Caleidoscópio - parte final



Sentiu o gosto de sangue na boca. Cuspiu o liquido vermelho no tapete que cobria o chão da sala velha. Tentou levantar, sentiu o corpo inteiro dolorido. Sentiu suas entranhas rasgadas. Apalpou-se lentamente sem saber se queria ou não identificar o que provocava aquela dor lancinante. Mas teve de deparar-se com a dura realidade. 
Estava nua, ou, melhor dizendo, tinha ainda dois ou três trapos de pano mas que nada cobriam. Os dedos machucados esmiuçaram a haste de metal e enfim se deu conta, o maldito Alex havia lhe enfiado um castiçal no cu.
  
Com dificuldade levantou-se, mas nem chegara aos primeiros passos e seu olhar, já se acostumando com a penumbra viu a poltrona maldita em que ele sempre estava. Teve medo. Chorou sozinha.

- Até que enfim a vagabunda acordou, pensei que não fosse mais se levantar. Você deve ser maluca de vir aqui ainda suja de sua noite de safadeza para manchar a memória de meus pais.
 - Não, eles nos queriam juntos, eles nos queriam uma única entidade, completa e perfeita. Mas você estragou tudo.
 - Você ainda tem coragem de falar alguma coisa prostituta?!
A tapa dura e seca trouxe silêncio a sala.

Meu deus, se deixar, ele vai me matar – pensou Sandra. No arroubo de desespero jogou-se sobre ele. Para quê? O maldito era rápido. Caiu como uma pedra sobre o criado mudo espatifando o porta-retratos com a foto dos pais.
Isso lhe  dilacerou o coração. Desesperado Alex tentava juntar os pedaços de vidro sobre a folha amarela da foto.
Aproveitando-se desse instante de distração Sandra viu sua oportunidade. Enfiou o pedaço de vidro no olho daquele monstro. Era hora de dizer adeus.
Ele, ainda marcado pela dor estendeu uma mão para apertar-lhe o pescoço. Como era forte o demônio. Grudou nela como se fossem uma só.
E pelo olho bom, ele viu em um dos pequenos cacos de vidro, eram um só. Era a mão dele quem apertava o pescoço dele mesmo enquanto ela furava o próprio olho. Mas não eram parecidos, eram a mesma pessoa.
Eram Alexsandro dos Santos. Um homem comum, mas duas vidas em um único corpo.
O trauma pela perda dos pais e o isolacionismo a que tivera que se habituar durante a adolescência lhe fez ser mais que um. No início era bonitinho, ela era apenas uma amiga imaginária, mas com o passar dos anos as vidas foram tomando rumos cada vez mais distintos. Os médicos lhe disseram - Sofres de transtorno dissociativo de identidade. Mas o dinheiro falou mais alto, e talvez por ser mais que um, sabia fazer dinheiro, realmente era uma musico de mão cheia. Agora todos saberiam, ele realmente parecia tocar a quatro mãos.

Comentários

  1. Muito bom! Me lembra Cisne Negro, acho que retrata o mesmo transtorno. Doenças psíquicas assim ainda precisam ser muito estudadas em suas raízes, a perspectiva de cura é tão remota pra esses males tão destrutivos...

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