Caleidoscópio - parte I

A sala estava escura, Alex estava sentado na cadeira bem próxima ao canto esquerdo da grande sala da casa de dois andares que herdara dos pais.
A sua esquerda uma abajur grande quebrava a sombria noite que se instalara na casa. A sua frente a porta. Queria ver quando ela abriria.
Ao lado direito uma pequena mesa com o quadro da foto deles, os saudosos pais. Há anos não limpava o vidro, apenas suas lágrimas caídas sobre o espelho criavam um borrão sobre o lugar onde deveriam estar as imagens dos pais.
Se eles estavam turvos sobre a mesa, em sua mente permaneciam o tempo todo vivos.
Foi por eles, e apenas por eles que conseguira continuar a lutar quando todos diziam que ele não conseguiria mais nada, quando afirmaram que seu destino seria uma cama de hospício e medicações pesadíssimas.
Ele disse não, porque sabia que eles lhe diriam para acreditar, confiar.
E sempre que se lembrava de onde chegara começava a chorar, e mais uma vez, as lagrimas molhavam o espelho que cobria a velha fotografia.

Durante anos teve que aguentar as troças que lhe jogavam, mas ele seguiu.
Ele, sua camisa xadrez, o velho jeans desbotado e a eterna certeza de que todos queriam o que era dele.
Calou-se e colocou em sua musica tudo aquilo que queria dizer, tornou-se um multi-instrumentista, fez dinheiro, nunca fora o mais rico entre os colegas - a quem recusava o título de amigos -, até poderia ter sido, mas sua reclusão auto imposta fechou algumas portas.
Que se fodam todos, tenho a meus pais e eles têm a mim, o que mais importa?
Mas havia algo mais.

Sandra apareceu durante o ensaio. Ele tentou ignora-la, mas ela insistiu, chegou até mesmo a ter medo dela, a criatura o acompanhava por onde quer que ele fosse.
Tentou resistir, correu, se ocupou, mas ela sempre voltava a sua vida.

Era o décimo aniversário da morte dos pais - que termo mais ridículo para se relembrar uma data tão cruel... - ele se fazia lágrimas dentro do banheiro da capela quando a viu pelo espelho, parecia um vulto distante, mas pouco a pouco se aproximou, quando esfregou bem os olhos pode ver como ela era linda.
Ela não falou nada, apenas fizeram amor, intenso, brutal, sexo de esquecimento e dor. Ao terminar ele tinha um sorriso no canto da boca e um peito arfante. Ela partira, mas não pra sempre.
Voltou outras vezes até que ele entendeu o que seus pais iriam querer.

Recebeu dentro de sua casa como se fosse sua mulher, apesar de nunca ter aceitado casar com ela.
E nem mesmo se darem tão bem... Eram diferentes, completamente diferentes, mas mesmo assim, às vezes pareciam ser um só.

Confiara naquela mulher, e agora estava mais uma vez ali, sozinho sentado na poltrona que um dia fora de seu pai, acompanhado apenas da foto de sua mãe e do seu velho.

- Aquela vagabunda tem muito o que aprender... e eu vou ensinar... eu vou.

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