa para a enfermaria dos coléricos, que estava sob o controle do Dr. Rufino e do cirurgião Américo Fabiano. Ao todo eram três os locais para onde acorriam os adoentados, havia duas clínicas para mulheres e a enfermaria mantida pela comissão de socorros que se instalara na vila sob a liderança do Coronel Sombra. Em três dias a esposa estava no caixão.

Julho chegava e a desolação varava a vila. O poder público não cessava de tentar ajudá-la. Veio um novo médico Dr. Pedro César, morreu antes de desfazer as malas. E o desespero se tornou incontrolável. Ninguém era intocável, todos podiam morrer. Mas o pior ainda não chegara: em meio ao luto pelo médico, faleceu o pároco. Mesmo com todos os cuidados de Dr. Rufino, seu pai, padre Rodovalho, morreu. E a vila ficou só.
O maldito mês parecia não querer acabar, somente na sede da vila já haviam morrido 800 pessoas e em todo o termo da freguesia, a conta já ultrapassava dois mil.

Ao lado, o sino tocava a segunda badalada, a hora se aproximava. O homem recuperou um pouco os sentidos, fugindo da digressão. Sentia-se cansado por ter relembrado tantas dores seguidas e continuadas provocadas pela peste. Todas as pessoas que ele vira partir e que apenas soubera que haviam morrido dias, semanas ou até meses depois.
Cabisbaixo, se deparara com o oratório que preservava dentro de casa. Ali estava ele, sujo ainda da cera que derretera de inúmeros círios colocados na frente da imagem de seu padroeiro: São Sebastião, manchado pela fumaça das velas, retorcido pela dor das flechas cravadas em seu corpo. Persignava-se mais uma vez, proteção nunca era demais quando se tratava daquela maldita doença. Maldição mandada por Deus e que ninguém conseguia resolver.
Lembrava-se de como a vila ficara feliz com a chegada do novo padre, Padre Galindo Cavalcante, um homem enérgico e pragmático. Com vigor, tentou elevar a moral e a esperança da vila, e pode-se dizer que conseguiu. Convocava a população para orar a Deus pedindo o fim do flagelo, e mais que isso, fora ele que acabara com a vergonha dos corpos que apodreciam pelas ruas a caminho do cemitério, jogados sem vida nas bordas da estrada, insepultos. Fora sob a batuta de padre Galindo que os poucos sãos da vila tomaram para si essa missão de enterrar seus entes queridos. O padre trouxera esperança até mesmo para os médicos e membros da comissão de saúde pública que, pelo que o homem se lembrava, tinham mandado uma carta para o presidente e outra para o bispo agradecendo o envio daquele sacerdote, uma vez que ele aumentara em todos a coragem, fundamental para vencer a doença, como lhe dissera um dos médicos. Os espíritos quebrados pelo terror eram sempre os primeiros a sucumbir.
Fora difícil ter coragem após ver três de seus cinco filhos morrerem pela peste, assistir aos dois negros que ele mantinha na venda se acabarem em vômitos e dores e, por fim, se despedir da sua prestativa, prendada e amada esposa. Lembrava-se como a esperança de que tudo acabara tinha, por duas vezes, lhe visitado, mas se mostrara malevolamente falsa. Em agosto de 1862, achavam-se livres. Ledo engano. Em novembro também, mas 1863 começara doente. Apenas pelo meio de março que tudo cessou. A peste se fora, mas levara consigo 2850 pessoas, alguns desconhecidos, mas muitos amigos e parentes.
Com o peito contrito, descansara na velha cadeira de balanço da mulher. Após meia hora, tocava a última chamada, era hora do último ato de coragem. Levantou-se com a alma e o peito em frangalhos, mas levantou-se. Com sua frequente roupa de luto, ia para a missa em memória da mulher. Já se iam trinta dias.
Lá fora, o sol começava a aparecer por entre as nuvens.

Post-Scriptum: O texto acima se trata de um conto fictício sobre o cólera morbo que acometeu a vila de Maranguape nos anos de 1862 e 1863. O personagem central, bem como seus familiares, é um recurso estilístico para que pudéssemos apresentar o espaço da vila e das disputas internas dos moradores da vila. Os acontecimentos históricos citados são devidamente referenciados e analisados foram narrados na minha dissertação de mestrado, cujo link já foi publicado neste blog.

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